Colonialismo e a partilha da África

A Conferência de 1884 em Berlim não inventou o colonialismo, mas ao assegurar longa sobrevida aos exauridos impérios europeus do final do século XIX, confundiu-se com a própria origem do termo lançando à irrelevância histórica tudo o que de mau até então fora feito em prejuizo das nações mais pobres.

Para fazer frente ao tremendo poder militar britânico e francês, em 1871 um processo de unificação entre os estados do sul (exceto Áustria) e do norte fez surgir o Deutsches Reich – o Império Alemão que, graças a um rápido processo de industrialização, em breve tornar-se-ia a principal economia da Europa superando ao Império Britânico e a 2a do mundo logo atrás dos Estados Unidos. A Prússia, mesmo ainda em guerra com a França, era o estado mais forte da nova federação germânica, emprestando-lhe tanto o imperador Wilhelm quanto o chanceler Otto von Bismarck.

O ocidente, necessitando de materias primas para alimentar suas nascentes indústrias, começava uma atabalhoada competição pelos imensos recursos potencialmente existentes no continente africano, por sua vez também detentor da mão de obra que, escrava, já era largamente empregada tanto na Ásia quanto nos países europeus em suas colonias ultramarinas.

Vislumbrando uma bela oportunidade para firmar o prestigio internacional do seu nascente império, Bismarck convocou, com decidido apoio de Portugal, uma grande Conferência internacional que reuniu os treze grandes da Europa e ainda representantes dos Estados Unidos e do Império Otomano. Um imenso mapa da África na parede dava o tom para o tema a ser discutido: a partilha das riquezas e dos povos de 50 nações africanas segundo as vontades e o apetite das potências dominantes.

Numa tarde do sábado 15 de novembro de 1884, a residência oficial da chancelaria alemã na Wilhelmstrasse em Berlim abriu suas portas para os convidados, todos brancos, pois a presença de africanos foi considerada desnecessária embora na mesa estivessem seus destinos. O insistente pedido de participação feito pelo Sultão Barghash bin Said do Zanzibar, país rico em especiarias e em escravos (hoje incorporado à Tanzânia), foi descartado às gargalhadas pela representação britânica.

A Conferência estender-se-ia até 25 de fevereiro do ano seguinte e, ao final, havia-se cometido “o maior roubo da história”, estabelecendo os princípios e as regras presentes e futuras com vistas à conquista e divisão da África e de seus recursos (minerais, terras, pessoas) para benefício dos outros e nunca dos africanos. Em consequência dos novos padrões econômicos que já não exigiam, com a industrialização se impondo, a dependência absoluta do esforço físico humano para obter o lucro, num ato de magnanimidade o tráfico de escravos por terra foi extinto, reservando-o “apenas” para apoiar o intenso comércio ultramarino (a escravidão pouco a pouco já vinha sendo abolida – em Portugal em 1773, na Dinamarca em 1792, no Haiti em 1794, no Brasil em 1888, enfim na Arábia Saudita em 1963.

Era preciso, dentro do possível, evitar guerras entre as potências e assegurar que cada uma obtivesse um quinhão compatível com sua força. Os tempos eram de euforia, do triunfo das artes e de prosperidade material. A guerra anglo-egípcia terminara com a ocupação do Cairo tornando o Egito um protetorado inglês; publicavam-se obras como Zaratustra de Nietsche, Irmãos Karamazov de Dostoievsky, Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle, Aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain. Os problemas tinham repercussão limitada por refletirem realidades longínquas, como o tsunami provocado pela erupção do Krakatoa na Indonésia ou mesmo o assassinato do Czar Alexandre II na Rússia.

A partilha

Munidos apenas de réguas e lápis, os países colonizadores dividiram entre si 50 países africanos obedecendo ao princípio da “ocupação efetiva”, o que significava uma permanência constante na área reivindicada. Cobrindo o evento, o jornal Lagos Observer declarou que “o mundo nunca assistira a um roubo tão grande” e poucos anos depois numa reflexão sobre a ocupação dos países sucedendo aos anos de escravização, escreveu que “a posse forçada da nossa terra tomou o lugar da posse forçada da nossa gente”.

No quadro a seguir constam de um lado os colonizadores e de outro os colonizados com o nome atual dos países. Para ver a situação do continente à época da partilha em 1895, consulte o mapa abaixo.

Império Colonial e Países colonizados

Alemanha – Camarões, Togo, Tanzânia, Namíbia

Bélgica – RD Congo, Ruanda, Burundi

Espanha – Guiné Equatorial, Saara Ocidental (ex-Rio do Ouro)

Itália – Líbia, Eritréia, Somália italiana

Portugal – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe

França – Marrocos, Argélia, Tunísia, Mautirânia, Senegal, Mali, Guiné, Costa do marfim, Niger, Burquina Faso, Benin, Gabão, Rep. Congo, R.C. Africana, Chade, Djibuti, Somália francesa, Madagascar, Comoros

Reino Unido – Egito, Sudão, Quênia, Uganda, Zimbabwe, Zâmbia, Botswana, África do Sul, Gâmbia, Serra Leoa, Gana, Malawi, Nigeria

Seguiram-se anos de ocupação selvagem em que fronteiras foram estabelecidas sem preocupação com a tradição e principalmente os interesses dos povos submetidos. À época jamais se cogitou de perguntar aos africanos qual era sua opinião, para onde queriam ir e se preferiam ficar onde, por vezes há milênios, estavam.

A independência

O primeiro país a obter sua independência foi a Libéria em 1849 e o último a Eritréia em 1993. O Egito tornou-se independente em 1922; países da África Ocidental e Oriental foram descolonizados na década de 1950, seguindo-se os da África subsaariana nos anos 1960; África austral e das margens do Oceano Índico nos anos 1970 e 1980.

Muitos historiadores argumentam que de fato nunca a África adquiriu autonomia e liberdade efetiva, pois os efeitos da Conferência de Berlim 134 anos depois, não podem ser apagados. Hoje há novos “impérios”, principalmente China e Estados Unidos, exercendo pressão, oferecendo favores e pedindo terras, matérias primas, submissão a quem só deseja ser tratado de igual para igual. (VGP)

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