Lição das ruas – 13 de março de 2016

O texto a seguir foi produzido por Flávio Goulart do Observatório da Saúde do Distrito Federal  em seu blog “Veredas Saúde” e é uma análise equilibrada a respeito do atual momento brasileiro.

13 de março: a lição das ruas

by Vereda Saúde

AVENIDA PAULISTAO fatídico treze de março chegou e passou. Ninguém matou, ninguém morreu; ótimo! Ou melhor, há uma vítima inconteste: a verdade. Os dois lados em confronto se esmeram em espezinhá-la e abatê-la a bons golpes de palavreado. “Coxinhas” veem nesse dia a virada do país em direção a um futuro radioso, com a expulsão de Dilma e do PT do cenário nacional. Já os “Petralhas” divulgam que as tais passeatas só contaram mesmo com a presença de madames e cidadãos abonados e que nem foram tão concorridos assim, Uns e outros desqualificam os argumentos colocados em cena pelo campo oposto, com total desfaçatez.

Eu, que desconfio e rejeito as unanimidades (já escrevi até um livro sobre isso, com foco na saúde), tenho iguais razões para desprezar esta sua filha dileta – a polarização opinativa. Aliás, confesso que tenho certo birra dos chamados “militantes” (de qualquer causa), que tendem a enxergar o mundo através de pedacinhos e considerar o todo pela visão apenas de uma das partes escolhidas como alvo de sua simpatia. Estou exagerando?

Pois bem, as ruas realmente estiveram cheias de gente, não importa se mais ou menos do que em datas anteriores. Pessoalmente acho que dessa vez o número de pessoas nas ruas foi maior, mas não é bem o que pensa um dos lados da contenda. Deixa pra lá…

Assim, arrisco-me a divulgar aqui o que me parece ser algumas conclusões importantes, verdadeiras lições daquelas horas marcantes da história brasileira. “Marcante”: estejamos de um lado ou do outro penso que devemos assim considerar o dia 13. Aqui vão elas, por minha conta e risco, naturalmente.

  1. Existe sociedade civil no Brasil – e ela pulsa. Não venham me dizer que tanta gente nas ruas estava ali “de alegre”. Afinal, que poder seria esse da Rede Globo ou dos jornalões, capaz de tirar tanta gente de casa em pleno domingo, para horas e horas de caminhada e espera sob o sol de verão?
  2. Quem foi às ruas não é uma multidão amorfa de alienados. As tais “madames”, gente abonada e apelativos congêneres são termos que apenas desqualificam aqueles milhões de pessoas que foram às ruas em muitas cidades no Brasil. Elas merecem mais respeito, embora algumas de suas reivindicações possam não ser claras, na melhor das hipóteses, ou conservadores e retrógadas, na pior delas.
  3. Ser da classe média não é nenhum defeito. Madame Chauí detesta o segmento médio da sociedade e atribui a ela todas as desgraças do País, desde o estacionamento em fila dupla até a furada de fila nos bancos. Será que a professora pertence à classe alta? Operária, certamente, ela não é. Em todas as sociedades é este segmento que vai às ruas, que reclama dos impostos, tem medo de mudanças que não compreende e quer mais segurança, saúde, emprego. Há alguma novidade ou malefício nisso?
  4. Ser contra a corrupção é um valor que não deve ser relativizado. Sem essa de contemporizar os desvios com o suposto “lado bom” dos governos recentes, que tiraram milhões da miséria etc. Primeiro, isso é o resultado de um acúmulo histórico. Segundo, melhor teriam feito os governos petistas sem os correspondentes mensalões e petrolões, embora deva se admitir que não foi o PT que inventou estas patranhas…
  5. O governo Dilma de fato agoniza. Vamos que o impeachment não ocorra. Ou que a presidente não renuncie. Golpe certamente não haverá, pelo menos na vertente militar clássica. Renúncia? Quem sabe… O que teremos, de agora até 2018, na pior das hipóteses, é um zumbi isolado no Palácio do Planalto, agarrado com as unhas e dentes que lhe sobrarem a alguma “base de apoio” – nem “base”, nem “de apoio”, verdadeiramente.
  6. Redução de danos; nenhuma tentativa de “reinvenção”. Quando não há mais nada a fazer pela saúde do paciente, não é mais possível salvá-lo das drogas ou do câncer, por exemplo, a boa prática médica é oferecer suporte, seja com seringas esterilizadas, tratamentos paliativos, alimentação balanceada. Isso vale para governos terminais, também. Que não venham com “pactos” espetaculares, reengenharias e outros fogos de artifício (Lula ministro é um bom exemplo). Ninguém mais aguenta… Mais uma vez, a renúncia, como aceitável “auto-eutanásia” pode ser uma boa saída.
  7. Não há santos no cenário. Aécio e Alckmim provaram de seu próprio veneno na Paulista. Bolsonaro teria sido aplaudido em Brasília, mas isso apenas por enquanto… Lula já disse que está disposto a assumir sua porção botrópica. , Dilma tenta dizer e tropeça na sintaxe. Cunha, Temer e Renan nem precisam dizer nada…
  8. Partidos políticos não têm mais nenhuma importância. Alguém duvida disso? Desde junho de 2013 estão atordoados. Chegam atrasados e não têm o que dizer. Aliás, já não conseguem nem mesmo dizer alguma coisa – as vaias os fazem calar. Uma breve sobrevida está sendo dada a eles, por ainda se constituírem em agentes legais de um eventual impeachment. Não fosse por isso, seriam cartas totalmente estranhas ao baralho.
  9. O que está para vir pode ser pior do que o que se tem agora. Por enquanto, é tempo de missa de corpo presente. Depois virá o sétimo dia. Depois, ninguém sabe. O que está ruim pode ficar pior, sabedoria antiga muito próxima à realidade atual. É esperar pra ver…
  10. A porteira está aberta para salvadores da pátria. Moro, Moro, Moro… É o grito das ruas agora, como um dia foi Joaquim, Joaquim, Joaquim. Como dizia Brecht, infeliz do povo que precisa de heróis…
Vereda Saúde | 15/03/2016 às 02:43 | Tags: “crise política | Categorias: Diário Mínimo | URL:https://wp.me/p3XYOY-fR

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