Dez pandemias do passado e seus ensinamentos

junho 03, 2020

Vitor Pinto.

Escritor. Doutor em saúde pública.

The plague of ashdod 1630

Imagem: Nicolas Poussin, the plague of ashdod 1630, reprodução fotográfica de obra de arte de domínio público (Wikimedia.org)

Nada como socorrer-se da experiência lembrando do que ocorreu ontem para melhor compreender a atualidade, quando um novo vírus, o Covid-19, segue avançando após contaminar 6,1 milhões de pessoas e ocasionar 530 mil óbitos mundo afora. O Brasil, com 2,7% da população mundial, tem 8,7% dos infectados e 8,1% dos mortos.

A síntese a seguir, com base em excelente busca feita pela Al Jazeera, relembra as principais informações acerca de dez pandemias ou epidemias que assolaram o planeta nos últimos 674 anos.

Febre Negra

1346 a 1353 – 75 a 200 milhões de mortos.

A peste bubônica arrasou Europa, Ásia e África, sendo a mais letal de toda a história.

Causada pela por uma bactéria Gram-negativa, a Yersinia pestis trazida por ratos, disseminou-se pelos navios. Manchas na pele dos infectados originou o nome pelo qual ficou conhecida. A primeira onda deu-se em Caffa na Crimeia, invadida pelos mongóis que dai seguiram com suas conquistas pela Ásia. Corpos de suas vítimas eram lançados por sobre os muros para o interior das cidades a invadir, contaminando os que as defendiam.

3ª. Epidemia de Cólera

1852 a 1860 – 1 milhão de mortos

Das sete epidemias de cólera esta foi a pior. Originou-se na Índia e daí se espalhou pela Ásia, partes da Europa, América do Norte e África. Causada por alimentos ou água contaminados com a bactéria Vibrio Cholera, resultava em diarreia aguda que podia matar em questão de horas ao não receber tratamento.

Pandemia de Influenza

1889 a 1890 – 1 milhão de vítimas fatais

Ocasionada pelo vírus Influenza A, subtipo H3N8. Foi a última grande pandemia do século XIX, sendo também conhecida como Gripe Asiática ou Russa, pois começou na Ásia Central, então sob o império russo.

Espalhou-se graças a modernos meios de transporte da época como trens e grandes navios que faziam viagens transoceânicas. Levou apenas 4 meses para circundar todo o planeta, aportando nos Estados Unidos 70 dias após ter inicialmente irrompido em São Petersburgo.

6ª. Epidemia de Cólera

1899 a 1923 – 890 mil vítimas fatais

Verificou-se no Oriente Médio, norte da África, Europa e Rússia. A transmissão é direta, ligada o acesso inadequado a água potável e à não disponibilidade de instalações sanitárias adequadas.

Gripe Espanhola

1918 a 1919 – 50 a 100 milhões de mortos.

O vírus Influenza H1N1, de origem aviária, foi o responsável. Os primeiros casos ocorreram em soldados norte-americanos em 1918 durante a 1ª. Guerra Mundial, daí se espalhando pelo planeta e infestando pelo menos metade da população mundial.

Diferente das anteriores, por afetar adultos saudáveis ao invés de atacar crianças e os mais vulneráveis. Foram impostas quarentenas, uso de máscaras e proibidos eventos públicos. Superada graças à imunidade de rebanho e à mutação do vírus para tipos menos letais.

Gripe Asiática

1956 a 1958 com 1,1 milhão de mortos.

Influenza A, classe H2N2.

O primeiro caso deu-se na China, daí migrando para Cingapura, Hong Kong, Estados Unidos, Índia, a partir de cepas de aves e vírus humano. Foram duas ondas, mas amainou com a descoberta de vacina em agosto de 1957.

Pandemia Influenza de Hong Kong

1968 e 1 milhão de vítimas.

Influenza A – HN2 subtipo H2N2.

O caso número Um deu-se em Hong Kong em julho d 1968 e, logo, em Cingapura e Vietnã. Em 12 semanas espalhou-se para outras regiões da África, América do Sul e Estados Unidos. Deveu-se a uma mutação do vírus da Gripe Asiática de 1958, na variação H3N2. Teve uma taxa de fatalidade inferior a 0,5% porque a população contava com muitos resistentes (imunes) e o acesso a antibióticos era amplo. O vírus H3N2 segue circulando hoje causando picos de influenza sazonal.

Pandemia HIV/AIDS

1981 em diante. 32 milhões de óbitos.

O Vírus da Imunodeficiência Humana, HIV, ataca células que ajudam o corpo a lutar contra infecções, levando à doença Aids. A transmissão se dá entre humanos via sexo sem proteção e uso comum de agulhas de uma pessoa infectada ou transfusão de sangue contaminado. Morre 1 milhão de pessoas por ano. A OMS diz que é uma “epidemia global” e não uma pandemia. Regiões da África com um afetado em cada 25 respondem por mais de 2/3 do total de casos do mundo.

SARS – Severe Acute Respiratory Syndrome (Síndrome Respiratória Aguda Severa)

2002 a 2003 - Causada pelo vírus SARS-CoV, com 774 óbitos.

É uma cepa de coronavirus vinda de um reservatório animal – morcegos – via civetas. Primeiro surgiu em Guandong, sul da China e logo atingiu 26 países infectando 8 mil pessoas, mas a mortalidade permaneceu muito baixa. Cingapura, Taiwan e Hong Kong foram os mais afetados.

MERS – Middle East Respiratory Syndrome (Síndrome Respiratória do Oriente Médio)

2012 em diante, com 850 mortes, tendo como causa o vírus MERS-CoV.

Surgiu na Arábia Saudita. Na verdade Coronavirus compõem uma grande família que pode causar doenças desde o resfriado comum até a SARS ou a MERS que embora tenha atingido, até aqui, somente a 2519 pessoas, possui uma letalidade (incríveis 35%) extremamente alta.

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