Na França, um ataque à Europa

(texto elaborado em 14/11/2015, no dia seguinte aos ataques em Paris, a pedido do O Popular de Goiânia)

 

É impossível dissociar os ataques desta 6ª. feira em Paris de tudo o que ocorre na Europa de hoje: as ondas de refugiados, a eclosão da ultradireita com a volta dos partidos pró-nazismo, a guerra declarada contra a Al-Qaeda e seu êmulo, o Estado Islâmico (EI); a aliança com os Estados Unidos nas invasões do Iraque e da Síria, a rejeição aos árabes e ao islamismo.

O Estado Islâmico, a exemplo do que fez logo após a derrubada (ou queda) do avião russo no deserto do Sinai, assumiu a responsabilidade, mas ainda é preciso confirmar sua autoria que significaria um grande salto em termos de organização e mesmo de tecnologia, além da mudança na estratégia de combate que até aqui estava centrada no Oriente Médio (sempre o Oriente Médio…) com alianças e incursões em países da África Ocidental e da Ásia. Com razão o primeiro-ministro holandês declarou que se trata de uma verdadeira declaração de guerra por parte do grupo terrorista  que vem se notabilizando pela adesão de um número crescente de jovens europeus (em princípio sedentos de vingança contra seus países de origem) à causa jihadista.

Sem dúvida extraordinário e novo é o fato de que os ataques foram sincronizados, em vários pontos – em princípio aleatórios – no centro de Paris, além de terem sido executados por várias células terroristas em ação claramente planejada. Especialistas em contraterrorismo consideram mais fácil combater um só grupo de atacantes e proteger alvos icônicos. No caso de Paris, p.ex., o Palácio dos Eliseus, a Torre Eiffel e, por extensão, as mais notórias escolas judaicas. Mas não, desta feita as metralhadoras foram disparadas em cinco locais que usualmente nunca seriam objetivos de guerra: o Estádio de France, a Avenida da República, o Atelier Charonne (uma casa de jazz em pleno coração da cidade, junto da Praça da Bastilha), o Le Petit Cambodge (um restaurante de comida asiática perto do canal Saint Martin) e o velho Bataclan, uma casa de espetáculos onde Maurice Chévalier fez a fama e que serviu de inspiração para a casa de Ilhéus, com o mesmo nome, que inspirou Jorge Amado em Gabriela, Cravo e Canela.

Quais as consequências? Provavelmente a França não mudará sua política externa, que hoje privilegia a queda de Bashar al-Assad do governo sírio e o combate ao Estado Islâmico; a xenofobia crescerá ainda mais; os refugiados serão submetidos a um refluxo nas políticas de acolhimento que vinham sendo postas em prática em vários países, mas não poderão ser barrados por inteiro; os adeptos do islamismo sofrerão maior rejeição, apesar de que seus líderes religiosos continuem a manter uma posição de afastamento em relação aos grupos mais violentos da Al-Qaeda e do EI; os direitistas de Marine Le Pen devem crescer nas próximas eleições municipais francesas, assim como os partidos radicais de extrema direita que se expandem em várias nações europeias, em especial no norte.

Por último, há que observar o aceleramento nos desafios à união de todos os europeus. Mesmo na França, o intervalo entre os ataques de agora e os desfechados em janeiro último contra a redação do Charlie Hebdo (e de imediato ao Supermercado Kosher c

Bataclan na Av. 2 de Julho, centro de Ilhéus. Um ex-cabaré, hoje no térreo funcionam um restaurante e uma loja de souvenirs
Bataclan na Av. 2 de Julho, centro de Ilhéus. Um ex-cabaré, hoje no térreo funcionam um restaurante e uma loja de souvenirs

om cinco vítimas) é muito próximo, deixando claro que o nível de tensão deve aumentar ainda mais de ora em diante. (VGP)

Bataclan, hoje uma Casa de Rock, há mais de 150 anos no centro de Paris (creative Commons): mais de 80 vítimas do terrorismo em 13/11/2015
Bataclan, hoje uma Casa de Rock, há mais de 150 anos no centro de Paris (creative Commons): mais de 80 vítimas do terrorismo em 13/11/2015

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