Líbia: cada vez mais uma nova Síria

junho 24, 2020

Vitor Pinto.

Escritor. Analista internacional.

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Foto de Maksim Shutov em Unsplash

Quase nove anos depois que mísseis da OTAN bombardearam e afinal assassinaram Muamar Ghadafi quando o ditador fugia para Sirte sua cidade natal, já está mais do que na hora de devolver a paz ao povo líbio, condenado a servir de teste para as mais modernas armas de ataque e defesa produzidas pelo 1º mundo. Em 20 de outubro de 2011 o comboio onde viajavam Ghadafi e seu filho foi explodido num ataque arrasador de forças norte-americanas, canadenses e europeias. Ele ainda tentou correr em fuga desesperada, caiu num esgoto e recebeu o tiro de misericórdia, ao que se sabe disparado por um soldado francês.

Tudo isso para quê? Talvez pelo petróleo (a Líbia é o maior produtor africano), mas nem isso está sendo aproveitado. Os grandes poços, localizados no oriente do país, permanecem em território dominado pelo marechal de campo e Senhor da Guerra Khalifa Befayez Haftar, cujo “Exército Nacional Líbio” (ENL) comanda 70% do desértico país, ao centro e a leste. A capital Tripoli e a cidade de Misrata – cerca de 15% do território - permanecem com o “Governo de Acordo Nacional” (GAN) que é reconhecido pela ONU e tem Fayez Al-Sarraj como 1º Ministro. Os restantes 15% albergam dezenas de tribos tradicionais. Esquecida pela ONU, pela Europa, pelos Estados Unidos e pela África, a Líbia transformou-se num campo de testes para modernos armamentos produzidos principalmente no 1º Mundo. Os líbios têm alguma utilidade apenas quando entram na guerra, como milicianos ou mercenários.

Nada é permanente e as lealdades mudam ao sabor da guerra. Haftar recentemente fez um tour pelos países amigos, em parte formados na base do ódio à Irmandade Muçulmana e em parte pelas promessas de concessão de vantagens de exploração do petróleo. Garantiu o apoio da Rússia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Egito, França e a neutralidade dos Estados Unidos, Itália e da vizinha Tunísia, o que lhe deu ânimo desde abril de 2014 para atacar violentamente a Trípoli. Com isso, boicotou as várias iniciativas de paz em curso principalmente na ONU e assumiu o status de respeitado ator (player) no intrincado xadrez bélico do Oriente Médio.

Desde que assumiu, Donald Trump declarou que se afastaria do problema líbio por considerar que os Estados Unidos estavam em demasiadas frentes externas. Manteve pró-forma o apoio ao GAN e conversou com Haftar a quem vende armas. Haftar fez o que pode para dominar o país e se tornar o novo ditador, mas não conseguiu. Depois de seis anos tentando, seus fracassos se tornaram mais nítidos e agora as forças que o apoiaram pouco a pouco decidem rever suas posições.

Enquanto isso, uma mudança radical no quadro geral líbio acontece quando o oportunista Recep Tayyip Erdogan, o presidente-ditador turco entra em cena, com base no “Acordo Marítimo para Zona Econômica Exclusiva no Medierrâneo” assinado com o governo de Tripoli, o GNA. Erdogan entende-se com Al-Sarraj e intervém diretamente na guerra, com drones de alta eficiência que impõem derrota atrás de derrota às forças de Haftar, expulsando-as do entorno de Trípoli, reconquistando por meio da Operação Tempestade da Paz a base aérea de Natiya e a vizinha Tarhuna, localidade de 125 mil habitantes ao sul da capital líbia e, em seguida, lançando-se sobre Sirte, a cidade natal de Ghadafi e centro de operações de Haftar.

Nesse momento, um novo ator declara que entrará no conflito se o limite Al Jufra (onde está o aeroporto)/Sirte for desrespeitado pela Turquia. E é um ator poderoso, pelo menos na região: o Egito de Abdel Fattah Al-Sisi, que visita suas bases na fronteira e age com o apoio declarado da Arábia Saudita e dos Emirados. Estes, há muito são ativos parceiros de Haftar, tendo-lhe fornecido os dólares necessários para custear a compra do apoio de líderes tribais locais e para o pagamento de mercenários. A amizade entre Haftar e Al-Sisi vem dos tempos em que o marechal líbio obteve sua formação militar no Egito.

O outro poder relevante nesse “circo” é Putin. Aproveitando-se do desinteresse americano, grande número de mercenários russos compõem as milícias do ENL, que luta com armamentos e aeronaves de última geração fabricados em Moscou. Curiosamente, Turquia e Rússia que são parceiros na Síria, enfrentam-se na Líbia. Os Estados Unidos de Trump poderão reforçar um dos lados. A França, formalmente concordando com as posições da ONU ao lado do GAN, na prática perfila-se junto a Haftar, mas é evidente que se o marechal continuar perdendo terminará isolado. Quem poderá negar que esse complexo cenário cada vez mais faz da Líbia uma nova Síria?

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