Colômbia: eleições e as velhas Farc

Em Guainía, junto às divisas com Venezuela e Brasil, reorganizam-se as Farc e o ELN

COLÔMBIA: eleições e as velhas Farc

A Colômbia é e sempre foi um país politicamente alinhado à direita (como já analisado no texto  publicado neste site em 18/6/2018: https://mundoseculoxxi.com.br/category/americas/page/3/) e suas permanentes guerras em boa parte são uma resposta à falta de opções reservada àqueles que discordaram do carrilhão dominante. Neste momento, às vésperas de uma importante eleição regional, a aparente ressurreição das FARC ameaça unir-se aos bandos criminais presentes por toda parte e à crescente produção de coca pelos campos e pela selva, para jogar uma vez mais o país na espiral da guerra.

Uma história de conflitos

Não é preciso ir longe demais. Exauridos pela guerra civil que estourara sete anos antes, em 1850 surgem os dois partidos que marcariam a história colombiana daí em diante: o Conservador (PC) e o Liberal (PL). Entre ditaduras e golpes de estado, as revoluções infrutíferas organizadas pelo PL na última década do século XIX fizeram o país desembocar na Guerra dos Mil Dias de 1898 que, no final transformou-se numa cruenta guerra de guerrilhas mantidas às custas do recrutamento forçado de crianças, a prenunciar o que viria em seguida. Em 1902, quando termina a luta fratricida, mais de cem mil colombianos haviam perdido a vida. O país já oferecia muitas facilidades para a resistência armada, pela combinação entre a selva amazônica e as altitudes nevadas dos Andes, fatores em aproveitados pelos grupos em luta.

Então, após a secessão do Panamá e decorrido meio século de violência, um raro “período de reconciliação nacional” estendeu-se até 1930, permitindo uma breve fase de crescimento econômico com base nas exportações de café e a consolidação dos Estados Unidos (substituindo a Inglaterra) como principal sócio comercial do país. Mas, logo tudo recomeçou. O caudilho oposicionista Jorge Eliécer Gaitán, conhecido por ter enfrentado o poder absoluto da United Fruit Company,  foi assassinado com três tiros a queima roupa em 9 de abril de 1948 (tinha 50 anos) quando saía de seu escritório no centro de Bogotá à 1 hora da tarde. O matador, Juan Roa Sierra, foi perseguido e linchado por uma multidão que, não satisfeita, saiu a quebrar tudo no famoso “Bogotazo”, uma noite de loucura que terminou com a morte de pelo menos duas mil pessoas. De acordo com o então diretor da CIA, Roscoe Hillenkpetter, Sierra matou Gaitán por uma simples vingança familiar porque o político exonerara seu tio. A embaixada americana insinuou que se tratava de obra dos comunistas interessados em fomentar distúrbios populares.

Sucedendo-se à ditadura de Rojas Pinilla (no início dos anos 1950 os conflitos, até então eminentemente urbanos, estenderam-se para as montanhas e vales do interior), surgem dois grandes movimentos guerrilheiros: o Exército de Liberação Nacional (ELN) em 1964 e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 1966, estas inicialmente um braço armado do Partido Comunista. Num ambiente de crescente terrorismo e enfrentamentos armados, a década dos anos 1990 caracterizou-se como a mais complexa da história colombiana. A toda a carga herdada do passado com as lutas permanentes e a polarização política da sociedade, agregaram-se fortes fatores de desestabilização: a concentração da produção e oferta de coca (devido à destruição pelos norte-americanos de plantações no Peru e Bolívia) dos cultivos no território colombiano; a avassaladora influência dos carteis da droga; a consolidação das Farc e do ELN; o definitivo envolvimento dos Estados Unidos a partir do Plano Colômbia pactuado no governo conservador de Andrés Pastrana em 1999 com um custo inicial de 7,5 bilhões de dólares; a intensificação das práticas de sequestros por motivos políticos e financeiros; aumento do poder e da influência dos paramilitares; a multiplicação dos esforços da sociedade pela paz. Para entender mais, leia “Guerra en los Andes” de Vitor G. Pinto – autor deste site (Ed. Abya Yala, Quito, 2008 – 2a. edición) que dedica cinco capítulos à questão colombiana.

Uma das tentativas mais sérias feitas para interromper o ciclo da guerra deu-se em 1987 quando um Acordo costurado pelo governo Belisario Betancur fracassou ao não obter o apoio do Congresso. Aproveitando-se de um curto período em que os guerrilheiros expuseram-se voltando às cidades, grupos paramilitares identificaram e assassinaram cerca de 3 mil militantes de esquerda, com o que a luta armada redobrou de intensidade.

Processo de paz e o recomeço da luta

Enfim, após 52 anos de choques sem treguas e um total estimado em mais de 260 mil vítimas fatais (82% pertencentes à população civil), um amplo Acordo de Paz com seis pontos básicos negociado entre governo e as FARC na cidade de Havana, Cuba, foi assinado em Cartagena de las Indias em 21/9/2016. Com isso, pouco mais de 10 mil ex-combatentes foram reincorporados à vida civil e. em setembro de 2019, um total de 3.220 deles permanece nos chamados “Espaços Territoriais de Capacitação e Reincorporação – ETCR” à espera de definições finais sobre seu destino (ou de empregos). A fim de concretizar a participação do movimento guerrilheiro na vida política do país, criou-se o Partido Fuerza Alternativa Revolucionaria del Común utilizando a mesma sigla – Farc. Concorrendo às eleições nacionais de 2018 conseguiu míseros 58 mil votos, mas passou a atuar no Congresso porque uma das cláusulas do Acordo de Paz lhe assegurou dez cadeiras, cinco no Senado e cinco na Câmada dos Deputados.

Três anos depois de firmado o pacto de Cartagena, alguns dos principais negociadores de todo o longo processo de paz resolveram desaparecer deixando de atender aos seus compromissos e desistindo de receber a ajuda financeira do Estado. Iván Márquez, Jesús Santrich e El Paisa, em pronunciamento feito de algum ponto do vizinho território venezuelano, deram a conhecer sua decisão de retornar à luta armada autodenominando-se de “As novas FARC”. De imediato viram-se contestados por Rodrigo Londoño Echeverri, o Timochenko, que no papel de presidente do partido Farc assumiu a defesa da legalidade dizendo que reacender a guerrilha é um erro profundo, pelo qual os dissidentes seriam desligados do partido, ademais de acusá-los por não terem qualquer posição ideológica e por estarem interessados tão somente no enriquecimento com o tráfico de drogas.

E provável que não haverá como retomar o processo da luta de massas, voltando ao tempo em que as ‘Farc originais” chegaram a ter 20 mil homens em armas. Hoje, em estimativas do próprio Exército, persistiriam armados cerca de 4.600 combatentes, metade com as ELN e metade de militantes das Farc que não aderiram às negociações com o governo. Contudo, a opção pelo foco em atentados urbanos tem potencial para causar grandes danos ao ‘establishment’ e à sociedade colombiana. A Agência contra as drogas e o crime (UNODC) da ONU em seu informe global mais recente diagnosticou um aumento de 31% na cocaína produzida na Colômbia, alcançando a cifra de 1.400 toneladas/ano em 171 mil hectares cultivados. O país é, disparado, o maior produtor de cocaína, que ‘exporta’ para os Estados Unidos, o maior consumidor do mundo. Dentre as causas diretas dessa explosão da erva nos ‘llanos’ colombianos estão as consequências do Acordo de Paz, com o fim das guerrilhas que controlavam esse mercado e a diminuição da fiscalização e da eliminação, manual ou por fumigação, dos cultivos.  Peru e Bolívia permanecem como 2º e 3º principais plantadores de coca e fornecedores de cocaína, mas ultimamente experimentaram ligeiras reduções em seus números.

Pela proposta de Iván Márquez haveria agora uma união entre os militantes não satisfeitos com a maneira como estão sendo reincorporados à vida civil ou com as perspectivas de revisão do Acordo pelo atual presidente, o uribista Iván Duque (costuma falar sobre a necessidade de modificá-lo, endurecendo as punições) e o ELN que permanece por inteiro na clandestinidade. Sua fortaleza em parte reside no apoio que estaria recebendo do regime de Nicolás Maduro, interessado em ter uma alternativa de força caso se concretize uma invasão norte-americana. O fato é que o grupo de Márquez e Santrich está firmemente concentrado na fronteira amazônica entre os dois países no estado de Guainía às margens do rio Negro (o mesmo que se junta ao Solimões no estado brasileiro do Amazonas). Ai controlam as minas ilegais, o tráfico de entropecentes e o transporte fluvial, unindo-se aos militantes do ELN da região e à banda de Jhon 40, outro dos chefes da Farc que permaneceram na mata. O lado venezuelano só tem populações esparsas e o município de San Fernando de Atabapo, por onde fluíram muitos dos que abandonaram o país rumo à fronteira brasileira.

Em Guainía, junto às divisas com Venezuela e Brasil, reorganizam-se as Farc e o ELN

Eleições em outubro

Isso acontece menos de dois meses antes das importantes eleições regionais que em 27 de outubro próximo elegerão novos governadores para os 32 estados colombianos, deputados estaduais, além de prefeitos e vereadores em 1099 municípios. As agremiações políticas de direita são maioria na atualidade, controlando 14 dos 32 estados e participando dos sete governos liberais, contra oito da centro-esquerda, dois dos independentes e Guaviare que é comandado pela Aico (Autoridades Indígenas de Colombia).

O poder nas Alcaldías (Prefeituras) é a disputa essencial pois é a que de fato influi diretamente na vida do povo. Em geral, espera-se que forças de esquerda tenham peso significativo nas grandes cidades, mas a existência de centenas de siglas cuja força não ultrapassa os limites do município, torna ainda mais complexa a política colombiana. Um exemplo está no fato de que o presidente Iván Duque foi eleito (e governa) pelo Centro Democrático cujo líder único é o ex-presidente Álvaro Uribe de ultradireita e militarista, mas possui um só governador, no estado de Casanare.

Os ânimos estão exaltados. O forte candidato à alcaldía de Toledo foi assassinado porque a cidade e o estado de Antioquia são palco de ferozes lutas entre três grupos de criminosos, o clan del Golfo, Los Caparros e Los Pachelly. Em Bogotá, agora dirigida pelo Cambio Radical (centro-direita), a favorita é Cláudia López da esquerdista Aliança Verde. Já em Medellín, o favorito Ramos Maya é do partido uribista e em Cartagena deve ganhar uma coalizão local, a Colombia Justa Libre. O partido Farc tem candidatos a prefeito em cinco cidades, a governador em La Guajira e tenta emplacar 30 vereadores, mas suas chances são novamente quase nulas, principalmente agora que Iván Márquez além de reabrir o front armado ainda denominou seu grupo de ‘As novas Farc’, minando ainda mais o partido presidido por  Timochenko, pois reforça aqueles que desconfiam dos ex-guerrilheiros por acharem que de novo estão adotando a antiga fórmula de um partido legal com um braço armado ilegal.(VGP em 09/09/2019)

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