Egito: ditadura ameaçada?

Praça Tahir, palco da Primavera Árabe em 2011 - tem manifestação contra Sisi em setembro de 2019 - Cairo

O poder das Forças Armadas

O Egito é um país cujo governo e cuja economia pertencem inteiramente aos militares e esta é uma realidade que há muito faz parte do dia a dia do seu povo. Ser um militar tem sido pré-requisito para exercer a presidência do país desde a derrubada da monarquia por Gamal Abdel Nasser em 1954. Seguiram-se Anwar al Sadat, de 1970 a 1981; Hosni Mubarak (1981 a 2011) e desde 2014 o marechal Abdel Fatah Al Sisi. A exceção surgiu da única eleição democrática realizada em 2012 e que elegeu Mohamed Morsi, um civil pertencente à Irmandade Muçulmana, num reflexo da Primavera Árabe egípcia de 2011.

Morsi tentou governar com apoio externo de países sunitas da região. Resistiu por um ano e então foi derrubado por um golpe chefiado pelo então general e hoje marechal Abdel Fatah Al Sisi. Com diabetes, problemas renais e hepáticos, sem atenção médica e mantido numa cela 23 horas por dia sem direito a receber visitas (foram só três da família em seis anos), Morsi faleceu em 13 de junho de 2019 ao comparecer a uma audiência de julgamento, quando já estava condenado a prisão perpétua por um tribunal que não lhe deu direito a defesa. Tinha 67 anos de idade. Menos de três meses depois (em 4 de setembro), o filho que mais o defendeu junto à mídia e organismos internacionais, Abdullah Morsi, um jovem de 24 anos, sofreu um ataque cardíaco e morreu subitamente na cidade do Cairo.

Em outro caso exemplar, um jornalista da rede Al Jazeera, encarregado de cobrir a política egípcia, detido sem acusação formal e sem julgamento pelo regime militar, completou no último dia 18 de setembro um total de 1.000 dias na prisão. Sua fotografia é publicada diariamente na versão eletrônica internacional do periódico do Qatar, com a mensagem: “Libertem Mahmoud Hussein”.

A ONG Transparência Internacional e estudiosos independentes estimam a participação efetiva das Forças Armadas em até 60% do PIB do Egito com um orçamento anual de 4,4 bilhões de dólares, mas as cifras – quaisquer que sejam – não têm comprovação efetiva pois são secretos os dados referentes às operações dos quatro grandes organismos militares que formalmente são subordinados ao Ministério da Defesa, em geral operando livres de impostos: Organização de Projetos de Serviços Nacionais (manufatura e venda de gasolina, cimento, espaguete e outras massas, água engarrafada, etc.); Organização Árabe para a Industrialização (produz veículos e equipamentos militares, automóveis de luxo para venda no mercado, telefones celulares, painéis solares, etc.); Organização Nacional de Produção Militar e Autoridade de Engenharia das Forças Armadas.

Na prática a principal arma, o Exército, que sempre foi a instituição mais poderosa, ganhou protagonismo com Al Sisi. Ao contrário de Mubarak que mantinha uma militância partidária de autoglorificação razoavelmente ativa, Sisi não confia nos partidos nem nos políticos, preferindo repartir o poder com os militares. Na economia é impossível concorrer com o Exército que tem prioridade nas compras públicas, em parte graças a editais elaborados por eles mesmos no exercício dos cargos que detém na administração estatal.

Praça Tahir, palco da Primavera Árabe em 2011 – tem manifestação contra Sisi em setembro de 2019 – Cairo

Um desafio sem chances a Al Sisi

O ator e homem de negócios Mohamed Ali, autoexilado na Espanha, começou a falar e a divulgar vídeos denunciando Al Sisi, a quem acusa de desperdiçar impunemente o dinheiro do país construindo inúteis palácios, hoteis e luxuosos conjuntos habitacionais de uso particular dos que estão no poder. Na crise de 2016 o governo liberou o câmbio e a inflação saltou para 30% e bens de primeira necessidade desapareceram das gôndolas, incluindo os  medicamentos. A solução, como sempre, foi autorizar o Exército a criar uma empresa farmacêutica permitindo-lhe importar insumos sem incidência de impostos, o que em breve e com o apoio da polícia conseguiu coibir as reclamações das mães que protestavam por não terem acesso ao leite e mamadeiras para seus filhos.

Embora numerosos jovens e militantes oposicionistas estejam se manifestando ao marcharem pelas ruas das principais cidades egípcias com cartazes de “Fora Sisi”, suas chances de destronar o marechal são mínimas. Em recente referendo nacional 89% dos que compareceram (do total de 61 milhões de eleitores apenas 27 milhões foram às urnas), além de estenderem o atual mandato para 6 anos concordaram em conceder a Sisi a possibilidade de se candidatar novamente nas próximas eleições, com o que deverá ficar na presidência até 2030.

 

 

 

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