Putin, após 20 anos quer mais

Vitor G. Pinto

Enquanto os franceses se divertem com a incurável deselegância de Vladimir Putin, os russos – que não ligam para tais detalhes – após 20 anos já se acostumaram com as camisetas que mostram esse cultor das artes marciais como um super-homem. Só 20% são contrários ao regime e os demais se não o adoram pelo menos o suportam calados. Os últimos resquícios de um governo democrático, que pareciam reais com Gorbachev, desapareceram sob Boris Yeltsin que entre um porre e outro no último dia de dezembro de 1999 decidiu renunciar e apresentou ao povo soviético como substituto seu 1º Ministro, um desconhecido oficial originário da KGB (a polícia política soviética) que há pouco andava dirigindo táxis em São Petersburgo até assumir a administração local e ser aceito na burocracia federal.

Ditadores a granel

Vinte anos no poder não parecem ser tanto assim quando se observa o que acontece naqueles lados do mundo e na África. Nessa corrida Putin perde (excetuados os monarcas e os líderes religiosos que se consideram eternos) para dezesseis valentes parceiros, seis deles com mais de trinta anos no “cargo”. O campeão é Paul Biya (86 anos de idade) que governa Camarões desde 1975, seguido por Teodoro Mbasogo há 40 anos na Guiné Equatorial e Ali Khamenei há 38 no Irã. Nas Américas, o herói é Daniel Ortega já com 22 anos como presidente da Nicarágua, seguido de perto pelo governo bolivariano na Venezuela que, somados os tempos de Chávez e de Maduro, lá permanece, como Vladimir, ao longo dos últimos vinte anos (no Brasil republicano o mais longevo no poder, com pouco mais de 18 anos e meio em dois períodos, foi Getúlio Vargas, mas a ditadura de 64 manteve-se por 21 anos). Pelas leis vigentes na Rússia, o mandato que é de seis anos obrigatoriamente se encerra em 2024 sem permissão para que o atual presidente dispute nova reeleição, mas até lá muita coisa pode acontecer.

A guerra da Chechênia e outras histórias

Quando Putin se tornou Primeiro Ministro em agosto de 1999, a Rússia estava envergonhada pela derrota sofrida na primeira guerra da Chechênia e queria vingança. A segunda guerra que só foi encerrada dez anos mais tarde mostrou a mão dura de Putin e destruiu Grosny, a capital (que é uma homenagem a Ivan, o Terrível), opondo as Forças Armadas nacionais aos revolucionários islâmicos chechenos que ameaçavam desestabilizar por completo as montanhas do Cáucaso. Nas ruínas da cidade constantemente bombardeada apenas os podvalshiki sobreviviam, criaturas invisíveis assim chamadas porque como ratos atacavam a tudo que se movia entre os escombros. A placa que identificava Grosny resumia tudo: “Bem-vindo ao inferno”. Para uma população, à época, em torno de 1 milhão de habitantes, imprecisas estatísticas estimam um total de 200 mil civis e 40 mil militares russos mortos nas duas guerras chechenas.

Dai em diante enfrentar o poder do regime liderado por Putin tornou-se um desafio cada vez mais perigoso, como o comprovaram a tomada de 800 refens por militantes chechenos num teatro de Moscou; o ataque pela polícia a terroristas islâmicos que detiveram mil pessoas numa escola primária em Beslan (334 mortos, a maioria crianças); a execução do milionário Boris Berezovsky e da jornalista Anna Politkowskaya, crítica de abusos ocorridos na Chechênia, em Moscou, 2006, mesmo ano em que ocorreu o envenenamento com o agente polônio-210 (a “pequena bomba nuclear”) do ex-espião Alexánder Litvinenko aos 43 anos em Londres (conforme a investigação britânica, por agentes russos); o assassinato do físico e ex-vice de Yeltsin, Boris Nemtsov, numa rua de acesso ao Kremlin depois de suas denúncias de que “a corrupção no país deixara de ser um problema, tornando-se um sistema”. O ex-campeão mundial de xadrez Gary Gasparov e o líder de esquerda Sergei Udaltsov, entre outros, tiveram de sair de cena.

Trajetória política e novas batalhas

Analistas globais consideram que duas fases mais nítidas caracterizam o caminhar de Putin nestas duas décadas: a inicial até 2007 pró-Ocidente, proximidade com a OTAN e com os Estados Unidos, posição reformista favorecendo o mercado; a seguir veio o nacionalismo exacerbado, as ideias de soberania econômica e o crescente isolacionismo. O segundo Putin, que nada tem a ver com o primeiro, na política interna pendeu cada vez mais para a direita, unindo-se à oligarquia nacional. Chegou a ceder temporariamente a presidência, assumindo o posto de Primeiro Ministro de Dmitry Medvedev em 2008, mas quatro anos mais tarde retomou o comando absoluto. Com o apoio da Igreja Ortodoxa assumiu a nova legislação conhecida como Seção 28 que se opõe a relacionamentos ditos não tradicionais, sob a qual numa nova onda de intervenção do poder central na Chechênia centenas de gays foram detidos e dois morreram. Emissoras de TV semi-independentes como a ORT e NTV passaram para o controle estatal. No front externo, além de apoiar o regime de Bashar al-Assad na Síria assegurando-lhe a continuidade até hoje; o Kremlin dá sustentação ao programa nuclear do Irã e na Líbia ao comandante militar Khalifa Haftar e a seus mercenários. Os regimes de Nicolás Maduro na Venezuela e de Miguel Diaz-Canel em Cuba igualmente se beneficiam das ajudas de Moscou. Putin já disse que “o colapso da União Soviética (em 1991) foi a maior catástrofe geopolítica do século XX”, e a União Econômica da Eurásia que pratica o livre-comércio entre Rússia, Casaquistão, Armênia e Belarus, desenha-se como um projeto de futuro que com o tempo pode angariar novas adesões.

Em geral os russos esperam pela apresentação de alguma nova carta escondida pela elite dirigente na manga dos grossos sobretudos com os quais enfrentam o duro inverno do leste europeu e que permita a Putin prosseguir no comando apesar de que esta possibilidade esteja vetada pela Constituição. Num comentário à rede Al Jazeera um aposentado que ganha uma mísera aposentadoria de 15 mil rublos (cerca de R$ 1.000,00) diz confiar no presidente “se alguém quiser mexer conosco”. Contudo, há sérios problemas que exigem soluções breves: a dependência russa das exportações de energia, a redução nas taxas de natalidade, a queda da produção industrial, a evasão de cérebros, a persistência da Aids e dos sólidos níveis de corrupção.

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