BRASIL PARALELO 30(*)

Janeiro 23, 2016

Climas temperados sempre fizeram bem às uvas e aos vinhedos, não sendo por acaso que pelo menos nove de cada dez garrafas de vinho são originadas entre os paralelos 30 e 45, a começar pelos grandes do velho mundo até chegar à verdadeira invasão de tintos e brancos chilenos, argentinos e australianos que hoje vemos nos supermercados quase que do mundo inteiro. O Brasil, primeiro por tradição e depois pela competência de seus plantadores, concentrou parreirais em volta do paralelo 29, na Serra Gaúcha, desafiando a distância dos principais mercados consumidores e estendendo a terra plantada até se tornar o 15º país produtor mundial. A busca por novas áreas não cessa e agora, depois dos bons resultados alcançados na região da Campanha, a Serra do Sudeste em pleno paralelo 30, é redescoberta e aos poucos se transforma no mais promissor pólo da viticultura nacional.

[caption id="attachment_2701" align="alignright" width="220"]Vertumno y Ponoma - 1517 a 1522. Oil on wood. Revista Mundo Antigo, vol 1, junho/2012 Vertumno y Ponoma - 1517 a 1522. Oil on wood. Revista Mundo Antigo, vol 1, junho/2012[/caption]

O segredo que justifica a esperança de que nessa microrregião, até hoje dedicada principalmente à criação de ovelhas, o Brasil enfim passe a produzir com regularidade tintos de alta qualidade, é o terroir (torrão, na tradução livre dos gaúchos), ou seja, o conjunto das suas condições territoriais e climáticas. O solo, de rochas graníticas, tem baixa fertilidade (pobre em matéria orgânica), elevada acidez com bons teores de alumínio e é bem drenado. A precipitação anual de 1419 mm, mais concentrada no outono e inverno, é reduzida durante a maturação e colheita das uvas, exigindo irrigação, pelo menos nos primeiros anos (os vinhedos locais em geral são novos, com cerca de sete anos de vida), até que as raízes alcancem as camadas mais úmidas do solo. Há boa insolação no período vegetativo, umidade baixa graças ao vento constante que por sua vez ajuda a reduzir as pragas e dá maior sanidade às uvas, altitude favorável de 430 m acima do nível do mar com encostas que permitem a mecanização, além de boa amplitude térmica no forte verão, época de colheita, quando as noites são frescas, com temperaturas 10º inferiores às verificadas de dia. Ainda assim, é preciso ficar atento a eventuais superexposições ao sol, impedir os efeitos da erosão e defender as plantas dos ataques das aves. Acredito que o fundamental está no fato de que essas condições são habituais, fazendo com que a Serra do Sudeste seja bem menos sujeita a surpresas climáticas do que os demais centros produtores do país. A maior parte da área plantada privilegia as tradicionais cabernet sauvignon, pinot noir, chardonnay e merlot, mas variedades menos usuais no país, como a portuguesa touriga nacional, a italiana teróldego e a francesa tannat têm se adaptado muito bem à região. Em cerca de 430 hectares de vinhedos, ai já estão marcas como Lídio Carraro, Valduga, Chandon, Cooperativa Aliança, Angheben, Terrasul, Vinícola Garibaldi.

Pouco a pouco aumentam os vinhos com denominação de origem específica. Recentemente a ABS (Associação Brasileira de Sommeliers) de Brasília promoveu uma degustação de vinhos Angheben de Encruzilhada do Sul, a terra dos Pedroso e principal área produtora da Serra do Sudeste, o que me levou, em seguida, a ir conhecer os parreirais da empresa e o trabalho desenvolvido por Idalencio e Eduardo, pai e filho, para quem esse terroir é muito favorável à elaboração de grandes vinhos finos e espumantes. Ao mesmo tempo, aproximei-me de Marco Danielle (nome comercial adotado por Maurício Heller Deni) que enviou seus excelentes Tormentas e Mínimus Anima, degustados com todos os cuidados requeridos, na temperatura correta e com uma hora de decantação. Danielle (www.tormentas.com.br) é um perfeccionista que elabora manualmente vinhos em seu atelier de Canela. As uvas são extraídas dos cachos por desengace manual para originar vinhos, segundo o autor, mais autênticos, saborosos e saudáveis uma vez que isentos de aditivos químicos, estabilizantes ou conservantes. Na degustação a maior nota coube ao Minimus Anima 2007, uma mescla bem equilibrada de tannat, cabernet-sauvignon, alicante bouschet e merlot, a 13%, com alta concentração de uva-passa, aveludado ao paladar. O Tormentas 2006 (uvas colhidas tardiamente em fevereiro e março do ano) é um vinho para conhecedores, complexo e ainda um pouco austero por ser jovem. Deve atingir seu apogeu em dez anos e tem guarda segura estimada em trinta anos. Com 14,8% de álcool e sem passagem por carvalho (como o Anima), contém pinot noir, tannat, merlot e alicante bouschet que convivem em grande harmonia. É denso, aroma de fruta com predomínio de cereja, taninos firmes. É preciso prestar atenção na safra, pois as castas utilizadas podem mudar por inteiro (o Tormentas 2007 foi feito com 100% de merlot). No caso dos Angheben, tivemos três vinhos à mesa e um excelente espumante (Brut 2006), disponíveis em www.angheben.com.br: Touriga Nacional 2004 (taninos vigorosos, pouco encorpado, 12,5% de álcool), o melhor da noite; Teróldego 2005 (uva originária do Alto Adige, Itália), aromas de ameixa, baunilha e o Barbera 2007, bem equilibrados. Todos produzidos em sistemas de condução tipo espaldeira com limitação no peso por planta.

Atraídos pela qualidade do microclima de Encruzilhada do Sul, a maioria dos produtores ainda utiliza suas uvas para melhorar o que colhem em outras regiões, obtendo uma mistura que descaracteriza a origem do produto final. Por ora, devido à falta de estrutura local, a atividade industrial (vinificação) é feita na região da Serra Gaúcha. A tendência é que os vinhos de garagem ganhem espaço e que as grandes empresas adotem tanto a identificação da origem quanto a vinificação local, para alegria de quem aprecia bons vinhos. (VGP)

(*): O Autor, Vitor Gomes Pinto, agradece aos oportunos comentários feitos por Marcos Danielle, Eduardo Angheben e Jader Pires Machado, todos aproveitados no texto. O texto foi originalmente publicado pela Gazeta de Caxias em 19/9/2008

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