Enfim, solidariedade

Setembro 12, 2015

Milhares de loiros austríacos correram para os trens para distribuir cobertores, roupas e mamadeiras em troca de sorrisos e 'muito obrigados'!

(o texto seguinte, de autoria do responsável pelo site MUNDO SÉCULO XXI, foi publicado na página de Opinião do Estado de Minas / Belo Horizonte).

Vitor Gomes Pinto Escritor, analista internacional

Publicação: 12/09/2015 04:00

É verdade que o chanceler Verner Faymann – qual um Joaquim Levy ou um Nelson Barbosa de lá, sempre pronto para trazer futuras más notícias – já avisou que as medidas de emergência atuais logo terão de ser substituídas pelo que chamou de “uma normalidade juridicamente compatível” com o fluxo de migrantes e as possibilidades do seu país de absorvê-los, mas é impressionante a explosão de solidariedade do povo austríaco vista no domingo (6 de setembro). Marcou uma inversão de expectativas na maneira com que a Europa Ocidental afinal está acolhendo milhares de desesperados que vêm da Síria, do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, do Sudão, da Nigéria, do Iêmen, até mesmo do Irã e que atravessam a Grécia, a Sérvia e por fim, a Hungria. No centro de recepção de Nickelsdorf e na estação de Linz, as cenas se repetem, com centenas, milhares de loiros austríacos correndo para os trens com as mãos para distribuir chupetas, cobertores, roupas, mamadeiras, principalmente medicamentos, por vezes algum dinheiro, em troca de sorrisos e “muito obrigados” carregados de emoção e de esperança.

Uma carreata de 140 veículos perfilou-se junto à fronteira disposta a penetrar no território húngaro para trazer os migrantes, conduzindo-os para o estádio de futebol e para os locais de acolhimento na Áustria. Organizados via Facebook, poucas orientações foram necessárias. Bastava ir e levar o que pudessem para ajudar. Um dos organizadores, ao responder a pergunta sobre estarem ou não violando leis de migração, respondeu: “Qualquer um seria louco se prendesse pessoas que estão apoiando a decisão deles mesmos de permitir a vinda para cá”.

“Aqui, na Hungria, e na Sérvia, a polícia nos trata como animais e vamos seguindo e pagando o que nos cobram a cada passo, de labirinto em labirinto” disse Samar, uma mulher síria de 40 anos, à agência de notícias AFP. A Hungria é, hoje, politicamente, o país mais à direita na Europa. No poder por cinco anos desde 2012, o Partido Fidesz, populista de direita, do presidente János Áder e do primeiro-ministro Viktor Orbán, tinha 2/3 das cadeiras no Congresso graças à aliança com o ultraconservador Partido Cristão Democrático Popular (KDNP). Mas, este ano, a maioria absoluta foi rompida com o crescimento em eleições intermediárias do Movimento para uma Hungria Melhor (Jobbik), considerado o mais direitista dos agrupamentos políticos europeus em função de sua doutrina abertamente racista, antissemita, baseada num nacionalismo étnico radical e em teorias neonazistas. A renúncia do ministro da Defesa Csaba Hende na segunda-feira, logo após uma reunião de muitos desacordos internos do Conselho de Segurança Nacional, não deve ter qualquer efeito prático, pois Orbán já o substituiu por outro membro do Fidesz.

Com a Alemanha de Angela Merkel tomando a dianteira na onda de arrependimento que varre parte do continente europeu, os primeiros-ministros da Itália e da França secundaram o papa Francisco com declarações humanitárias e pedidos de cooperação efetiva que, no entanto, parecem inteiramente destituídos de conteúdos e efeitos práticos diante da tragédia dos 70 corpos em decomposição (59 homens, 8 mulheres e 3 crianças) encontrados em uma van à beira da estrada no rumo de Viena e logo do corpo do menino Aylan Kurdi nas areias de uma praia turca. São tragédias que se transformam no coroamento de toda uma “política” de omissão e de xenofobia há anos estimulada nos países da Europa Ocidental, cujos governos de há muito não têm mais desculpas nem perdão.

Estimativas da ONU dizem que 300 mil pessoas fugiram de conflitos e da fome da África e do Oriente Médio em direção à Europa somente neste ano. Milhões empilhados em campos de refugiados no Líbano, Jordânia e Turquia aguardam uma chance para seguirem o mesmo caminho.

O jornal Heute, de Viena, no domingo, noticiou que “a Grã-Bretanha e a França estão a considerar uma intervenção militar na Síria”, supostamente em conjunto com os Estados Unidos. A informação toma por base declarações feitas pelo ministro das Finanças, George Osborne, para quem “a crise dos refugiados precisa ser resolvida pela raiz”. Será essa a solução: mais guerra?

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