Iraque: a origem de todas as guerras no Oriente Médio

Setembro 10, 2015

[caption id="attachment_2278" align="alignleft" width="300"]TEnente-Coronel Rod Coffey com a bandeira capturada na província de Dileya no Iraque em 2008, a mesma que depois seria adotada pelo Exército Islâmico, ISIL (The New York Times: Notes from the front lines) Tenente-Coronel Rod Coffey com a bandeira capturada na província de Dilaya no Iraque em 2008, a mesma que depois seria adotada pelo Exército Islâmico, ISIL (The New York Times: Notes from the front lines)[/caption]

A Rede Al Jazeera de Doha no Catar, em artigo de seu correspondente internacional Imran Khan deste 9 de setembro intitulado "The Irak war: the root of Europe's refugee crisis" examina o conflito que tem levado milhões de pessoas a abandonar seus lares em busca de dias melhores ou simplesmente no desespero de fugir da mais cruel das guerras que afligem o mundo atual. O texto é um elemento fundamental para compreender esse complexo processo cuja origem é a invasão do Iraque, na caça a Saddam Hussein, em 2003. Leia a seguir o artigo em tradução livre de MUNDO SÉCULO XXI, graças à autorização da fonte.

"Não é que ela esteja com raiva ou até mesmo frustrada. Ela está apenas cansada, com o tipo de cansaço que acompanha a quem luta, constantemente, contra o calor e a poeira cuidando de seus filhos, para depois ser obrigada a fugir levando em suas mãos seus pertences para salvar a vida e viver em um lugar estranho. Encontrei Umm Lai em um campo de refugiados em Bagdá. A história dela não é incomum. Através da Jordânia, Líbano, Iraque e Turquia as pessoas tem cruzado fronteiras e viajado muitos quilômetros, atravessando continentes para encontrar na Europa alguma trégua para a guerra.

As opiniões variam sobre como lidar com a crise. Uns dizem que a Europa e os Estados Unidos devem intensificar suas ações; outros pensam que os ricos estados do Golfo devem utilizar sua riqueza para ajudar. Ninguém, no entanto, se refere à invasão e ocupação do Iraque. Março de 2003 foi o ponto crucial dessa história. Baseados na controversa evidência de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, os tambores da guerra soaram ruidosamente. Tais alegações foram publicamente desacreditadas em relatório do grupo constituído para o Iraque pela CIA. Mas não só esse informe questionou as provas então apresentadas. Houve oposição em massa dos americanos e dos britânicos e marchas públicas em várias capitais ocidentais contra a guerra, mas suas vozes foram ignoradas e em março de 2003 o então presidente norte-americano e o primeiro-ministro britânico se reuniram com o primeiro-ministro espanhol na ilha de Açores e puseram em marcha os eventos que agora incluem o corpo inerte do menino Aylan Kurdi levado pelas ondas a uma praia turca.

O que a guerra do Iraque fez foi dar espaço para que ações sem justificativa da coalizão ocidental fossem moldadas em um movimento de ativistas de linha-dura que logo incluiriam a Al Qaeda no Iraque e outros grupos. Antes do 11 de setembro de 2011, organizações radicais e violentas eram numericamente minúsculas. Al Qaeda e Bin Laden eram a única ameaça real.  Os governos árabes perceberam isso e isolaram o grupo, até que ele achou um santuário no Afeganistão - o local onde Bin Laden, financiado pela Arábia Saudita e pelos EUA, aprendeu a lutar contra os soviéticos e aprimorou sua filosofia de violência. Após o 11 de setembro os extremistas afinal tiveram a luta que procuravam quando os EUA invadiram o Afeganistão. A Al Qaeda foi derrotada e seu hospedeiro, o movimento Taliban, viu-se removido do poder. A partir dai o grupo dedicou-se à resistência armada contra sucessivos governos apoiados por Washington. Então os Estados Unidos invadiram e ocuparam o Iraque em 2003 com o que, subitamente, os grupos radicais encontraram uma nova causa e uma nova guerra. Aprenderam novas táticas e se tornaram lutadores obstinados, passando a sonhar com um Califado que se espalharia por todo o mundo árabe e muçulmano. Armas e dinheiro começaram a ser doadas em grandes volumes em países muçulmanos por indivíduos que nunca haviam pensado em colaborar com uma organização que era violenta por natureza.

Até então irrelevante, a Al Qaeda tornou-se novamente um desafio e pela primeira vez encontrou uma base firme de apoio, no Iraque. A filosofia da rebelião armada e da luta em nome de Alká expraiou-se. O Paquistão, outra nação muçulmana, viu-se envolvida neste processo de guerra interna, assim como vários outros países. A Primavera Árabe fez surgir esperanças de democratização no Oriente Médio, mas muitos dos ganhos alcançados pelos movimentos revolucionários desde então vem sendo revertidos. Mohamed Morsi, que se tornou o prmeiro presidente democraticamente eleito do Egito, foi derrubado pelos militares em 2013. Quando os protestos chegaram à Síria, o presidente Bashar al-Assad decidiu que não gostaria de ter o mesmo destino que outros de seus colegas árabes. O Ocidente rapidamente o abandonou e disse que não haveriam negociações enquanto se mantivesse no poder. Sem saídas, al-Assad voltou-se de maneira sangrenta contra seus opositores. Em seguida a ala iraquiana da Al-Qaeda transformou-se no Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) apossando-se de vastos territórios também na Síria. Outros grupos surgiram, utilizando-se da religião para recrutar adeptos. A Síria desorganizou-se e é por isso que hoje se tem milhões de refugiados.

A guerra do Iraque ao extravasar todos os limites foi aquela que de fato mudou o Oriente Médio. Foi ela que solidificou e uniu grupos de jovens dispersos de diferentes países com a ideia de seguirem o roteiro de violência da jihad. Caso a guerra iraquiana não tivesse acontecido, Saddam Hussein poderia ter sido contido da mesma maneira em que o foi. O ditador era um desafio à liberdade de seu povo, mas não à de seus vizinhos. Os líderes do ISIL e de outros grupos radicais teriam encontrado a morte no Afeganistão ou seriam aprisionados em algum lugar.

Por fim a guerra do Iraque aconteceu e a crise dos refugiados está acontecendo. Agora a única questão que o mundo precisa responder diz respeito a como encontrar uma solução política para a guerra na Síria e como reunir todos os lados em volta da mesa. O que a crise dos refugiados conseguiu foi forçar o povo europeu ocidental a agir. Se isso forçará os governos a agir e a encontrar alguma solução, é outro problema. Os arquitetos da guerra iraquiana ainda dizem que suas ações não estão relacionadas com a crise atual. Tony Blair escreveu um ensaio em seu website onde afirma que "a guerra civil síria com seu caráter desintegrador está tendo os efeitos malignos previsíveis. O Iraque atualmente está em perigo mortal e todo o Oriente Médio está sob ameaça. Ele continua argumentando que a invasão do Iraque nada teve a ver com a ascensão de grupos como o ISIL e com as guerras no Iraque e na Síria. Gostaria de saber como refugiados em toda a Europa se sentem ao ouvirem essas palavras."

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