China se submete ao coronavírus

Vitor Pinto

Doutor em Saúde Pública (em 08/02/2020)

Nos mercados a origem do coronavírus

Wuhan é uma grande cidade da China central às margens do Yangtzé com 11 milhões de habitantes que, no entanto, significam apenas 0,8% da população total do país que já chega a 1,42 bilhão.  É ai que tudo começou: em dezembro passado Li Wenliang, um jovem médico de 34 anos utilizou o aplicativo WeChat para informar seus colegas que sete pessoas do mercado de peixes e mariscos tinham sintomas similares às da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave que fez 800 vítimas em 2003) e estavam em quarentena. A mensagem viralizou e não demorou para Li ser convocado à delegacia de polícia local onde foi duramente admoestado e teve de assinar um documento comprometendo-se a não divulgar falsas informações sobre o caso. Logo, contaminado por uma doente que atendera na clínica do hospital onde trabalhava, começou a tossir, piorando rapidamente até falecer em 5 de fevereiro último.

Representação virtual do novo vírus (2019-nCoV) que ocasiona a “pneumonia de Wuhan”

O mercado, como muitos outros país afora, comercializa animais silvestres não sendo raro encontrar ouriços, cobras vivas, ratões, tartarugas, cigarras, lobos e uma infinidade de criaturas outras para as quais a demanda popular é alta. Os vírus hospedam-se em morcegos e para chegar ao homem necessitam de um intermediário. Ao que já se sabe, no caso atual foram os pangolins, mamíferos típicos da Ásia e África, uma mistura de tamanduá e tatu que se valem de uma língua grande e ágil para alimentar-se de formigas. É compulsivamente caçado na China pela crença de que sua carne e escamas tenham propriedades afrodisíacas ou curem uma infinidade de males. É uma história similar à da SARS que foi disseminada via civetas, marsupiais semelhantes ao gambá, até adquirirem a capacidade de transmissão entre humanos.

Identificado como “2019-nCoV” (o ano da descoberta – novo CoronaVirus), ou popularmente como “pneumonia de Wuhan”, já teve seu RNA (ácido ribonucleico, molécula que armazena informações genéticas) sequenciado pela Universidade de Saijing e pelo Instituto Nacional de Controle de Doenças da China, mas a produção de uma vacina – que precisa ser específica – demora pelo menos 4 semanas, seguindo-se 2 semanas para testes e outras 6 para aprovação oficial.

De acordo com informações de 8 de fevereiro de 2020, são 811 óbitos e 37.198 pessoas infectadas na China. Pelo mundo, 25 países informaram a detecção de casos. No navio de cruzeiro Diamond Princess com 3700 passageiros ancorado em Yokohama um argentino – o primeiro latino-americano – testou positivamente para o novo vírus e está em rígida quarentena. Em Cingapura, cidade/país com 5,7 milhões de habitantes e que já acumula 33 casos, o povo correu para os supermercados esvaziando-os de mercadorias depois que o governo decretou um Alerta Laranja para avisar que o vírus é severo e se transmite facilmente entre pessoas. Muitos cidadãos australianos em Wuhan estão se negando a serem repatriados depois que seu governo anunciou que os confinaria na ilha de Christmas, 1600 km mar adentro (seriam só os chineses-australianos, pois os nacionais “brancos ” iriam para o continente), de praias paradisíacas com sua famosa marcha anual de gigantescos caranguejos vermelhos da floresta para o mar em busca de acasalamento, mas marcada por ter servido de prisão e centro de torturas para criminosos e migrantes indesejados.

Peregrinação anual de milhões de caranguejos vermelhos na Ilha de Christmas para onde a Austrália quer enviar os chineses-australianos trazidos de Wuhan

A força do partido e repercussões econômicas   

 O Partido Comunista chinês continua no controle da sociedade e agora parece sentir-se à vontade para impor suas regras e fazer valer as proibições relacionadas à quarentena. Para a população isso não é novidade e não por acaso nos dias que antecederam a decretação do isolamento de Wuhan pelo menos 5 milhões de pessoas abandonaram a cidade (entre as quais cerca de metade dos 70 brasileiros lá residentes). Quando da política do “Um filho só” destinada a reduzir a prole familiar, as mulheres em idade fértil eram obrigadas a comparecer ao Centro de Saúde do bairro para comprovar a cada mês que haviam menstruado e caso isso não ocorresse em três meses o aborto era compulsório. Essa prática, nitidamente fascista, pelo menos em parte teria se mantido com a adoção da nova política que permitiu dois filhos, embora hoje muitas mulheres prefiram não casar ou quando muito gerar uma só criança e de preferência do sexo masculino.

As células partidárias de cada rua, bairro ou empresa, estão atentas a tudo, mas agora seus militantes se dedicam a medir a temperatura dos motoristas de carros. São rápidos: ordenam que o carro pare e aproximam os novos termômetros da testa dos ocupantes, além de borrifarem todo o veículo com desinfetante. Se alguém tiver mais de 37,5º é encaminhado à quarentena. Para sair de casa e ir ao mercado há que vestir luvas, máscara e caminhar ligeiro, além de justificar porque está na rua.

Há pouco ou nenhum espaço para contestações; greves são proibidas e qualquer posicionamento contra o governo é visto como transgressor da ordem. Quase ninguém conversa sobre política. Xi Jin Ping, que assumiu o governo em 2012, hoje detém mais poderes do que Mao Tsé Tung em seu tempo e o culto à personalidade é uma prática comum em todo o país, mas ao contribuir para que as autoridades locais e especialistas tenham receio de divulgar “más notícias” por medo de punições, terminou por retardar a aplicação das medidas necessárias para conter o “nCoV”. Para Steve Tsang, diretor do Instituto China da Universidade SOAS de Londres, Xi manejou a crise muito mal e deve ser responsabilizado. Já o prefeito de Wuhan, Zhou Xianwang (que numa conversa com o enviado da Organização Mundial da Saúde disse-lhe: “Doutor, esse vírus é um inferno”) ofereceu sua renúncia após dizer que a resposta do governo não foi boa o suficiente, mas colocou as culpas na burocracia que é avassaladora no país.

Seja pelo impressionante poder de influência comercial da China no mundo todo, seja por não concordarem com o modelo do partido único, cresce um sentimento antichinês em alguns países. Esta semana o famoso jornal alemão Der Spiegel colocou em primeira página a figura de um homem vestido de cima a baixo com uma pesada roupa protetora vermelha, grandes óculos, máscara, fones de ouvido, celular na mão e em destaque os dizeres “CoronaVírus Made in China”. O embaixador de Pequim protestou contra o que classificou de indução à xenofobia.

Uma vez vencido o período do ano novo chinês, os mercados globais esperam que os centros de produção voltem a funcionar, conforme o previsto, na 2ª. Feira 10 de fevereiro. Para uma enorme quantidade de produtos os estoques, normalmente não excedentes a dois meses, já estão no limite e exigem renovação imediata. Um informe centrado nos mercados indianos (que sofrem mais pela vizinhança com a China) revela uma situação crítica que sem dúvida é válida para a maioria dos países que dependem das importações e exportações em massa feitas pelos chineses. Os produtos mais problemáticos por sua dependência de produtos acabados total ou de insumos essenciais são os eletrônicos, automóveis e medicamentos, mas outros setores como os que lidam com pescados, especiarias, calçados, diamantes e borracha também podem enfrentar sérios problemas de reabastecimento, conforme análise do The Economic Times. Na área de medicamentos, p.ex., o paracetamol sofreu aumentos de preços da ordem de 40%; a azitromicina 30% e o anti-inflamatório nimesulida de uso muito comum no Brasil subiu até 140% nas novas encomendas feitas pelos importadores. A China é um fornecedor globalmente predominante de televisores, compressores para refrigeradores e ar condicionado, motores e “os preços desses produtos podem subir muito se a interrupção de fornecimento se prolongar, transformando o cenário chinês num pesadelo para o mercado externo”, pois a substituição por novos fornecedores não é algo que possa funcionar, ainda mais a curto prazo. Os impactos não são esperados de imediato, mas as luzes de alerta já estão acesas universalmente.

No Brasil a repercussão negativa na economia já é aguardada em função da forte parceria com o mercado chinês, mas ainda não há qualquer dimensionamento nesse sentido. 34 brasileiros foram transportados de Wuhan para Anápolis e oito suspeitos de portarem o vírus em território nacional seguem sendo investigados pelo Ministério da Saúde.                    

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