Enfim, a queda de Mugabe*(Atualizado em 09/2019)

“Nós aqui fizemos a guerra contra o império e o derrotamos. Foram anos duros, mas em 1980 tivemos eleições e elegemos Robert Mugabe como primeiro presidente e mudamos até o nome do país para Zimbabwe – A Grande Terra das Pedras. Nas ruas de Harare e Bulawayo os militantes do movimento revolucionário Zanu-PF marchavam sem descanso aos gritos de ‘Hondo! Hondo! Hondo!’: Guerra na língua shona” (trecho do livro ‘ZIM, uma aventura no sul da África’, de Vitor Gomes Pinto).

O problema é que Mugabe gostou do poder e transformou o Zimbabwe na mais duradoura ditadura africana – 37 anos até três dias atrás quando o principal líder militar, general Constantino Chiwenga, afinal deu o golpe e comunicou-lhe Mugabe que não era mais o presidente. A decisão foi tomada considerando a proximidade das novas eleições, quando o ditador que aparenta estar firme com suas bem vividas 93 primaveras, pretendia novamente candidatar-se. Além disso, em qualquer eventualidade assumiria sua esposa, Grace Mugabe, cada vez mais bela aos 52 anos de idade.

Como os Mugabe, enquanto o país se tornava um dos mais pobres do mundo, adquiriram diversas propriedades fora do país, rumores começaram a circular de que ela estaria na Namíbia ou na África do Sul e não no palácio de Blue Roof. A notícia, contudo, foi desmentida até mesmo por suas inimigas na alta sociedade local. “Ela não é mulher que abandone o marido em momento tão crítico”, dizem, lembrando que o casamento celebrado com grande pompa no longínquo 1.993 perdura intacto até hoje.

A razão imediata para que o Exército se decidisse a agir foi a demissão drástica e desmoralizante do vice e primeiro amigo do presidente, o também líder do Zanu PF (agora partido União Nacional Africana do Zimbabwe) Emmerson Mnangagwa, somente poucos anos mais “jovem” que Mugabe. Os dois foram companheiros de luta pela independência desde o começo dos anos 1970  e Mnangagwa – que sempre foi intimamente ligado aos militares – ocupou com regularidade os mais destacados cargos governamentais.

Para acrescentar um toque de aparente normalidade à quartelada, Mnangagwa, que em princípio deve assumir a presidência temporariamente, diz ter como aliado o eterno líder oposicionista Morgan Tsvangirai. Enquanto isso, o general Chiwenga informa que Mugabe está afastado, em sua casa, e participando das tratativas para a formação do governo de transição.

Aguarda-se agora o posicionamento da Comunidade de Desenvolvimento Sul-Africano, cujo Secretário Geral, o presidente da África do Sul Jacob Zuma, convocou uma reunião para a sede da organização em Botswana na 5a. feira 23 deste novembro, anunciando que se espera que a Junta militar emposse um presidente tampão e providencie para logo novas eleições.

A situação geral permanece calma, com apenas uns poucos tanques e tropas circulando. O povo de nada participa. Caso negociadores internacionais forcem alguma solução que resulte num regime teoricamente democrático, este seria uma enorme e surpreendente novidade para os zimbabuanos.

ATUALIZAÇÃO

Aos 95 anos, morre Robert Mugabe

De certa maneira, como responsável por este Site, tenho uma dívida de gratidão para com Robert Mugabe, que aos 95 anos de idade deixou o mundo dos vivos no início de setembro de 2019. Foi ele a fonte inspiradora do meu livro “ZIM, uma aventura no sul da África” lançado pela Editora paulista Conex em abril de 2006. Daí em diante acompanhei-o à distância, admirado pela energia com que conduziu seu país à bancarrota econômica.

Num texto que lhe serve de epitáfio, o londrino The Economist escreveu: “Ex-presidente chegou a ser o herói da independência, mas se transformou no tirano que quebrou o país ao longo dos 37 anos em que esteve no poder”.

A reprodução de um trecho de “ZIM” relembra um pouco da história. Numa conversa de final do dia, à beira da fogueira, um dos homens comentou: “Este país já foi um paraíso. Houve tempo em que as terras eram nossas. Não precisava ter um título de propriedade para plantar o que quisesse e para delas tirar o sustento de cada família. Isso foi lá por volta de 1890, quando a Companhia Sul-Africana Britânica daquele canalha do Cecil Rhodes apropriou-se do Zimbabwe. – Que não era Zimbabwe ainda, atalhou um meio gordinho que estava no lado oposto da roda. – Quando a Rodésia do Norte virou Zâmbia, a Rodésia do Sul, com o Ian Smith, outro branco fascista, proclamou uma independência unilateral e virou só Rodésia, que terminou sendo engolida pela Inglaterra. – Regime racista que só acabou abaixo de fogo!”

O professor Mugabe não admitia que houvesse um só povoado, por longinquo que fosse, sem escola e, assim, o país logo passou a ter o melhor padrão educacional de toda África. Mas, numa prova de que a educação por si só não resolve nem mesmo os problemas básicos de cada país, nos primeiros anos do século XXI com Mugabe teimosamente na presidência a inflação bateu todos os recordes, atingindo a espantosa marca anual de 500 trilhões por cento.

*: Leia neste Site: “Zim e o diretor da OMS” – https://mundoseculoxxi.com.br/2017/10/28/zimbabwe-e-o-diretor-da-oms/

  • Referência: Pinto, V.G. – ZIM. Uma aventura no sul da África, São Paulo. Editora Conex,  2006. 365p.
Robert e Grace Mugabe em Harare, Zimbabwe – novembro de 2017.

 

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