Bombardeio americano destroi hospital em Kunduz

Outubro 04, 2015

[caption id="attachment_2334" align="alignright" width="300"]Hospital dos Médicos Sem Fronteira em Kunduz, Afeganistão, em pleno bombardeio pelas forças norte-americanas da OTAN, em 3/10/2015 (www.theguardian.com/world/gallery/2015/oct/0s). Hospital dos Médicos Sem Fronteira em Kunduz, Afeganistão, em pleno bombardeio pelas forças norte-americanas da OTAN, em 3/10/2015 (www.theguardian.com/world/gallery/2015/oct/0s).[/caption]

A fronteira nordeste do Afeganistão, próxima ao Tadjiquistão, tem sido uma das regiões mais afetadas pela guerra permanente em que se transformou a disputa entre o governo e a guerrilha talibã nos últimos anos. A principal cidade, Kunduz, foi novamente ocupada pelo movimento radical islâmico esta semana, motivando violenta reação por parte das remanescentes forças norte-americanas em conjunto com tropas governamentais afegãs. Ao atacarem a cidade, as milícias talebãs tomaram a área central, o aeroporto e o hospital municipal (200 leitos). O seu diretor, Dr. Shahar Muktar, assim explicou o principal motivo da ocupação: "eles caçam os soldados feridos", disse.

Em 2009, para aliviar a situação crítica dos serviços locais de saúde, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteira (MSF), abriu um hospital dedicado principalmente à traumatologia num bairro de Kunduz (o único no ramo em todo o norte do Afeganistão), com 50 leitos, centro para emergências, uma sala de cuidados intensivos, dois centros cirúrgicos, enfermaria, serviços de RX e laboratório. Os MSF são custeados por contribuições privadas, não aceitam verbas dos governos nos países onde atuam e prestam serviços totalmente gratuitos. Tratam a todos que os procuram, independente da origem, da causa dos ferimentos ou da nacionalidade.

Com o agravamento das tensões, a organização avisou reiteradamente as autoridades locais, em Kabul, Genebra e Washington, informando da exata localização da sua unidade em Kunduz. Cedo neste sábado, no entanto, quando 80 profissionais prestavam atendimento a 105 internados (e a seus acompanhantes), subitamente e sem qualquer aviso prévio o bombardeio aéreo começou e durou uma hora, destruindo quase todas as instalações. Nos primeiros trinta minutos a central dos MSF no país freneticamente comunicou-se com o comando das forças norte-americanas e afegãs informando sobre o ataque que, não obstante, prosseguiu por outra meia hora causando - num balanço feito 24 horas depois do bombardeio - vinte e três mortos, entre os quais dez pacientes (três crianças).

Enquanto a ONU classificava o ocorrido como um "crime de guerra" e o general John Campbell, chefe das forças norte-americanas pedia desculpas pelo "incidente" causado "sem querer" por suas forças ao perseguirem suspeitos, o diretor de operações dos MSF, Bart Janssen, declarava que "estamos profundamente chocados com o ataque, o assassinato de nosso staff e pacientes e pela grande destruição infligida ao nosso centro de cuidados". Por seu turno, a mídia americana fez questão de informar que todas as vítimas são afegãs (isso inclui o pessoal dos MSF, que habitualmente é recrutado no próprio país onde estão suas unidades). Kunduz é uma cidade milenar, hoje com 305 mil habitantes pertencentes à etnia Pashtun, cujas origens remontam ao ano 329 a.C. Os combates prosseguem ainda mais intensos mas, curiosamente, no hospital dos MSF policiais armados eram expressamente proibidos de entrar. Diante da inviabilidade estrutural de continuar atendendo, os MSF informaram que tiveram de desativar o hospital de Kunduz, realocando alguns dos pacientes restantes e parte do seu pessoal a outras facilidades médicas da região.

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