As sete guerras do mundo árabe

Maio 26, 2015

Desde Rabat até as águas do Golfo de Omã estende-se o mundo árabe com seus 23 países (inclui-se aqui o Chade onde 54% da população é muçulmana) e pouco mais de 420 milhões de habitantes para os quais, à medida que o século XXI avança, a paz torna-se uma perspectiva cada vez mais inalcançável. Nas ondas da permanente instabilidade que separa sunitas - cerca de 80% dos seguidores de Maomé – e xiitas, sete conflitos mesclam suas motivações e por vezes até mesmo seus guerreiros, no Iraque e na Síria, no Iêmen, na Somália, na Líbia, no Chade, na Palestina e no Egito. Segue-se um breve resumo de cada caso, na tentativa de ajudar a quem tenta compreender a complexa conflagração que hoje atinge o norte da África, em geral conhecido como África branca, e o Oriente Médio.

[caption id="attachment_1987" align="alignright" width="300"]Mundo árabe Mundo árabe[/caption]

  • Iraque e Síria, nas garras do Exército Islâmico – No começo, quatro anos atrás, a luta era para remover do poder a Bashar al-Assad. O ditador está debilitado, mas o conflito se agravou. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL ou simplesmente EI), grupo ultra radical que se separou da Al Qaeda e segue a mais estrita doutrina salafista, um ramo do sunismo, desejando retornar aos primeiros dias do mais puro Islã implantou um califado sob o comando de Abu Bakr al-Baghdadi. Como símbolo, no centro da bandeira negra do movimento está escrito “Não há outro Deus senão Alá”. Apesar dos bombardeios e dos drones norte-americanos cada vez aumenta mais seus domínios e já tem células atuantes também na península do Sinai, Arábia Saudita, Iêmen, Argélia, Afeganistão, Paquistão e no leste da Líbia. Alimentado por doações de milionários do Golfo e por produtos dos saques de bancos que ocupa à medida em que avança, depois de tomar Nínive, acaba de ocupar a histórica cidade síria de Palmyra. Enquanto isso, em abril a Coalisão Estado de Direito venceu as eleições no Iraque com apenas 28% dos votos o que lhe dá um novo e instável mandato com Haider el-Abadi no lugar de Nouri al-Maliki, até aqui o principal sustentáculo da interferência americana.
  • Iêmen cede espaço aos Houthis apoiados pelo Irã – Uma desesperada tentativa da ONU de reunir em Genebra, no dia 28 de maio, a representantes do presidente Mansur Hadi, recém demitido e autoexilado em Riad, e dos rebeldes xiitas Houtis, foi adiada indefinidamente, à espera da improvável vitória militar de um dos lados. A mais nova ameaça é a invasão de milícias jihadistas vindas da Somália.
  • Somália e suas autonomias – Em agosto um drone americano matou Moktar al-Zubeyr, o poderoso líder do Al-Shebab (ou Shabaab), grupo ligado à Al Qaeda que se fragmentou aderindo aos reis da guerra que dominam as regiões autônomas de Portlândia e Jubalândia, justo em frente à costa do Iêmen, a 20 milhas (32 km) de distância. A Al Qaeda da Península Arábica (AQAP) propõe unir suas forças nos dois países, em combinação com os bem treinados piratas somalis, bloqueando as atividades marítimas no Mar Vermelho. A Somália tem sete regiões autônomas e o Governo Transicional Federal do presidente Hasan Sheikh Mohamud está numa delas.
  • Líbia com três governos e 1.700 milícias – O governo de Abdullah al-Thini, de “Dignidade”, reconhecido pela União Africana e apoiado por Egito, Arábia Saudita e EUA fugiu para as cidades de Tobruk e Beida, deixando a capital Trípoli para o 1º ministro Omar al-Hassi (“Amanhecer líbio”) que tem o suporte de Sudão, Qatar e Turquia. O primeiro acusa a estes de serem salafistas aliados da Irmandade Muçulmana que, por sua vez, dizem que al-Thini é “filhote do cão egípcio al-Sisi”, em referência ao ditador eleito no Cairo. Já em Derna reina a ex-milícia Ansar el Sharia que rompeu com a Al Qaeda para associar-se ao EI, instalando um califado que ganha dinheiro com o tráfego de vidas humanas ao enviar migrantes em barcos precários para as costas da Itália e de Malta. Incontáveis bandos formados desde a época de Kaddafi formam milícias que atuam sem controle em todo o país.
  • Chade vira alvo do Boko-Haram – A guerrilha nigeriana Boko-Haram, que se considera o EI das Províncias da África Ocidental, saiu à caça dos refugiados nas margens do lago Chade, limite também para Niger e Camarões. Em aberto desafio ao presidente chadiano Idriss Deby por ter aderido às forças da União Africana formadas para combatê-lo, atacou o porto de Dikwa, massacrando seus residentes.
  • Palestina até quando? – Uma solução razoável ainda é um sonho inatingível para a pátria palestina, hoje dividida em três partes, uma em Israel, outra na Jordânia e a terceira composta pela Cisjordânia sob governo do Fatah e pela Faixa de Gaza nas mãos do Hamas. O último incidente foi uma explosão em campo de treinamento do Hamas, mas não está claro se foi um míssil israelense ou um acidente interno. Na ONU a Palestina é um Estado Não-Membro, como o Vaticano.
  • Egito de novo com os militares – A síndrome do faraó continua caracterizando o exercício do poder no Egito, onde após um curto intervalo de um ano de governo democraticamente eleito outro golpe, em junho de 2013, devolveu o governo aos militares. Agora, a condenação de Mohamed Morsi e de centenas de membros da Irmandade Muçulmana à morte radicaliza a situação e endurece ao máximo a posição do presidente el-Sisi (anteriormente Comandante em Chefe das Forças Armadas). A sensação é de que a Primavera Árabe que em fevereiro de 2011 derrubou Osny Mubarak após 30 anos de governo, de nada serviu; o exército, cujo orçamento é secreto, segue dominando mais de 40% da economia nacional e o povo aguarda nova oportunidade para enfrentar nas ruas o faraó de plantão.
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