Corrupção é endêmica nos BRICS

Fevereiro 14, 2015

[caption id="attachment_1712" align="alignright" width="300"]Índia Contra a Corrupção. Slogam das manifestações de rua em Nova Delhi, 2014 Índia Contra a Corrupção. Slogam das manifestações de rua em Nova Delhi, 2014[/caption]

[caption id="attachment_1714" align="alignleft" width="300"]Julius Malema e membros do Economic Freedom Fighters sendo expulsos do Parlamento sul-africano Julius Malema e membros do Economic Freedom Fighters sendo expulsos do Parlamento sul-africano[/caption]

A doença é considerada endêmica quando no decorrer de um largo período histórico acomete sistematicamente grupos humanos em uma determinada área, região ou país. Sem dúvida esse é o caso da corrupção quando se analisa o bloco conhecido como os BRICS – constituído por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, líderes dentre os países em desenvolvimento. O Brasil é hoje visto como hors concours nesse páreo não por ter inventado qualquer teoria de corrupção e sim pelo volume de recursos movimentado nos casos do Mensalão e do Petrolão, este batizado como o maior escândalo econômico do mundo contemporâneo. Segundo a versão 2014 do Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional (TI)l, os BRICS estão respectivamente classificados em 69º (Brasil), 136º, 85º, 100º e 67º posto entre 175 nações. A Índia pela 1ª vez superou a China num indicador onde os mais sérios são Dinamarca e Nova Zelãndia, os menos: Somália e Coréia do Norte. Eleições decididas pelo dinheiro, medicamentos falsificados, propinas como regra não apenas subtraem recursos dos mais vulneráveis, mas minam a prática da justiça e o desenvolvimento econômico.

A Rússia, construída sobre as ruínas do Império Otomano, herdou as formas clássicas de corrupção asiática como o suborno em dinheiro ou mercadorias, a elas acrescentando os modernos métodos ocidentais. “Ne podmazhesh – ne poyedesh” diz o ditado (Até que você molhe a mão, nada se move). A Associação dos Advogados Russos para os Direitos Humanos calcula que a corrupção consome 50% do PIB nacional. Segundo estatísticas do Ministério do Interior em média a propina paga em contratos no país é de 300 mil rublos (4,7 mil dólares ao câmbio atual). Em relação ao comércio global, entre as 28 maiores nações, a Rússia tem as empresas mais corruptas. Afirmando que, apesar dos seus distintos regimes políticos, há pouca diferença em termos de corrupção entre Rússia, China e Índia, Rapti Gupta (www.ibtimes.com.in/) lembra que ao menos neste último um poderoso movimento anti-corrupção emergiu, liderado pela sociedade civil e pelo grupo Gandhi Anna Hazare que foi ruidosamente às ruas nas últimas eleições. Na Rússia, onde vigora o “putinismo”, o ativismo civil luta sem sucesso por seu espaço. Embora Putin queira ser visto como o principal inimigo das práticas ilegítimas que corroem a eficiência estatal e sua reputação, um rápido crescimento da corrupção verificou-se a partir de sua posse no ano 2.000. Já na terra de Mao, o presidente Jinping alardeou seu desejo de acabar com este mal, prendendo muitos políticos e militares de alto coturno, mas a maioria dos observadores não está convencida da eficácia das medidas adotadas. Sabe-se que a maior parte do dinheiro ilícito que circula pelo mundo (cerca de 40%) vem da Ásia.

O caso da África do Sul tem suas particularidades, mas guarda muitas semelhanças, em termos de efeitos, com o que tem acontecido no Brasil. O Congresso Nacional Africano - CNA, o PT de lá, teve como obra máxima a derrubada do regime do apartheid e a posse de Nelson Mandela em 1994. Desde então a escolha do presidente e das autoridades em geral é feita nos conclaves internos do partido. A votação indireta no Parlamento é um ato pró-forma, que apenas reitera o decidido pelo CNA. Mandela saiu por vontade própria em 1999, sendo substituído por Tabo Mbeki e, após curta interinidade de Kgalema Moylanthe, pelo zulu Jacob Zuma que assumiu em 2009 e governa até hoje. Zuma não tem qualquer educação formal e se notabilizou quando em 2005 aos 62 anos teve um relacionamento sexual não consentido com a filha de um colega de direção partidária. Ele sabia que ela era HIV positiva e declarou que para livrar-se do contágio em seguida ao ato sexual “tomou uma ducha”. Numa terra onde a Aids era e é epidêmica, os protestos pela extrema ignorância da declaração correram mundo. Ela o acusou de estupro, mas, depois que os tribunais absolveram Zuma, optou por pedir asilo político na Holanda onde agora vive.

Em algumas de suas mais recentes estripulias, ele fez obras de requintado paisagismo, uma imensa piscina e mobiliou sua casa particular com o dinheiro dos contribuintes.  Na 5ª. feira 12 de fevereiro de 2015, no momento em que fazia o discurso à nação no plenário do Parlamento sul-africano apresentando as metas a atingir do exercício, Zuma enfrentou a ira do ex-líder da ala jovem do CNA, Julius Malema - atual membro do movimento esquerdista “Lutadores pelas Liberdades Econômicas” (EFF em inglês) -, e de seus seguidores, todos vestindo túnicas vermelhas, dedos em riste e cara a cara gritando: “quando é que você vai devolver o dinheiro?”, numa referência aos 23 milhões de dólares por ele supostamente desviados do Fundo Estatal de Previdência. Os opositores foram carregados à força para a rua, acompanhados  pelos deputados do principal grupo da minoria, a opositora Aliança Democrática. Naturalmente, Malema – que comanda a campanha nacional “Pay Back the Money” (Devolva o dinheiro) - é por sua vez acusado de pertencer a uma família de oligarcas e de ter comprado um automóvel Mercedes Benz com recursos desviados de obras públicas em seu estado de Limpopo, na divisa com o Zimbabwe, Se for condenado poderá pegar quinze anos de cadeia, saindo do caminho do partido do governo e sendo proibido de levantar suas já costumeiras e incômodas questões.

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