A.L. caiu na armadilha da desigualdade

Comentários muito pouco comuns – e por isso do maior interesse para quem ainda tenta entender a América Latina – foram feitos pela Secretária-Executiva da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), a mexicana Alicia Bárcena, em entrevista para o jornal El País de Madri. É uma aula de sinceridade onde o reconhecimento dos erros permanentemente cometidos pelos economistas que impuseram (o Banco Mundial à frente) seus modelos a governos que apostaram na capacidade do neoliberalismo em resolver problemas dos povos. O resultado foi uma monstruosa desigualdade que desde o Brasil e a Argentina até o México conseguiu gradativamente corroer a capacidade de progresso e a felicidade da grande maioria dos habitantes de um subcontinente – a América Latina – que se contentou em ser um quintal das políticas econômicas ocidentais e em especial das norte-americanas esquecendo-se de que precisava fazer a lição de casa e crescer pelos próprios esforços.

Num dos pontos surpreendentes de sua fala, Alicia faz a crítica do modelo “neoliberal excludente baseado nas ideias de Milton Friedmann”, que não por acaso é a escola mestra do ministro brasileiro da economia Paulo Guedes, que começou sua vida como economista e se aperfeiçoou no Chile de Pinochet, cujas ideias procura imprimir apesar do fracasso que as caracterizou e que fez afundar toda a sociedade chilena. A seguir, os principais tópicos da entrevista.

Alicia Bárcena, chefe da CEPAL, no aeroporto de Barajas, em Madri.
Alicia Bárcena, chefe da CEPAL, no aeroporto de Barajas, em Madri.VÍCTOR SAINZ

Desigualdade, discriminação, cultura de privilégios, evasão fiscal, política industrial. Depois de meia vida longe do debate público, esse quinteto de conceitos passou à primeira linha nos círculos de poder da América Latina. Ainda mais desde o início dos protestos no Chile e, em menor grau, na Colômbia. “As pessoas estão cansadas, e o modelo econômico está esgotado”.

P (pergunta). A sequência se repete há anos: vocês e as demais organizações internacionais publicam suas previsões de crescimento para a América Latina, e acabam desmentidos em seguida pela realidade. Otimismo demais?

R (resposta). Com este ano já serão sete de crescimento muito baixo, e isso deve ser um sinal de alerta. O contexto externo não ajuda, mas a região tem um problema significativo de produtividade: é muito baixa e não avançou. Há exceções, claro, como Peru e Colômbia, economias que de fato crescem.

P. A região perdeu o trem do resto do bloco emergente.

R. Ao contrário de muitos países asiáticos, a América Latina perdeu dois trens: o da política industrial e o da inovação, deixando a tomada de decisão nas mãos das forças do mercado. É claro que este modelo de desenvolvimento, sem uma estratégia produtiva, estava esgotado. Tanto em questões econômicas, como fica evidenciado pelo baixo crescimento, quanto em termos de distribuição: que continuamos sendo a região mais desigual do mundo significa que não conseguimos distribuir essa aparente expansão.

P. Durante anos foi dito que a ordem na política fiscal e monetária traria crescimento, mas…

R. Com exceções, a macroeconomia tem estado ordenada e estável. E isso é importante, mas não suficiente. O problema é que a matriz produtiva não foi diversificada com conhecimento, com conteúdo nacional e com vínculos com pequenas e médias empresas. A grande fábrica de desigualdade da América Latina continua sendo a lacuna entre grandes e pequenas empresas. O caso do México é claro: exporta mais de um bilhão de dólares por dia, mas isso não é sentido na sociedade.

P. Estamos passando por um processo de reprimarização em várias economias da região, o que faz suas exportações recaírem quase exclusivamente nas matérias-primas.

R. Sim. É uma tema bem complicado, especialmente na América do Sul: são países que dependem de poucos produtos —petróleo, cobre, prata— e poucos mercados. As esperanças são o Brasil, que é um país muito diverso, e a Argentina, onde o novo Governo vem com força para propor uma política industrial.

P. Por que a política industrial é, há muitos anos, um anátema na América Latina?

R. Pelo neoliberalismo puro e duro; pela escola de Milton Friedman. O consenso de Washington teve um grande impacto em países como o Chile, e o resultado é uma economia desigual e nada diversificada. Em geral, o modelo econômico aplicado na América Latina está esgotado: é extrativista, concentra a riqueza em poucas mãos e quase não tem inovação tecnológica. Ninguém é contra o mercado, mas ele deve estar a serviço da sociedade, e não vice-versa. Temos que encontrar novas maneiras de crescer, e isso exige políticas estatais. Não é o mercado que nos levará, por exemplo, a mais inovação tecnológica.A grande fábrica de desigualdade da América Latina continua sendo a lacuna entre grandes e pequenas empresas. O caso do México é claro: exporta mais de um bilhão de dólares por dia, mas isso não é sentido na sociedade

P. Vocês há anos apontam a desigualdade e a necessidade de mudar o modelo de desenvolvimento da região. Sem muito sucesso: os governos praticamente não lhes dão atenção. Sente que estão pregando no deserto?

R. O que acontece é que não conseguimos penetrar na própria estrutura: não alcançamos um pacto social entre o Estado, empregadores e trabalhadores, como o dos países nórdicos, para reduzir a enorme disparidade entre trabalho e capital. Sinto que pregamos no deserto: todos falamos de empregos cada vez melhores, formalização… O que é necessário é uma reviravolta estrutural do modelo. Na América Latina, houve um movimento de pessoas dos estratos da classe baixa para a classe média, mas mais da metade delas não completou nem 12 anos de estudos. O desafio agora é como apostar na educação e nas novas tecnologias.

P. O caso das energias verdes é especialmente paradigmático: a América Latina é uma das regiões do mundo com mais sol e vento, mas em muitos países ela não decola…

R. É outro trem que a América Latina não pode perder, e por isso precisamos de políticas ativas. A Costa Rica é um caso de sucesso, que em breve deixará de depender das energias carbônicas. E o Chile também. O México também deve apostar em ser neutro em carbono: é claro para mim que ele deve continuar produzindo petróleo, mas deve aumentar a energia renovável.

P. Alguns apontam para o aparente paradoxo de que os protestos, especialmente no Chile, ocorrem no momento de maior prosperidade material da história. É uma questão de expectativas?

R. O pano de fundo é desencantamento e raiva; um ponto de ruptura do modelo concentrador de riqueza e privilégios, com instituições que beneficiam apenas alguns. Isso a sociedade percebe, como também a evasão fiscal, a corrupção e a impunidade. Precisamos sair dessa propensão rentista, de concentração da propriedades e dos lucros e, acima de tudo, uma cultura de privilégios que naturalizou a desigualdade e a discriminação. As pessoas estão cansadas.

P. A desigualdade foi subestimada?

R. Definitivamente sim. Sempre foi calculada a partir de pesquisas domiciliares e, quando você a compara com os registros tributários, percebe o quanto subestimamos a desigualdade há anos. Temos que refinar nossa maneira de medi-la. No Chile, por exemplo, essa pesquisa diz que o décimo mais rico da população ganha, em média, 7,5 vezes mais que o décimo mais pobre, mas nos registros tributários essa diferença é de 25 vezes. E em alguns países da América Central é de até 70 vezes. A desigualdade sempre foi vista da perspectiva da pobreza, mas deve ser vista do ponto de vista da riqueza.

Be the first to comment

Deixe seu Comentário

Seu e-mail não será publicado.


*