Vinhos da cidade perdida de Atlântida

Julho 14, 2015

Encontrei o homem com uma taça de vinho nas mãos fazendo-lhe companhia quase à beira do penhasco na ilha de Santa Irene – Santorini para os gregos -, observando o vai e vem das ondas.  Pareceu-me ter idade bastante para satisfazer minhas curiosidades. Perguntei-lhe: “ainda é possível produzir bons vinhos e bebê-los sem remorsos enquanto a Grécia afunda em mais uma de suas intermináveis crises?”

O velho sorriu, pegou a garrafa do melhor branco do país, feito com a Assyrtico, a uva típica da região das ilhas Cyclades e ofereceu-me uma taça para só então falar, embora sem responder diretamente ao que eu perguntara. Disse que tudo começou com Dionísio, filho de Zeus e Deus das plantas e do vinho, em cuja honra as festas por vezes se transformavam em orgias radicais. Quem sabe como um castigo pelos excessos cometidos pelos homens, em 1650 a.C. o vulcão de Santorini explodiu com uma violência nunca vista na face da Terra nos últimos dez mil anos, provocando um tsunami que dividiu a ilha ao meio. “As águas sempre azuis que estamos vendo na verdade cobrem a imensa caldeira deixada pelo vulcão. A lava substituiu o solo, a grama, as árvores e por fim restaram apenas as pedras, o abismo ... e as parreiras. A tragédia passou à história como a “minoan explosion”, pois a civilização minoica que desde sempre reinava em Creta a partir dai feneceu. Mais de mil anos depois,  Platão em seus textos Timeu e Critias contou a história da minha cidade, a cidade perdida de Atlântida.” Distraído com a beleza estonteante da paisagem não vi que o homem fora embora sem dizer-me sequer o seu nome. Decidi chamá-lo de Dionísio.

Muito tempo se passou para que a Grécia se tornasse, em 1458, parte do Império Otomano. O consumo de álcool, banido pelos muçulmanos, perdurou até 1829 quando o país conseguiu sua libertação e a independência. Já no século XX teve de conviver com duas guerras mundiais, a guerra civil e sete anos de ditadura militar, para só então ganhar a democracia e um governo republicano. Para os vinhedos uma nova e fatal ameaça surgiu em 1863 no Languedoc francês: a filoxera, um inseto hermafrodita originário do Colorado na América do Norte, que ataca as raízes da planta sugando-lhe a seiva até fazê-la murchar e morrer. A praga espalhou-se por toda Europa e pelas Américas, dizimando as plantações de vitis vinífera e causando imensos prejuízos. Sem tratamento conhecido, a solução foi o enxerto em vinhas americanas resistentes que até hoje é o método universalmente empregado para impedir a contaminação. Contudo, uma única cepa permaneceu incólume: a Assyrtiko de Santorini (os vinhedos do Chile, graças à barreira natural dos Andes, não foram afetados) e mesmo assim nunca se esclareceu se é o sistema radicular da própria planta que é imune ao ataque do pulgão, ou se a resistência se deve às cinzas vulcânicas que predominam em seu solo, constituído essencialmente de xisto e calcário.

Privilegiada por sua localização geográfica, entre os paralelos 33º e 40º (latitude norte), a Grécia goza de condições ideais para produção de vinhos de alta qualidade, embora na prática tenha se dedicado à produção de vinhos brancos. A Assyrtiko precisou adaptar-se ao regime de fortes ventos trazidos pelo mar Egeu e ao calor abrasador de pelo menos cinco meses ao ano, sendo possível vê-la com as cepas cultivadas rasteiras, adquirindo um curioso formato de cesta. Outras áreas de solo muito arenoso nas Cyclades também bloqueiam a passagem dos insetos sugadores da filoxera, e alguns ainda costumam fazer o plantio em “pé franco”, ou seja, com as mudas sendo colocadas diretamente no solo, com bons resultados, mas mesmo assim a técnica do enxerto já é utilizada por quase todos os vinicultores do país.

Há regiões vinícolas na maioria das províncias gregas e a qualidade dos vinhos melhorou muito desde a adesão à União Europeia. Algumas sugestões: Domaine Sigalas Assyrtiko 2009 e Kavalieros Santorini 2009, ambas com mais de 90 pontos na avaliação de Robert Parker; Argyros Santorini Assyrtikos 2014, Hatzidakis Santorini 2014, Gai’a Santorini Assyrtikos Wild Ferment 2014 (sugeridas por Eric Asimov em sua coluna no The New York Times). Quando surgir a oportunidade, não deixe de tomar o Nemeia Gaia Estate, um excelente tinto com a uva Agiorgitiko produzido pela Casa Gaia Wines, ou o famoso Moscatel de Samos (da ilha de Samos). Embora 2/3 dos vinhos gregos sejam brancos - o que não desmerece seus bons tintos – há 300 cepas nativas reconhecidas. A própria Assyrtikos com frequência aparece mesclada com a Athiri, originando um branco seco e bem equilibrado. Se possível evite aquele que é o carro-chefe da oferta nacional, o Retsina (10% de toda a produção), um branco proveniente das uvas Savatianó e Raditis ao qual é adicionada resina de pinheiros de Alepo ao mosto. Considerado um “vinho tradicional” tem mesmo gosto de resina e a dor de cabeça consequente é inevitável.

Nos últimos anos cepas não autóctones, como a Cabernet Sauvignon, Shiraz e muitas outras começaram a ser cultivadas, mas só podem entrar em corte com as uvas locais. Os vinhos nacionais por sua alta tipicidade têm dificuldade para serem exportados, ficando dependentes do mercado interno e da capacidade de compra dos gregos que fatalmente encolherá em função das duras medidas restritivas impostas pela Europa do euro à economia do país. É improvável que cepas tipicamente alemãs como a Riesling e a Gewurztraminer conquistem algum espaço entre os helenos. Afinal, a figura de Angela Merkel é vista pelo povo como um símbolo dos tempos de austeridade que cada vez mais irão sufocá-lo.  Platão não poderia prever que o tsunami econômico de 2015 provocaria mais estragos do que o vulcão Santorini que há quase quatro séculos atrás fez de Atlântida uma cidade perdida e Dionísio urgentemente deveria retornar à Grécia para devolver um pouco de alegria a seus súditos. (VGP)

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