Literatura: o que aconteceu em 2019?

(Vitor Pinto* – 29/12/2019)

Sim, eu sei: 2019 é um daqueles anos intermediários que só aguarda a chegada de dias melhores, uma correção no que não está certo (ah, e como isto é assim no Brasil de hoje…). Em geral, espera-se que tudo aconteça, ou pelo menos seja diferente, nos anos “redondos”, aqueles que fecham uma década (alguns até um século): 1900 – 1990 – 2010 – 2020. Algo sobra para os que ficam a meio caminho: 1905 – 1995 – 2015. Os demais são mais facilmente esquecidos.

Mas, o fato é que estamos no final de dezembro de 2019, quando é de todo conveniente estendermos um olhar para aquilo de bom ou preocupante ocorrido desde janeiro e nada melhor do que escolhermos a literatura por ser uma boa referência para estes duros tempos em que vivemos.

Se literatura é cultura, então não restam dúvidas de que no Brasil este foi um dos piores anos de toda a história nacional. Ao ponto de que o governo federal acabou por jogar pela janela todo o esforço positivo (ou pelo menos as lutas) acumulado nos últimos anos, afinal condenando o setor a se tornar um desprezado apêndice de um ministério do … turismo (???). Logo, no mesmo fosso foram lançadas as agências responsáveis pela cultura pátria: Ancine, Iphan (patrimônio histórico), Ibram (museus), Biblioteca Nacional, Casa de Rui Barbosa, Palmares, Funarte.

Sequer de dados atualizados dispomos. A única pesquisa séria e independente realizada no país, a “Retratos da leitura no Brasil”, a cargo do Instituto Brasileiro do Livro, uma organização privada mantida por contribuições de empresas do mercado editorial, é feita a duras penas de 4 em 4 anos num mundo em que a informação é instantânea. Na última, já de 2016, constatou-se que brasileiro se limita a ler a Bíblia e mais algumas publicações de cunho religioso, seguindo-se os obrigatórios livros didáticos. Nas escolas, floresce uma paralela indústria de copias xerográficas que causa notável prejuizo a autores e editores. Não é de surpreender que a rede La Selva tenha falido, a francesa FNAC abandonou o nosso mercado, a Saraiva e a Cultura entraram com pedidos de recuperação financeira a fim de pagarem o que devem quando puderem e a perder de vista, indiretamente quebrando extensa lista de fornecedores e de editoras.

A mídia paulista diz que outras empresas menores estão se esforçando para ocupar os espaços liberados pelas grandes redes. É o caso da Livraria da Travessa, Da Tarde, Mandarina que abrem novas lojas, enquanto nas calçadas (a que ponto chegamos…) surgem modestas “livrarias de rua”. Se isso se dá em São Paulo e em alguma outra capital, no restante do país as poucas livrarias existentes fecham suas portas.

Fruto dos tempos atuais a literatura pouco a pouco se transformou num campo de batalha política onde vale tudo, menos a arte. Até a FLIP de Parati, um dos únicos portos de sustentação do movimento literário nacional, neste ano resolveu que a grande homenageada da feira deveria ser a poetisa americana Elizabeth Bishop, para quem “o golpe de 64 foi uma revolução rápida e bonita”. Antonio Prata tentou defendê-la dizendo que “Bishop é ótima porque foi abertamente gay numa época em que isto era heresia”. E acrescentou que bebia um bocado. Os frequentadores armaram uma revolta e tentaram um boicote que não deram em nada. Queriam homenagem a um (ou uma) brasileiro negro ou proveniente das chamadas “pautas identitárias”. Satisfizeram-se com duas mulheres como ganhadoras dos prêmios São Paulo e Oceanos (Ana Paula Maia com “Enterre seus mortos” e a portuguesa Djaimilia Almeida com “Luanda, Lisboa, Paraiso”).

Melhores brasileiros de 2019

O Jabuti do ano ficou com Pedro Ferreira de Souza com “Uma história da desigualdade” e o melhor romance foi conferido a Thiago Ferro por “O pai da menina morta”. No sul o movimento literário continua resistindo bravamente. O Prêmio Minuano de Literatura que objetiva reconhecer a produção dos escritores gaúchos fez uma bela festa para o vencedor Samir Machado com “Tupinilândia” que transformou em livro a pesquisa mostrando a inclinação dos brasileiros pela ditadura.

A revista Bula listou livros brasileiros cotados entre os melhores publicados no ano: “O verão tardio” de Luiz Rufatto e “Sobre o autoritarismo” de Lilia Moritz Schwarcz editados pela Companhia das Letras; “Liberdade vigiada” de Paulo César Gomes e “Sobre lutas e lágrimas” de Mário Magalhães pela Ed. Record; “Jovita Alves Feitosa, voluntária da pátria” de José Murilo de Carvalho pela Chão Editora; “Torto arado” de Itamar Vieira Júnior pela Todavia.

Em Brasília, houve uma Feira do Livro na Esplanada dos Ministérios, com as confusões e a modesta repercussão de costume. Os lançamentos costumam ser feitos no restaurante Carpe Diem, mas Pedro Tierra apresentou no Sebinho sua nova obra: “Pesadelo, narrativas dos anos de chumbo”, pela Ed. Autonomia.

No mundo, os grandes destaques

Os cinco “best books” do ano para o The New York Times foram:

  • Disappearing Earth” (Terra desaparecida) – Julia Phillips
  • The Topeka School (A escola Topeka) – Ben Lerner
  • Exhalation stories” (Histórias de evaporação ou de sussurros, em tradução livre) – Ted Chiang
  • Lose children archive (Arquivo de crianças perdidas) – da mexicana Valeria Luiselli
  • Night boat to Tangier (Barco noturno para Tangier) – Kevin Barry

O Time incluiu na sua lista dos cinco melhores:

  • The nickel boys (Meninos que valem um niquel) de Colson Whitehead
  • The testaments (Os testamentos) de Margaret Atwood, que mereceu uma bela foto de capa
  • Lose children archive (vide acima) de Valeria Luiselli
  • The need (A necessidade) de Helen Phillips
  • Black leopard, red wolf (Leopardo negro, lobo vermelho) de Marlen James

O também londrino The Guardian expandiu suas indicações para várias modalidades além da ficção e em Portugal em geral os críticos preferiram dar ênfase a livros publicados nos últimos anos, como “Rio das Flores” de Miguel Sousa Tavares; “O dia em que te esqueci” de Margarida Rebello Pinto; “Os cus de Judas” de Antonio Lobo Antunes; “História concisa de Portugal” de David Birmingham com tradução de Daniel Miranda,

No começo do próximo ano já poderão ser encontradas nas livrarias brasileiras outras obras dos dois Prêmios Nobel atribuídos para Olga Tokarczuk (“Vagantes” com histórias passadas em vilarejos poloneses) e Peter Handke (“Dom Juan narrado por ele mesmo”; “Ensaio sobre o cansaço”).

*: Vitor Pinto, responsável por este site, é escritor e em 2019 lançou em Brasília seu novo livro de ficção “A sobrevivência de W”.

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