Teerã, a nova ameaça à Petrobrás

Janeiro 19, 2016

Para quem anda mal das pernas qualquer tropeço por pequeno que pareça é um desastre potencial. As informações hoje veiculadas dizem que a Petrobrás (conforme a provedora da área financeira “Economatica”) perdeu nada menos que 85,5% em valor de mercado ou R$ 436,6 bilhões desde o pico histórico da estatal na bolsa de valores em 2008, quando a estatal atingiu na Bovespa valor de mercado de R$ 510,3 bilhões. Já no fechamento dessa segunda-feira, após as ações caírem pela primeira vez em 12 anos abaixo de R$ 5,00, levando a cotação do papel ao menor patamar desde novembro de 2003, a petroleira registrou avaliação de R$ 73,7 bilhões.

[caption id="attachment_2679" align="aligncenter" width="300"]Hassam Rohani, presidente do Irã, saúde o acordo com os EUA Hassam Rohani, presidente do Irã, saúde o acordo com os EUA[/caption]

Neste cenário desastroso, o acordo nuclear agora firmado com os Estados Unidos e as grandes potências remove o bloqueio econômico a que estava submetido o Irã, fazendo com que Roknodin Javadi, o ministro do petróleo iraniano declare a disposição do país em aumentar a produção em 500 mil barris/dia, o que certamente resultará numa baixa ainda maior dos preços no mercado global, embora a cotação já esteja em 28 dólares o barril (a menor desde 2003). Não está claro o tempo que será preciso para viabilizar tamanha recuperação, considerando que as restrições externas haviam forçado o país a reduzir suas exportações de 2,3 milhões de barris/dia para 1 milhão/dia. Dois outros fatores relevantes pesam nesta análise: a) o mundo está numa fase de superoferta de petróleo; b) a Arábia Saudita, maior exportador mundial, deve aumentar sua cota exatamente para forçar uma diminuição ainda maior dos preços e inibir o crescimento de curto prazo e a expansão de oferta no médio prazo do Irã, seu maior inimigo.

De imediato aguarda-se a visita do comando da União Europeia a Teerã com o objetivo de fechar acordos para a compra de gás e assim limitar sua dependência da Rússia. Quer evitar a repetição do ocorrido quando, ao anexar a Crimeia, Putin ameaçou cortar o suprimento de gás à Europa em pleno inverno (sem calefação quantos morreriam de frio?), quebrando a resistência política do Ocidente.

As repercussões sobre o Brasil merecem outro tipo de análise, pois o mercado interno está completamente distorcido pela atual crise ocasionada em grande parte por problemas domésticos relacionados à gigantesca onda de corrupção que atingiu a estatal. O sobrepreço aplicado pelo governo à gasolina e ao diesel vendidos no Brasil é respectivamente de 20% e de 30%. Ou seja, os preços para o consumidor estão baixando no mundo inteiro e, na contramão, sobem apenas no Brasil, penalizando duramente o consumidor nacional. Um exemplo desses desequilíbrios pode ser visto cruzando a fronteira com o Paraguai entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. A gasolina que no lado de cá custa R$ 3,68 o litro, lá é vendida pela Petrobrás a R$ 2,80 graças à quarta redução sucessiva promovida este ano para competir com os fornecedores de outros países.

A gasolina é adquirida pelos países a um mesmo preço, mas o que é cobrado em cada um deles depende de vários fatores como o câmbio, a política tributária, a relação entre o que é produzido por parte de cada um e o que é importado. De acordo com dados da Globalpetrolprices.com, o litro da gasolina custa hoje, em média, US$ 0,97 (noventa e sete centavos de dólar). Ao abastecer seu carro o leitor pagará US$ 0,02 na Venezuela; 0,49 na Rússia; 0,44 no Equador; 0,59 nos Estados Unidos; 0,78 no México, todos países que são fortes produtores e subsidiam as vendas internas para beneficiar seus povos. E, por diferenças nos tributos aplicados, despenderá US$ 0,50 na Bolívia e 0,61 na Colômbia (em compensação morrerá com US$ 1,01 o litro na Argentina e 0,99 no Chile). Os brasileiros que já são obrigados a adquirir automóveis por preços absurdos, devido aos extorsivos impostos a que estão submetidos, agora são chamados a bancar os roubos praticados contra a sua maior estatal. A valente tributação tupiniquim dá resultados como estes: um Gol (com airbag) custa R$ 29 mil no Chile e R$ 46 mil no Brasil; um automóvel Corolla 2016 está em oferta por US$ 15,450 nos Estados Unidos, por US$ 21,658 na Argentina e por US$ 37,636 no Brasil.

O outro fator que tem importante influência é a relação entre volumes de importação e exportação praticada no Brasil, onde principalmente se vende petróleo em bruto e se compra derivados como a gasolina, o que conduziu a déficits recorrentes na conta petróleo em 2014 e 2015 apesar do aumento na produção e no que foi exportado. Vale lembrar que a megaestatal brasileira está no mercado, tem suas ações ofertadas na Bovespa e nas principais bolsas internacionais, mas tem pouca autonomia para fixar preços e para determinar sua própria política comercial, submetidas às imposições de um governo que interfere na administração e quer determinar regras – mesmo que conflitantes com as necessidades da empresa – para fechar as próprias contas. Tanto Dilma Rousseff quanto o venezuelano Nicolás Maduro convocam todos os santos imagináveis pedindo que o barril de petróleo volte aos 147 dólares de julho de 2008, o que é extremamente improvável. Em seguida, os analistas setoriais assinalam uma tendência a agravar os níveis de oferta e de baixos preços do barril, mas consideram que para o final do ano os países que estão fora da OPEP poderão ser forçados a diminuir a produção, desse modo reimpulsionando os preços no mercado global. (VGP)

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