Duas ilhas e dois destinos

Fevereiro 18, 2020

Vitor Pinto

Os britânicos exigem a tradição, seja para lembrar o passsado seja para explicar as novidades.

Um século de confrontos

O Sinn Fein (Nós por nós mesmos ou Soberania irlandesa), vencedor das últimas eleições em 8 de fevereiro, nasceu em 1903 e seu braço armado, o IRA (Exército Republicano Irlandês) começou a atuar dez anos mais tarde. Após quatro anos de guerra no Ulster deu-se a separação em 1921 com a independência de três condados (aos quais somaram-se outros 23 das demais províncias da região) para formar a República da Irlanda ou Eire com capital em Dublin e a permanência de seis condados na Irlanda do Norte com capital em Belfast no Reino Unido que também inclui Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Desde então o novo país passou a alternar seus governos entre dois partidos: Fianna Fáil (Soldados do destino) de centro-direita que costuma se amoldar ao que está na ordem do dia e dominou o quadro político até recentemente; Fine Gael (Tribo dos irlandeses) de direita, mas com inclinações socialmente progressistas com apoio da classe média e de fazendeiros bem de vida, no comando desde 2011.

Gradativamente um ódio de conteúdo religioso foi sendo acumulado até resultar num confronto aberto que de fato começou em 1968 e perdurou ao longo de trinta anos opondo, de um lado, a maioria protestante e unionista com apoio da RUC (Royal Ulster Constabulary, a Polícia Real do Ulster), das Forças Armadas britânicas, e paramilitares pertencentes ao chamado Regimento de Defesa do Ulster (sigla UDK em inglês); de outro lado, a minoria católica nacionalista com o Sinn Féin e o IRA lutando para criar uma Irlanda unida e independente . Esse período, conhecido como The Troubles (Os Problemas) e concluído com o Acordo da 6a. Feira Santa, ou Acordo de Belfast assinado pelo 1º Ministro britânico trabalhista Tony Blair. O conflito matou 3.388 pessoas, a metade delas do IRA; sendo 45% de católicos e 34% de protestantes (outros 21% sem identificação religiosa).

Pouco antes do final da guerra e abrindo caminho para a paz, o IRA depôs as armas em 2005 e o Sinn Féin aderiu ao processo democrático tornando-se parte do Parlamento pelo sul da Irlanda em 1986.

Tigre Celta, Brexit e o triunfo da esquerda

Hoje, a República da Irlanda é um exemplo de país que compreendeu suas potencialidades e limitações para tornar-se o 3º melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta. Partindo de um status de quase miserabilidade pelas guerras quase permanentes do passado, atingiu seu auge econômico no período 1995 - 2000, quando cresceu a incríveis 9,5% ao ano. Arrefeceu em seguida e em 2008 sofreu tremendo baque na raiz da crise econômica global, mas voltou a incrementar seu PIB a partir de 2012. Mesmo assim, a insatisfação dos irlandeses voltou a subir contra políticas de austeridade adotadas pelo governo direitista.

Os tempos mudaram e as pautas atuais que sustentam o voto popular são outras. Pela primeira vez o censo do ano que vem irá comprovar que os católicos agora são a maioria da população. Não obstante, a influência da igreja teve uma forte diminuição, o casamento gay foi legalizado e as restrições em matéria de contracepção tiveram uma nítida relativização. Com uma plataforma de esquerda centrada não em questões ideológicas e sim na superação de dois problemas centrais para o povo - o acesso à habitação e aos serviços de saúde - o Sinn Féin pouco a pouco apagou grande parte da imagem terrorista que lhe conferiu a ligação com o IRA e, afinal, venceu as eleições parlamentares de 2020, rompendo pela primeira vez o rodízio secular entre os partidos da direita. No discurso eleitoral o objetivo principal do Sinn Féin foi sempre reafirmado, obedecendo ao manifesto do partido que reza: "atingir a unidade irlandesa, sendo o Referendo da Unidade o meio para assegurá-la".

Um primeiro sinal foi dado quando da votação nacional do Brexit, em que o resto do Reino Unido votou a favor, mas Irlanda do Norte e Escócia votaram contra, ou seja, pela permanência do Reino Unido na União Europeia, onde continua a República da Irlanda. A líder do Sinn Féin, Mary Lou McDonald, uma dublinense de 50 anos sem ligações com a luta armada, reformulou a legenda superando o rótulo de ser a ala política do IRA (que eternamente estaria pronto a ressuscitar, segundo seus inimigos).

No complexo sistema eleitoral irlandês, o Sinn Féin obteve 24,5% dos votos de "1a. preferência", contra 22,2% do Fianna Fáil de Michael Martin, 20,9% do Fine Gael do atual 1º Ministro Leo Varadkar, 7,1% do Partido Verde e 25,3% de todas as demais forças políticas. Por vencer na contagem do voto popular, Mary Lou considera-se no direito de ser a nova 1a. Ministra e organizar um governo que forçosamente será de coalizão. Contudo, quando computadas as demais preferências (a 2a. e a 3a., quando declaradas na cédula de votação), em contagem manual dos votos, a composição final do Dáil, o Parlamento, de 160 cadeiras ficou assim estabelecida: Fianna Fáil 38 - Sinn Féin 37 e Fine Gael 35 - Todos os demais 50. Compor um governo que assegure a maioria necessária de 80 votos (o presidente da casa quase nunca vota) para aprovar os projetos não será tarefa fácil.

A Irlanda divide-se em 39 distritos eleitorais, cada um elegendo entre 3 e 5 membros do Parlamento (em média 4,1 por distrito). O resultado alcançado pelo Sinn Féin não deixa de ser surpreendente, pois apresentou apenas 42 candidatos (cerca da metade dos dois grandes partidos tradicionais) com um impressionante aproveitamento de 37 cadeiras. Caso uma coalizão efetiva não seja concretizada, haverá que convocar nova eleição. Nos embates iniciais Leo Varadkar declarou logo que "o Fine Gael não é compatível com o Sinn Féin". Menos radical foi Michael Martin, mas sem comprometer-se ao menos por enquanto. Mary Lou vai explorar a difícil possibilidade de montar uma aliança com apoio apenas dos partidos menores e já disse que "um novo governo sem o Sinn Féin seria um grave erro". Quem assumir governará por até cinco anos.

A Escócia ainda irá decidir se fica ou se, enfim, afasta-se do Reino Unido e a união das Irlandas é cada vez mais vista como um destino inevitável, separando o caminho futuro das duas ilhas que o Irish Sea até aqui tem conciliado.

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Irlanda e Reino Unido com Irlanda do Norte, Escócia, País de Gales, Inglaterra em 02/2020 (Fonte: Deutsche Welle)

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