O terrorismo pode ser contido?

Milícia do Estado Islâmico atuando no Iraque (imagem: pamelageller.com)

Um dia antes dos múltiplos e devastadores ataques terroristas em Paris, o presidente Barack Obama afirmou, em Washington, que “o Estado Islâmico (EI) está contido, bloqueado em seu campo de operações na Síria e no Iraque”. Ao ser tão violentamente desmentido pela realidade, emendou: “nós sempre dissemos que a luta contra o EI seria longa, com dias bons e ruins”. Nenhuma menção de reconhecimento pelos muitos erros do passado recente cometidos pela política externa norte-americana e que hoje são vistos como causas relevantes para uma guerra sem controle que já não mais respeita fronteiras e para a destruição de países como Afeganistão, Iraque, Líbia e agora a Síria. O que não diminui a responsabilidade de países árabes cujos regimes de governo, atrasados e conflitivos, levaram muitos de seus jovens a aderirem a causas extremistas e à autoimolação contra o Ocidente infiel.

Os múltiplos ataques desfechados sobre Paris nessa 6ª. feira 13 não cairão no esquecimento e os terroristas serão combatidos sem piedade, disse François Hollande. Difícil acreditar no rompante do presidente francês, quando se vê a repetição do terror no Mali – onde a França mantém um exército de 3.500 homens – e as renovadas ameaças que forçam a não realização de partidas de futebol por medo de novas bombas. Recorde-se, ainda, casos como os do museu do Bardo em Túnis, do Charlie Hebdo e da queda do Airbus russo, sem culpados conhecidos.

Onde deve ser combatido o Estado Islâmico? O movimento, inicialmente uma dissidência da Al-Qaeda, a partir de 2014 consolidou-se como um califado sunita ultraconservador sob o comando de um iraquiano de apenas 44 anos, Abu Bakr al-Baghdadi. Mais radical que todas as demais correntes islâmicas, tem obtido uma crescente adesão de jovens homens e mulheres europeus que buscam compensar suas desilusões submetendo-se a uma doutrina sanguinária que começa a se voltar contra seus países de origem. O norte-americano James Foley foi decapitado em agosto do ano passado por um cidadão britânico, Abdel-Majid Bary. Os terroristas parisienses, pelo menos os já identificados, são franceses ou belgas e todos se radicalizaram em mesquitas francesas. A Inteligência gaulesa conhecia pelo menos três deles. O serviço secreto turco avisou sobre Omar Mostefai e Samy Amimour chegou a ser detido em 2012 (por ligações com o terror), sendo logo liberado. Ou seja, além de ter dados insuficientes, não consegue trabalhar as informações que possui. É verdade, dizem os especialistas, que a tarefa de monitorar pelo menos 11 mil cidadãos muçulmanos potencialmente suspeitos no país, com efetivos limitados a não mais de 600 homens (conforme afirma Lamis Andoni, analista especializada em Oriente Médio), constitui uma impossibilidade prática considerando que acompanhar os movimentos de uma só pessoa nas 24 horas do dia exige toda uma equipe de experientes investigadores.

A Europa parece unida em torno de temas menos relevantes, mas tem mostrado uma desunião exemplar quando se trata de colaborar em temas de segurança, para os quais vigora a desconfiança mútua. Muito tem se falado sobre a sofisticação dos ataques em Paris, mas o que há de sofisticado em disparar um fuzil kalashnikov sobre uma multidão ou acionar um artefato no próprio corpo, suicidando-se? O único ato terrorista (além do suprimento das armas) que exigiria um plano meticuloso, o ataque ao estádio de France, não deu em nada. O bombardeio aéreo das posições do EI na Síria e no Iraque por americanos, ingleses e agora russos, até aqui tem sido pouco mais do que um fracasso e certamente não derrotará o inimigo comum, que só será desestabilizado se for possível colocar em ação uma estratégia solidária por parte dos países envolvidos com o apoio de seus povos. (VGP, em 21/11/2015)

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