MADURO, COCAÍNA E AS ELEIÇÕES VENEZUELANAS

Novembro 14, 2015

Nicolás Maduro, inteiramente dedicado à militância sindical que o livrou do duro ofício de motorneiro no metrô de Caracas, desde cedo ficou profundamente impressionado pelo grau de compromisso ideológico e pela beleza daquela advogada, que logo se notabilizaria pela defesa de Hugo Chávez quando ele foi preso em 1992 por ter tentado dar um golpe para derrubar o então presidente Andrés Perez. Cilia Flores, 9 anos mais velha (hoje com 61 anos) e de um estrato social bem acima do seu, casada com três filhos, parecia inacessível. Mas, ele cresceu na estrutura partidária, conseguiu por fim conquistá-la e já viviam juntos quando, contra todas as evidências pregressas, tornou-se presidente da República enquanto ela, nada mais nada menos, mantinha-se como a presidente do Congresso venezuelano (a Asamblea Nacional, unicameral). Casaram-se menos de três meses depois da posse. Pelos cânones do chavismo, Maduro considerou que o título de 1ª. Dama tinha conotação burguesa, e a denominou de “1ª. Combatente”. Na família grande e bem de vida, cresceram como irmãos Efraín Antonio Campos Flores e Francisco Flores de Freites, sobrinhos de Cilia que se firmou como uma das principais figuras do Partido Socialista Unido da Venezuela, o PSUV, principalmente depois de ter inspirado a criação dos Circulos Bolivarianos.

Na última 3ª. feira os dois jovens saíram do anonimato internacional ao serem detidos em Porto Príncipe por um comando da DEA (Administração de Combate à Droga)  dos Estados Unidos e da polícia haitiana, em plena negociação para entrega de 800 kg. de cocaína, uma carga avaliada em 80 milhões de dólares. A DEA monitorava os passos da família Flores há oito meses e filmou todos os contatos e conversas com os receptadores em Tegucigalpa (Honduras) e no Haiti. Efraín e Francisco chegaram em um jatinho pertencente à Mercantil Inversiones Sabenpe C.A. , conhecida na Venezuela como uma grande empresa Coletora de Lixo urbano e que está sendo processada pela municipalidade de Sucre (na Grande Caracas) porque há meses perdeu a concessão pública e não desativa um depósito extremamente poluidor com 20 toneladas de detritos num lixão de sua propriedade. Em seguida foram enviados a New York para enfrentarem o devido processo.

A três semanas de importantes eleições parlamentares, a discussão é se a notícia da prisão da dupla é boa ou ruim. Não obstante o golpe assestado a uma poderosa rota internacional de tráfico de drogas – há estimativas de que cerca de 1/3 das 442 toneladas métricas de cocaína anualmente produzidas na Colômbia fluam para o mundo através da Venezuela –, abre-se a possibilidade de que Maduro adie o pleito previsto para este 6 de dezembro sob o argumento de estar sofrendo um novo “ataque imperialista”. Isso poderá acontecer caso o governo sinta que de fato será derrotado de maneira drástica nas urnas. No momento, as pesquisas de opinião dão 60% das intenções de voto para a oposição reunida na Mesa de Unidade Democrática (MUD) composta por 25 partidos e movimentos, e 30% para o PSUV.

Nos últimos meses próceres oposicionistas trocaram acusações mostrando profundas divergências entre seus dois maiores líderes: Henrique Capriles do partido Primero Justicia com um discurso não conflitivo e Leopoldo López, há 21 meses detido, que pede a renúncia de Maduro. Há poucos dias fecharam acordo que prevê unidade política com formalização de candidatos apenas através da MUD, submissão a consenso de iniciativas particulares, além de um pacto de não agressão e definição do chavismo como rival comum. Serão eleitos 167 deputados num sistema misto (2/3 por votação nominal e o restante pela lista partidária) no qual 60% das cadeiras fica com quem vencer, mesmo que por escassa margem. Nesse sistema, hoje 99 deputados são do PSUV..

Resta ver se o povo, que considera o desabastecimento, a insegurança e o custo de vida como seus maiores problemas, está convencido. Na ausência de propostas claras de mudança, o que se espera é a predominância do “voto contra” o chavismo Com uma inflação que chega a 87% este ano e desabastecimento geral de 61% dos produtos comercializados no país, os saques ao comércio passaram a fazer parte da paisagem nacional ao lado das filas intermináveis e desmoralizantes que costumam formar-se a partir da madrugada na garagem dos supermercados, uma prática imposta pela administração pública para que não sejam vistas da rua.

[caption id="attachment_2440" align="alignleft" width="250"] Efraín Campos Flores, sobrinho da 1a. Dama da Venezuela, preso por tráfico de cocaína em Porto Príncipe, 11/2015 Efraín Campos Flores, sobrinho da 1a. Dama da Venezuela, preso por tráfico de cocaína em Porto Príncipe, 11/2015[/caption]

O governo determinou um dia por semana, segundo o último número da carteira de identidade, para cada venezuelano fazer compras no “programa de venda de produtos básicos e escassos” como leite, farinha de trigo, sabão em pó, creme dental. Nas farmácias o controle é pela impressão digital dos dois polegares, mas nem isso resolve quando se trata, p.ex., de anticoncepcionais ou medicamentos anti-hipertensivos que realmente desapareceram das gôndolas. A alternativa continua sendo o comércio informal nas periferias, alimentado pelos bachaqueros, pessoas comuns que vivem de comprar o que podem o tempo todo nos mercados e lojas públicas e privadas tradicionais para revender por preços pelo menos quatro ou cinco vezes mais caros, desde que se livrem da polícia fiscalizadora bolivariana.Nicolás Maduro, presidente da Venezuela e sua esposa, Cilia Flores (AP, Caracas, 2015)

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela e sua esposa, Cilia Flores (AP, Caracas, 2015)

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