Cidades sem carros e sem multas

Abril 24, 2015

[caption id="attachment_1905" align="alignright" width="300"]Car Free Day (imagem: geopolitics.knoji.com) Car Free Day (imagem: geopolitics.knoji.com)[/caption]

Você já pensou em ficar livre do Detran, das catastróficas (para seu orçamento) multas de trânsito e, de quebra, dos engarrafamentos que infernizam o dia a dia das nossas cidades? E ver os Pronto Socorros, os serviços de emergência médica com tempo para atender bucólicos doentes normais (enfartados, com urgências digestivas, respiratórias) ao invés de não terem mãos a medir para socorrer a legião de politraumatizados trazida pelos acidentes cada vez mais provocados pelas motocicletas? Alguém acredita que algum dia conseguiremos novamente viver em cidades sem o caos urbano que hoje as caracteriza? Quem sabe poderemos eleger governos que sequer pensem em reduzir um IPI qualquer para ajudar as fábricas e montadoras de veículos e para lucrar com isso ou que se preocupem em brecar o avanço da poluição trazida pela gasolina? Ideias que só cabem na cabeça de sonhadores, de utópicos que nada entendem da realidade, da política como ela é, dirão os racionalistas sempre cheios de razão.

Na contramão do realismo aparentemente invencível dos que pensam em tudo resolver na base da polícia nas ruas, dos pardais à espreita de incautos nos postes a cada quinhentos metros ou da construção de mais ruas e avenidas, cada vez mais largas e cheias de buracos, há sim alguns homens que observam atentos o ponto ao qual chegamos e se convencem de que é preciso mudar de rumo. E não são seres extraterrestres nem criaturas virtuais que só aparecem nas telas dos nossos computadores comunicando-se pelo WhatsApp. Ao contrario, nesta semana pudemos encontrar alguns deles, de carne e osso, em Bogotá, em Davos, em Tóquio.

O alcalde (prefeito) da capital colombiana, Gustavo Petro, enfrentou a ira da Federação do Comércio, incomodada pela perspectiva de uma redução na clientela, por ter instituído na última 4ª. feira, um novo Dia Sem Carros (entre 6 da manhã e 7 da noite), no que foi acompanhado por Medellín e pelo menos por outras nove cidades do Vale do Aburrá. Um milhão e duzentos mil carros particulares e quatrocentas mil motos tiveram de permanecer nos estacionamentos ou em suas garagens, sob pena de terem de recolher 322 mil pesos (R$ 270,00) aos cofres públicos e ter o veículo apreendido. “O prefeito é a maior autoridade municipal no trânsito e pode tomar as medidas que ache necessárias”, respondeu a diretora de trânsito diante das críticas de que uma consulta popular realizada no ano 2000 autorizara só um dia por ano, e este já era o segundo no semestre. Petro quer impor um dia ao mês com as ruas vazias.

Para a ONU o Dia Mundial Sem Carros é 22 de setembro. A União Europeia aprovou a Semana de Mobilidade, com seis dias dedicados a campanhas educativas dos motoristas e da população em geral. Estados Unidos, Japão e China – mecas da indústria automobilística -, não aderiram. No entanto, várias cidades por terem se tornado inviáveis para o trânsito de veículos ou por um elevado nível de conscientização frente aos efeitos cada vez mais próximos e severos do aquecimento global, estão agindo. Em Nova Iorque 56% dos moradores não possui carro (na ilha de Manhattan 78%; em Boston, Philadelphia, San Francisco, Baltimore, mais de 30%). Londres proibiu a circulação de carros no centro nas horas de pico e Hamburgo na Alemanha - 1,8 milhão de habitantes - aprovou um plano que prevê substituir no prazo de 20 anos as estradas e ruas hoje lotadas pelos automóveis de seus 1,8 milhão de habitantes pela Grünes Netz (Rede Verde). Já hoje os apartamentos mais caros são oferecidos em edifícios sem garagem. Automóveis não são permitidos nas estreitas ruas de Veneza.

No Fórum Econômico Global de Davos, Suiça, deste ano o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore e o ex-presidente mexicano Felipe Calderón, falando em nome da Comissão de Economia e Clima, propuseram aplicar US$ 90 trilhões nos próximos anos para redesenhar todas as cidades (ou construir novas) para que não necessitem utilizar carros. O grupo espera persuadir os principais líderes mundiais a de fato fazer alguma coisa para impedir o esforço suicida da humanidade por meio do aquecimento da Terra. “O erro que cometemos no México foi o de permitir o crescimento sem controle das cidades”, disse Calderón, ao considerar que o maior desafio está em convencer os prefeitos de que o custo de organizar cidades sustentáveis no futuro é menor que o de seguir no modelo atual baseado no uso do automóvel.

Por último, as notícias das viagens ainda experimentais entre Tóquio e Nagoya (286 km) feitas pelo trem de levitação japonês (Maglev – Magnetic Levitation) em pouco menos de 30 minutos, voando a 600 km por hora. O trem bala que está em operação faz o mesmo trecho em 100 minutos e é considerado lento pelos seus usuários. Enquanto isso, a velocidade média nos pontos de congestionamento típicos das maiores cidades brasileiras em horários críticos não passa de 5 km por hora.

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