Odontologia: novas e velhas soluções nos consultórios

Vitor Gomes Pinto (Doutor em Saúde Pública)

A tecnologia avança e oferece insuspeitados novos caminhos para a prática de uma das mais artesanais profissões da área da saúde, a odontologia, também reconhecida como a mais liberal de todas. Especialmente nos campos da prótese, da ortodontia e da estética os consultórios se transformam e competem por pacientes de alta renda. É uma disputa do dia a dia em que todas as armas são usadas, pois não é fácil conquistar um espaço e vencer num mercado congestionado pela concorrência.

Quando terminei de escrever a 7ª. edição de meu livro “Saúde Bucal Coletiva”, lançada – felizmente com boa aceitação – no início do ano pela GEN e pela Editora Santos, nada menos que 19% dos cirurgiões-dentistas trabalhando na face da terra eram brasileiros. A situação interna não mudou, mas hoje os cerca de 300 mil profissionais existentes no país respondem por algo como 15% dos 2 milhões de dentistas disponíveis pelo mundo, muito embora nossa população se limite a 2,7% do total. A redução na representatividade ocorreu não por qualquer mudança no modelo de formação que continua, impassível, jogando mais de 10 mil novos profissionais ao ano no mercado; e sim porque a Índia atualizou dados nacionais junto à OMS, comunicando que também adotou uma política de multiplicar ao máximo o número de dentistas na tentativa de diminuir os déficits de atendimento para com seu 1,3 bilhão de habitantes. No Brasil, também a relação entre as políticas pública e privada de saúde bucal segue basicamente a mesma. Estima-se que 75% dos gastos das famílias com odontologia seja custeado do próprio bolso, bem mais do que os 52% verificados na área médica. A fatia correspondente aos planos de saúde tem aumentando exponencialmente nos últimos anos, mas devido à pobreza de grande parte do povo que não tem dinheiro para bancá-la só consegue cobrir 12,5% dos brasileiros o que, no entanto, é suficiente para enriquecer os donos dos grandes grupos com atuação no setor.

A saúde é um ótimo exemplo de modelo imperfeito de mercado, com indução da demanda pela oferta. Na prática é um mercado estranho, no qual a procura não é prevista, o consumidor ignora quase tudo sobre os serviços que pode receber e o profissional (dentista ou médico) é o agente, apesar de que os interesses no fundo são coletivos, pois muitas vezes a manutenção da saúde de uma pessoa pode implicar a saúde dos demais.

A dificuldade em sobreviver financeiramente neste micro universo tão competitivo está propiciando, como um efeito em parte inesperado, o renascimento com nova vestimenta da velha proposta das clínicas populares que se expandem graças ao interesse de investidores globais. No governo de Dilma Rousseff, a Lei 13097/2015 abriu o mercado, permitindo a entrada no mercado nacional de empresas estrangeiras inclusive como controladoras em assistência à saúde. A decisão, vista como uma polpuda oportunidade por agentes privados e asperamente criticada por militantes da saúde pública que desde logo detectaram o que seria uma fatal ameaça ao SUS, foi-se impondo aos poucos e hoje, passados quatro anos, mostra na realidade ao que veio. No noticiário do dia, informa-se que a rede de clínicas populares brasileira Odonto Company teve parte de suas ações adquirida pelo fundo de investimentos norte-americano L. Catterton – com matrizes em Connecticut e no Rockefeller Plaza em New York -, tradicional apostador em negócios ditos “de apelo popular” mundo afora (é dono da canadense Dental Corp, principal empresa no mesmo ramo do Canadá e da italiana Care Dent).

As antigas clínicas populares ganham roupa nova com apoio de capital externo

A empresa paulista chamara a atenção por ter conseguido saltar de 2 para 600 unidades via sistema de franquias que vende a uma média de R$ 340 mil cada e agora planeja dobrar de tamanho com o apoio do Catterton. Faz uma restauração ou extração por R$ 29,00 e com isso capta uma clientela sem alternativa no mercado. Com uma desfaçatez sem limites, um “executivo de banco de investimentos” que apóia startups (novos negócios promissores) na área, entrevistado pelo jornal O Estado de São Paulo explicou: “a atuação em odontologia tem uma vantagem clara em relação a modelos de atendimento médico como o da rede Dr. Consulta, pois não existe um SUS da odontologia. O atendimento dentário público é bem mais restrito. Então, a pessoa, por mais pobre que seja, vai ter de pagar alguma coisa em um caso mais emergencial. Na hora da dor, todo mundo dá um jeito”. Ou seja, o negócio é bom porque consegue arrancar ‘algum’ mesmo de quem nada possui. O ramo das clínicas populares tem longa tradição nas cidades brasileiras, mas até aqui elas guardavam a má reputação de instalações precárias e serviços – principalmente extrações, próteses unitárias e dentaduras – de qualidade no mínimo suspeitas, sempre cobrando preços reduzidos. No último quinquênio melhoraram a apresentação de suas salas de espera e adotaram técnicas de administração modernas saindo de entornos periféricos como na Praça Concórdia do Brás em São Paulo para se mostrarem em shopping centers e em ruas de grande trânsito de pessoas.

No extremo oposto da oferta de serviços odontológicos, clínicas como Smilink, Sou Smile e a gigante americana Invisalign apostam suas fichas em negócios dirigidos às classes mais altas da sociedade, especializando-se em serviços de ortodontia e de próteses complexas, crescendo com base no aporte de Fundos de Investimento mais ricos como Kaszek Foundation (Miami e várias cidades latino-americanas e brasileiras), Canary (New York) ou Global Founders Capital (Berlim, Alemanha). Aguardam-se notícias de que a saúde bucal da população de alguma forma se beneficie e melhore.

2 Comentários

  1. Vitor,sempre Vitor, com comentários atualizlados e oportunos sobre temas de interesse geral, como este. Todo mundo se lembra da AMBEVE, que acabou indo à falência. Quanto nos últimos tempo de minha clínica, quando a Ambeve explodiu, eu herdei coisas incríveis das clínicas daquela empresa. Os implantante lá eram planejados sobre radiografias panorâmicas e eu tenho em meus arquivos seios maxilares perfurados por implantes planejados assim, alguns apoiados somente na cortical palatina.
    Sugiro ao Vitor um artigo sobre a multiplicação das faculdades de odontologia (só Brasília já tem 8). Esse desastre merecia merecia uma investigação da Lava-Jato, se a não tivessem sepultado. Parabéns Vitor.

    • Obrigado pelo arguto e oportuno comentário, Salles. Dada a minha mania de explorar dados escondidos, inclusive os da FDI que sempre foram péssimos, descobri anos atrás que o Brasil tinha (e tem) disparado o maior número de dentistas do mundo. Coloquei no livro e venho tentando atualizarm pois a OMS começou a publicar informação relacionada há pouco tempo.
      A profissão ignora solenemente o tema e as entidades de classe acham ótimo, pois faturam o seu com as anuidades todo santo ano atualizadas, como se fizessem algo pela categoria. Agora, como está neste texto, saímos do patamar de 19% dos dentistas do universo para pouco mais de 15%, devido ao aumento de profissionais na Índia. Tens razão: é um escândalo mas, who cares?
      Pior vai caminhando a medicina que, além de tudo, com o “+ Médicos” da dona Dilma desconsiderou o Revalida e passou a considerar as dezenas de faculdades de 5a. que pululam do lado de lá das nossas fronteiras.
      O que fazer?
      Abraços do teu amigo de sempre, Vitor

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