Comunismo e ultradireita pelo mundo

Da esquerda para a direita: Victor Orbán da Hungria, Angela Merkel da Alemanha, Peter Pellegrini da Eslováquia, Andrej Babis da Rep. Checa e Mateusz Morawiecki da Polónia, em cúpula realizada em Bratislava. Crédito: Andrej Babis' official facebook account.

Breve história russa: quarenta anos desde 1989

É verdade que ainda há os velhos comunistas espalhados pelo mundo e que PCs (Partidos Comunistas) em muitos sítios lutam para manter viva a sigla. No entanto, hoje somente cinco países se dizem nessa categoria: República Popular da China e República Socialista do Vietnam com economias francamente de mercado; Rep. De Cuba, Rep. Democrática Popular do Laos e Rep. Democrática Popular da Coréia (do Norte, onde palavras como marxismo-leninismo e comunismo foram removidas da Constituição). Outros treze são comandados por partidos que se dizem socialistas: Portugal, Sri Lanka, Nepal, África do Sul, Bulgária, Chipre, Bangladesh, Guiné-Bissau, Tanzânia, Venezuela, Nicarágua, Moldávia e Transnistria, ex-território moldávio e o único que conserva os símbolos da foice e do martelo na bandeira.

De acordo com análise de A. Segrillo (Herdeiros de Lênin: os partidos comunistas da Rússia pós-soviética), no final da década dos anos oitenta o governo de Mikhail Gorbachev, minado pelas reformas da glasnost e da perestroika – abertura e reestruturação – perdia o controle absoluto do PCUS. Com o fracasso da tentativa de golpe que intentou derrubá-lo, em consequência da diretriz do centralismo democrático que impedia a formação de facções internas e obrigava a decisão pelo voto da maioria em casos de disputas, fortaleceram-se diversas “plataformas” que viriam a ser a semente para a formação dos vários novos partidos comunistas da era pós-soviética. Três “plataformas” se destacavam: uma, a “Democrática”, de direita e pró-mercado, a “Bolchevista” de esquerda ortodoxa e uma intermediária, a “Marxista”. Em agosto de 1991 decretos do então presidente russo Boris Yeltsin colocaram o PCUS – que contava com 18 milhões de membros – na ilegalidade, quebrando sua monolítica unidade e aos poucos substituindo-a por um movimento comunista pluralístico e já sem coordenação central. Tentativas de união ideológica e prática não frutificaram, pela existência de correntes, p.ex., francamente estalinistas e de outras radicalmente anti-estalinistas. Aprofundou-se, no entanto, uma luta entre adeptos de posições classistas em defesa dos trabalhadores frente aos nacionalistas (marrons) situados à direita no fenômeno conhecido como krasno-korichnevyi ou “vermelho e marrom”.

Com a renúncia de Yeltsin seu vice Vladimir Putin, um tenente-coronel que fez longa carreira na KGB até ir para a reserva a fim de dedicar-se à política, tornou-se o presidente e desde então (1999) governa a Rússia, sob uma Constituição na qual a reforma de 1993 fez constar que “não será estabelecida nenhuma ideologia estatal ou obrigatória”. Putin é nacionalista, centralista e une o país em torno do orgulho patriótico em uma economia de mercado com impostos baixos, a Igreja Ortodoxa Russa como base e uma sólida aliança com magnatas que sabem como explorar vastos recursos naturais que permanecem nas mãos do Estado. Fosse em outro país, seria um clássico líder de direita conservadora, mas com o prestigio intacto perante a população por ser considerado um bom administrador. Na capital, p.ex., os horrorosos edifícios residenciais da era Kruschev (1953 a 1964) e prédios públicos dos tempos de Brejnev (1964 a 1982) foram finalmente demolidos. E, ideologias à parte, existem nada menos que 5.400 estátuas de Lênin no país e seu mausoléu segue, intacto, na Praça Vermelha.

Na última eleição nacional, em 2016, o seu partido – Yedinaya Rossiya ou Rússia Unida – triunfou com 54,2% dos votos defendendo os valores tradicionais da identidade nacional, o papel preponderante do Estado na economia e na organização do país, além do retorno da Rússia como uma superpotência global. Em 2º lugar o Partido Comunista da Federação Russa obteve 13,3% dos sufrágios, seguindo-se o Partido Democrático Liberal com 13,1% e o Rússia Justa (social-democrata, de centro-esquerda) com 6,2%. Outros onze ficaram abaixo dos 2%, sem representatividade na Duma que é a Câmara dos Deputados. Já na eleição legislativa de Moscou, em setembro último, os candidatos pró-Kremlin obtiveram apenas 25 das 45 cadeiras com diminuição de 1/3 em relação ao pleito anterior.

Quase nos confins da América do Sul o Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde sua fundação em 1922 manteve uma forte ligação com Moscou. Ativo participante das lutas políticas nacionais, em 1992 chegou a perder temporariamente a sigla para o Partido Popular Socialista (PPS, hoje “Cidadania”) e logo após a eleição de Lula rompeu com o governo do Partido dos Trabalhadores, por considerar que suas práticas estavam desarticulando a esquerda. Nunca se recuperou desses confrontos e atualmente, segundo dados do Tribunal Federal Eleitoral está entre os menores partidos brasileiros com apenas 14.631 filiados (0,09% do total de 16,9 milhões de eleitores inscritos em partidos políticos). Fruto dos novos tempos assumiu em 2019 um novo governo nacional que adota políticas de direita e cujo presidente se perfila internacionalmente nas mesmas correntes de pensamento de colegas como Donald Trump e Victor Orbán.

Transição para o capitalismo  

Analistas globais não comprometidos com um lado só coincidem em dizer que após 1989 (queda do Muro de Berlim) ocorreu uma corrida do leste para o oeste e partidos de base social ou de esquerda concorriam para ver quem privatizava mais, quem melhor conseguia minar os direitos trabalhistas ou empoderava o alto capital financeiro. Destacaram-se nessa competição de malvadezas os líderes do trabalhismo do Reino Unido, os democratas alemães e o poderoso Partido Comunista italiano. Feministas norte-americanas que nunca em seu país tiveram remuneração de maternidade garantida por lei, invadiram a Europa Oriental para ensinar direitos humanos a mulheres que, se quisessem, ficavam em casa recebendo seus salários por quatro anos no período de pós-parto. Numa mudança radical, notadamente para a juventude de países como Eslovênia ou Lituânia, tudo o que havia de errado na sociedade passou a ser culpa do derrotado regime comunista.

Em texto sem dúvida oportuno (How the liberalism became the god that failed in eastern Europe – Como o liberalismo tornou-se o Deus que falhou na Europa do leste), o The Guardian comenta que as elites centro-europeias adotaram a imitação do oeste como norma, subestimando as barreiras locais à liberalização e à democratização e superestimando a capacidade de seus povos em importar plenamente os modelos ocidentais. Quando uma rápida ocidentalização não se efetivou, levar a família para a Europa rica transformou-se na opção óbvia. Por quê um jovem húngaro ou polonês deveria esperar até que seu próprio país se tornasse igual à Alemanha, se ele podia simplesmente mudar-se para lá? A hemorragia populacional no período 1989-2017 abateu-se sobre nações como a Letônia que perdeu 27% da população; Lituânia 22,5%; Bulgária 21%. Na Romênia tão pronto se deu a integração com a União Europeia (UE), 3,4 milhões de pessoas, geralmente com menos de 40 anos, deixaram o país. A crise que se abateu sobre o sistema financeiro capitalista em 2008 só fez acelerar um processo de perda no leste que, somado aos baixos índices de natalidade e ao rápido envelhecimento da população, forneceu o combustível para que populistas de extrema direita liderassem a reação extremamente xenófoba que bloqueou a imigração de refugiados da guerra da Síria nos anos de 2015 e 2016.

Com base em idéias racistas deu-se a rejeição ao antigo regime por seu passado socialista, a refugiados, ao Islã, aos não-brancos, à comunidade LGBT, aos direitos das mulheres. Homens nitidamente neo-nazistas como Victor Orbán e Iaroslav Kakzynski na Polônia fecharam suas fronteiras. Bastou a chanceler alemã Angela Merkel admitir milhares de refugiados na Alemanha para que presidentes do grupo Visegrad (composto por República Checa, Hungria, Polônia, Eslováquia) se declarassem em oposição ao sistema de quotas de imigrantes por país proposto pela UE. A razão para que países com baixíssimos índices de imigração tratassem tão cruelmente aos poucos que neles buscavam ajuda humanitária reside fundamentalmente no pânico demográfico. Os que ficaram (ou não puderam mudar para o Ocidente) sentiram-se como perdedores e reagiram com violência, apoiando e reelegendo a candidatos neo-fascistas até hoje, num momento em que essa febre arrefece um pouco. No fundo está o ódio ao Ocidente que, ao abrir suas portas, “roubou” do oriente seus mais produtivos cérebros e a mais ativa mão de obra.

Descrença nos valores do Ocidente

Partidos “eurocéticos”, ou seja, anti-UE, juntam-se no apoio à Rússia de Putin. De um lado estão os de extrema direita como Alternativa para a Alemanha (AfD), Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), Aurora Dourada (Golden Down) grego, Jobbik húngaro, Liga Norte italiana, Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), Interesse Flamengo (Vlaam Belang) da Bélgica. No outro lado, de esquerda ou ultra-esquerda, estão o Partido Progressista Comunista da Boêmia e da Morávia (KCSM) da República Checa, o espanhol Podemos, o grego Syriza, Movimento 5 Estrelas italiano, o Bloqueio Humano (Human Shield Party) da Croácia.

Os de direita são atraídos pelos valores socialmente conservadores, defesa da soberania nacional, rejeição ao internacionalismo e ao intervencionismo liberal. Os de esquerda gostam da antipatia russa à globalização e sua ojeriza aos Estados Unidos, ademais de nutrirem uma nostálgica ligação com a velha União Soviética.

Todos tendem a ver a Rússia como opositora aos EUA. Ainda que não seja algo regular, o apoio financeiro de Moscou especialmente aos partidos europeus é freqüente. Da mesmo forma, Putin privilegia acordos com aqueles que – como ele – se opõem a Washington (p.ex., Venezuela, Nicarágua, Cuba). Comentaristas que acusam Putin de, sem base ideológica definida, ter apoiado inclusive com armamento pesado, ao longo de duas décadas, a ditadores, fanáticos, terroristas, oligarcas, fundamentalistas, traficantes (estes nas instáveis repúblicas de suas fronteiras), causando milhões de mortes e refugiados, omitem que procedimentos similares reiteradamente também têm caracterizado a ação dos Estados Unidos mundo afora.

Os 14 países da ex-União soviética e os 7 da ex-Iugoslávia e ainda relevantes atores regionais (República Checa, Hungria, Eslováquia, Polônia, Romênia, Bulgária, Chipre, Turquia) formam  um grande cinturão em torno da Rússia que, se não é totalmente confiável, garante-lhe proteção em casos de necessidade, uma vez que ai persiste um sentimento anti-liberal, anti-UE e anti-imigrantes, sem maiores simpatias pelo modelo ocidental de democracia. Hoje o caso mais crítico é o da chamada “área cinza” da Europa, onde estão Geórgia, Moldávia, Ucrânia, Armênia, Belarus e Azerbaijão (este, o único que permanece autônomo). Os três primeiros têm tropas russas ocupando parte de seus territórios e estão sujeitos a sanções impostas por Putin, mas mantém vivas as negociações de associação à UE e todos procuram acender uma vela a Moscou e outra a Washington. Uma frase de Vaclav Havel (presidente checo logo após a revolução de veludo de 1989) vem sendo cada vez mais lembrada por ser uma previsão de futuro e não só para o seu país: “a Checoslováquia poderá necessitar de duas revoluções, a primeira anti-comunista, a segunda contra a geração pós-comunista”.

Esperanças que restam

É certo que não existem caminhos fáceis para o mundo atual. Discutindo o que sobrou depois do relativo fracasso do processo de globalização neoliberal com a junção em uma mesma época histórica de níveis escandalosos de desigualdade social e do que já se considera como uma iminente catástrofe ambiental, ativistas como a antropóloga sérvia Svetlana Slapsak ou o filósofo italiano Lorenzo Marsili chamam a atenção para novos obstáculos. Com a Europa caminhando de crise em crise na última década e os Estados JUnidos sendo consumidos pela presidência desfuncional de Donald Trump, aconteceu que de um lado a confiança no capitalismo e na economia de mercado diminuiu de maneira drástica e, de outro lado, a esquerda perdeu relevância ao ponto de ser vista não como solução e sim como parte do problema, deixando em aberto um amplo espaço que foi preenchido pelo retorno de ideologias fascistas cada vez mais agressivas e representativas.

Os otimistas dizem que a esquerda vai se recuperar e que a extrema direita logo perderá substância, pois não tem como superar sua própria história escondendo os crimes gigantescos cometidos há pouco tempo. Afinal, recém se passaram 74 anos do fim da 2ª. Guerra. Já os pessimistas argumentam que a falta de soluções oportunas para grandes problemas acumulados ou herdados pelo mundo atual só pode nos conduzir para o buraco.

O equilíbrio entre esses pontos de vista é algo possível e desejável. Mas acontecerá? É viável a adoção de uma agenda de iniciativas, por mais graduais que sejam, voltadas para a proteção do meio ambiente, redução das desigualdades, acesso ao trabalho com salários dignos, proteção aos idosos e aposentados, alcance de serviços universais de saúde e educação a custos absorvíveis pelas pessoas, ademais de impedir a progressão das teses mais daninhas aos interesses da população. Para a realidade européia há lutas que se situam num patamar bastante duro, pois exigem o combate paralelo a propostas e medidas nitidamente racistas e anti-imigratórias.  


[1] Texto por Vitor G. Pinto, escritor e analista internacional, para o site “Mundo Século XXI” em 17/11/2019

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