Vinhos tentam adaptar-se às mudanças climáticas

Vitor Pinto

Escritor. analista internacional

Vinicultores alemães estão revoltados, sem entender o que está acontecendo com o clima que este ano simplesmente inviabilizou a produção de um de seus tesouros: os Eisweins (vinhos do gelo). Na Suíça a situação é a mesma. Resta o Canadá, em Ontario, onde em Niagara-on-the-lake, a charmosa cidadezinha às margens das quedas d’água do Niágara, estão os principais produtores globais de Icewine, que vencem em quantidade, mas perdem para a imbatível qualidade dos vinhos doces do Mosel alemão.

Invernos cada vez mais quentes

O inverno 2019/2010 é o segundo mais quente da história. “Parecia uma anomalia, mas já concluímos que os invernos mais quentes vieram para ficar”, diz o Dr. Peter Hoffmnn, diretor de pesquisa para impactos climáticos do Instituto Potsdam alemão.

Para produzir um “vinho do gelo” é preciso manter as uvas sadias no cacho até o seu limite máximo de resistência e então torcer para que faça uma ou duas noites com temperaturas de pelo menos 7º abaixo de zero para então colhê-las de madrugada, antes do amanhecer do dia, e de imediato lançá-las em um triturador. Um bago de uva tem água, açúcares e ácidos. Congeladas, concentram açúcar e ácido produzindo um aroma de caramelo que inexiste em qualquer outro vinho de sobremesa mundo afora. Como as uvas colhidas são esmagadas ainda congeladas originam vinhos de grande pureza que, ao final, apresentam aromas e sabores de damasco, maçã, figo, mel. É preciso colher na época exata pois, se o frio retarda, as uvas amadurecem e deterioram; se o frio é por demais intenso (abaixo de 15º negativos), petrificam e bloqueiam a extração do suco.

Não se trata de uvas “botritizadas” (a podridão nobre utilizada para vinhos comuns de sobremesa). Ao contrário, são sadias, desidratadas, de onde resulta um mínimo rendimento final que justifica os preços elevados do Eiswein, que em suas melhores safras pode chegar a 100 euros por uma meia garrafa (os Icewines canadenses são mais baratos). Em compensação, admitem uma guarda de longo prazo. Mantendo sua suavidade, podem ainda estar vivos e “nervosos” cem anos depois.

Em seu livro Viaje cultural por el viñedo alemán (Ed. Vision Net – Madri, 2007), Diego Núñez conta que Frau Rat, mãe de Goethe, em 1794 mantinha em sua adega cinco garrafas de Eiswein produzidas pelo menos um século antes. Também descreve a colheita do que chama de vino de tinieblas (vinho da escuridão, das sombras) por ser obtido horas antes do raiar do dia, a partir principalmente da cepa riesling (também aceita uvas schreube na Áustria, gewurztraminer, muskat, vidal blanc e sylvaner, todas espécies altamente aromáticas).

A última safra aproveitável na Europa foi a de 2018, mas a cada ano menos produtores têm tido sucesso e agora nenhum deles fará sequer uma garrafa do vinho do gelo. De acordo com o Copernicus Climate Change Service (C38), 2019 foi o inverno mais quente de todos na Europa.

Como o clima está agindo sobre a produção de vinhos

Quase ao final do ano passado o colunista especializado em vinhos Eric Asimov do The New York Times fez uma análise de como a indústria vitivinífera se está comportando em função das intensas mudanças climáticas que ocorrem no mundo atual (How climate change impact wines). Paralelamente uma enxurrada de estudos e de textos vem propiciando ao setor as ferramentas necessárias num processo de adaptação que, reconhecendo sua inevitabilidade, procura identificar os caminhos possíveis para o presente e o futuro. Mundo Século XXI sintetiza, a seguir, os principais pontos em discussão.

O mundo, nos últimos tempos, caracteriza-se por fenômenos extraordinários: verões e invernos mais quentes, secas, violentas chuvas de granizo, gélidas primaveras, enchentes e incêndios florestais. As profundas mudanças observadas nos padrões do tempo desde a década de 1990 têm, no entanto beneficiado certas regiões no que respeita à vinicultura.

A Inglaterra, p.ex., que nunca produziu vinhos de qualidade, passou a fazê-lo. Áreas como a Borgonha, Barolo, Champagne ou os Vales do Reno e do Mosel onde safras excepcionais haviam se tornado raras, graças ao aumento das temperaturas médias voltaram a produzir grandes vinhos. O fato é que as mudanças climáticas vêm alterando o caráter dos vinhos, forçando a indústria a adotar novas práticas. Isto ocorre em função de cinco fatores principais:

a. Expansão global da produção de vinhos

Surgem novos locais que até aqui eram tidos como muito frios para o desenvolvimento de uvas destinadas a vinhos finos. Em geral grandes vinhos historicamente procedem de solos onde a planta é mais desafiada, seja em solos pobres que forçam as raízes a mergulhar profundamente para encontrar umidade, seja face a condições menos favoráveis onde elas precisam lutar para florescer. Já sob solos ferteis em clima quente os vinhos resultantes costumam ser fracos e insípidos, sem caráter. Mas, à medida em que o clima mudou, regiões muito frias agora demonstram que podem, também, gerar bons vinhos sempre que outros fatores estejam convenientemente alinhados.

Na busca de novos sitios os produtores movimentam-se cada vez mais para os extremos no norte e no sul do planeta. Assim, os ingleses agora fazem espumantes de primeira com os mesmos métodos de Champagne em Kent no leste, Sussex, Hampshire, Dorset e até na longinqua Cornwall.

Vinhedos estão surgindo na Dinamarca, Bélgica, Noruega (bons rieslings), norte da Alemanha e nas províncias canadenses de Ontário e Columbia Britânica; no hemisfério sul a Patagônia na Argentina e no Chile ainda são experimentais, mas altamente promissores.

b. Produtores buscam as alturas

Plantações surgem a altitudes até aqui vistas como inóspitas para o crescimento de uvas viníferas, rompendo barreiras; obviamente dependendo do microclima, da qualidade da luz, do acesso à água e das uvas escolhidas. Contudo, claramente à medida que a terra se torna mais cálida os vinhedos movem-se para cima.

Exemplos são os vinhos da Família Torres da Catalunha plantando até a 4.000 pés nas bases dos Pirineus, algo que a um quarto de século atrás seria impossível. A altitude traz novos desafios – como solos mais pobres, escassez de água, mudanças agressivas e inesperadas do tempo – que precisam ser superados caso a caso.

c. Em busca do sol

Até aqui, no hemisfério norte os vinhedos destinados à produção de vinhos de qualidade têm sido plantados em encostas de frente para o sul ou sudeste a fim de aproveitarem o máximo de sol e calor possibilitando um pleno amadurecimento dos frutos (p.ex., no Vale do Douro, nos Vales do Mosel e do Reno, na Borgonha, na região do Barolo). Já no hemisfério sul as terras que permitiam encarar o norte eram preferidas.

À medida em que o clima foi mudando, o problema deixou de ser como as uvas amadurecem e sim evitar seu superamadurecimento e os vinhedos deixaram de mirar um só lado, voltando-se para onde o sol melhor poderá beneficiá-los. Plantadores da Califórnia e do Novo Mundo têm sido mais ágeis nesse processo de adaptação do que os franceses, submetidos a regras bem mais rígidas de plantio.

d. Espaço para novas castas

Para propriedades familiares de porte médio ou pequeno e para regiões de larga tradição histórica, a adoção de ambientes mais frios nem sempre é uma opção viável. Eles podem, no entanto, optar por novas castas a fim de se adaptarem àquelas que melhor aceitem os novos padrões climáticos. mesmo que isto signifique uma ‘traição’ aos velhos costumes. Será, então, possível imaginar Bordeaux sem caberner sauvignon ou merlot; Champagne sem pinot noir e chardonnay? Isso em proporções preliminares já está acontecendo nas regiões mais tradicionais, mesmo em Bordeaux onde apesar de somente sete cepas serem permitidas uma cuidadosa seleção de sete novas cepas vem sendo experimentada (touriga nacional, marselan, castets e arinarnoa que mescla carbernet e tannat entre as negras, e alvarinho, petit manseng e liliorila como alternativas respectivamente à sauvignon blanc, semillon e chardonnay). Mais livres de regras, no Vale do Napa nos EUA os experimentos se multiplicam, inclusive favorecendo variedades tipicamente europeias como touriga nacional, tempranillo e a aglianico do sul da Itália.

e. O tempo já não é previsível

Conhecer o comportamento do clima e acertar com razoável precisão quando virá a geada e, em consequência, quando fazer a colheita, sempre foi um elemento essencial a identificar bons fazendeiros, garantindo-lhes as melhores safras vinícolas a cada ano. Informações estatísticas baseadas em dados de anos e anos precedentes ainda constituem a essência da previsibilidade das safras contemporâneas. Isso, porém, está mudando e já não é fácil encontrar dois anos idênticos em relação ao clima, o que obriga os melhores profissionais a definirem o que fazer quase que a cada momento, sem mais o socorro do conhecimento de anos e séculos precedentes. O granizo vem quando menos se espera, chove num tempo em que nunca antes choveu, o inverno é seco quando sempre foi muito úmido, queixam-se proprietários de vinícolas sólidas e antigas. Com isso as pestes também surgem num átimo sem que sejam esperadas. Grandes incêndios florestais, enchentes fora do normal, secas por demais prolongadas são devastações antes raras e agora frequentes. As raízes e a planta inteira necessitam mostrar novas características de resistência ou então devem ser substituídas por outras. Na Austrália ou no sul buscam-se soluções tecnológicas que diante das secas anuais permitam a produção de vinhos minimamente bebíveis.

Icewine de Ontário, Canadá (Imagem de Todd Huffman em McAfee)

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*