Saúde urbana esquecida na Habitat III

Outubro 28, 2016

Em seu número deste mês de outubro/2016  a revista The Lancet (A missed opportunity for urban health) lamenta a pouca ênfase dada pela Habitat III, o megaevento promovido pela ONU em Quito, a capital equatoriana neste mês de outubro, ao tema “saúde” num mundo onde a previsão é de que 75% da população total viverá nas cidades já em 2050.

Por um lado a intensa urbanização ocorrida nos últimos anos tem proporcionado extraordinária mobilidade e crescimento econômico sem precedentes, acompanhada por um mais amplo acesso aos serviços de saúde, mas, por outro lado, o crescimento descontrolado das cidades está tendo um profundo efeito negativo nas condições de saúde, no meio ambiente e no clima. O agravamento das condições de poluição do ar, o favorecimento de estilos de vida sedentários, o aumento dos acidentes de trânsito e o crescente uso de alimentos não saudáveis está favorecendo a pandemia global de doenças não transmissíveis.

A saúde precisa  situar-se no coração de uma agenda urbana voltada ao desenvolvimento sustentável. Um planejamento urbano adequado, que promova um sistema de transporte que encoraje o ciclismo e a prática de caminhar, desencorajando o uso de carros particulares, pode reduzir as doenças crônicas e os índices de trauma.

Uma dos piores efeitos da urbanização é a multiplicação de favelas. O último informe Habitat da ONU assinala que a proporção de pessoas vivendo em favelas no mundo em desenvolvimento decresceu de 39,4% para 29,7% entre 2000 e 2014, embora o número absoluto tenha aumentado, de formas que agora há inacreditáveis 881 milhões de pessoas vivendo nessas condições. Favelas ocupam mais da metade de megacidades como a Cidade do México, Mumbai e Nairobi, onde a urbanização se produziu sem planejamento adequado nem a necessária infraestrutura. Pior, favelas são um reservatório de desigualdades, concentrado o que há de mais detestável numa cidade: casas inseguras, superpopulação, condições precárias de higiene, falta de serviços sociais e de saúde além de uma miríade de outros obstáculos para que as famílias alcancem um razoável padrão de vida. Os documentos finais da Habitat III reconhecem que as favelas constituem uma forma crescente de urbanização, mas não oferece soluções para o problema.  Não obstante, é certo que se o problema das favelas não for corretamente equacionado, a nova agenda urbana está condenada ao fracasso.

Habitat III não pode perder a oportunidade de incluir a saúde em suas preocupações de novo. Para isso, há que incluir, de ora em diante, especialistas em planejamento de ações de saúde com foco em evidências para que as intervenções humanas se baseiem em ações efetivas, seguras e saudáveis.

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