Nobel de Literatura de novo é questionado

Olga Tikarczuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e Peter Hardke, Nobel de Literatura de 2019, em Estocolmo

A Literatura parece que vai mal não apenas no Brasil, onde já chegou ao rés do chão há algum tempo e hoje vive seu pior momento graças à pavorosa administração da área da cultura pelo governo Bolsonaro e à intensa crise setorial em um país que cada vez lê menos.

O prêmio, apoiado desde sua criação pela Casa Real sueca, já fora fortemente contestado por sua decisão de entregar a láurea de 2016 a Bob Dylan, um compositor e cantor de rock norte-americano cujas contribuições literárias para a humanidade se resumem à letra de suas canções. No entanto, os escândalos sexuais que abalaram a Academia surgiram no ano seguinte, quando o fotógrafo Jean-Claude Arnault, casado com Katarina Frostenson, membro da Academia e escritora, afinal foi acusado por 18 mulheres por abusos sexuais ao longo dos últimos anos, para tanto se utilizand das facilidades, do prestígio e das instalações da Casa. A dupla também ganhava dinheiro divulgando previamente o nome de ganhadores do Nobel e possivelmente chantageando-os. Em consequência, embora sejam nomeados para toda a vida, vários membros do comitê julgador sueco renunciaram, forçando o Rei Carl Gustav XVI a substituí-los numa tentativa de recuperar o prestígio perdido e superar a desconfiança com que desde então no país e internacionalmente o prêmio passou a ser visto.

Olga Tokarczuk é uma ativista e feminista autora polonesa que já vencera o Book Prize no Reino Unido no ano passado por romances como Flights (Vôos) com temática centrada na transição cultural dos migrantes. O ministro polonês da cultura declarou nunca ter lido uma só linha escrita por Olga, mas isso logo foi considerado um grande elogio por ter partido de um membro do governo ultradireitista que hoje comanda o país e que renega sua maior escritora moderna..

Olga Tokarczuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e Peter Handke, Nobel de Literatura de 2019, em Estocolmo

Já Peter Handke vem sendo considerado uma decisão vergonhosa e escandalosa da Academia devido a suas posições políticas de defesa ou de justificação para os crimes cometidos por Milosevic. O filósofo esloveno Slavov Zizek comentou declarações recentes de Handke de que o Nobel é uma falsa canonização da literatura. “Ele estava certo”, disse Zizek, criticando a Academia em particular por entronizar um criminoso de guerra e por esquecer a incrível obra de Assange: “Não para o Nobel de Handke. Sim para o Nobel da Paz para Assange!”.

O Comitê decisório defendeu a obra global do seu escolhido por livros como “Repetição” e “Passear pelas cidades”. O texto a seguir vem sendo divulgado pela mídia ao noticiar em particular o Nobel 2019.

“Entrega do Nobel de Literatura terá boicote de ao menos dois países O escritor austríaco Peter Handke escolhido para o Prêmio Nobel da Literatura de 2019, vai receber a distinção amanhã, em Estocolmo, mas ao menos dois países devem boicotar a cerimônia. O ministro do Exterior do Kosovo, Behgjet Pacolli, anunciou que seu embaixador não participará do evento e afirma que o representante da Albânia fará o mesmo. O país vizinho também confirmou hoje sua ausência. O motivo: o autor austríaco seria um “amigo e apoiador” das políticas do ex-líder sérvio Slobodan Milosevic.

Ex-presidente da antiga Iugoslávia, Slobodan Milosevic foi acusado por crimes de guerra e genocídio. Ele morreu aos 64 anos, em 2006, antes do final de seu julgamento. Milosevic era o controlador das Forças Armadas nacionais quando ocorreu a sangrenta dissolução da Iugoslávia na década de 1990, o que incluiu a Guerra do Kosovo (de 1998 a 1999), em que o país de maioria albanesa se desligou da Sérvia. Handke, que reiteradamente expressou aprovação à Sérvia durante as guerras, fez uma eulógia no funeral do Milosevic. Em certa ocasião, ele descreveu como “massacre de soldados muçulmanos” o genocídio de Srebrenica (em 1995), em que tropas comandadas pelo bósnio-sérvio Ratko Mladic mataram cerca de 8.000 homens e adolescentes bósnios. Mais tarde, o escritor revisou sua posição, descrevendo o episódio como “o pior crime contra a humanidade” desde a Segunda Guerra Mundial. A decisão de conceder-lhe o prêmio de literatura provocou protestos em toda a Europa e a resignação de dois membros do Comitê do Nobel. Um membro da Academia Sueca, o historiador e autor Peter Englund, também anunciou que boicotaria a cerimônia. Depois de ser indicado para o prêmio em novembro, Handke negou publicamente ser simpatizante de Milosevic. Ele também se tornou cada vez mais verbalmente agressivo, quando indagado sobre suas opiniões mais polêmicas a respeito da guerra da Iugoslávia.

Interpelado sobre Srebrenica por um repórter, na última sexta-feira em Estocolmo, ele comparou a pergunta a uma carta de ódio com “caligrafia” de excremento: “Eu lhe digo que prefiro o papel higiênico, uma carta anônima com papel higiênico dentro, do que sua pergunta vazia e ignorante.” Em novembro, o autor de 77 anos também cancelou uma entrevista e mandou que deixasse sua casa o repórter que lhe perguntara sobre o passaporte iugoslavo tirado por ele em 1999″.

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