Nicolás e a interminável crise venezuelana

Julho 22, 2015

Mal se acostumara a dirigir o trem do metrô de Caracas- uma tarefa simples, pois lhe bastava dar a partida, acelerar e a cada parada frear, abrir e depois acionar o comando de fechar as portas – quando, nem ele sabe por que cargas d’água, tornou-se o presidente da República da Venezuela, substituindo ao falecido Hugo Chávez. Nos últimos tempos Nicolás Maduro se dedicara essencialmente à militância política, mas deixar a direção da célula partidária para assumir o comando do país era algo inimaginável. Mal tivera tempo para cursar a escola secundária, mas não podia desobedecer ao chefe que lhe dera essa tarefa, por não querer que seu arqui-inimigo Diosdado Cabello (hoje presidente da Asamblea Nacional e implicado com o tráfico de drogas), menos confiável, assumisse o lugar. Caprichou nos discursos, descobriu que a polícia, o exército e principalmente as milícias bolivarianas estavam à disposição e que para ser o presidente bastava-lhe falar mais alto que os outros, encarcerar os adversários e gastar a rodo o dinheiro do petróleo. Afinal, a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo de todo o mundo (300 bilhões de barris, mais até que a Arábia Saudita com 268 bilhões e muito mais que o Brasil com seus 12,6 bilhões) e tem o costume de importar quase tudo o que consome. Nicolás cercou-se de companheiros mais ou menos com nível intelectual parecido ao seu e, assim, não se deu conta que a administração pública (e também da estatal PDVSA, a Petrobrás venezuelana) e até os muitos programas sociais estavam sendo administrados com exemplar incompetência. Nem mesmo os médicos básicos, professores e assessores militares cubanos podiam dar jeito ao país. Mesmo assim, tudo corria razoavelmente até que o dinheiro do petróleo diminuiu de forma drástica e Nicolás se viu endividado sem poder pagar as dívidas que alegremente até então assumira. O barril do “crudo” caiu de 100 para 35 dólares e neste ano permaneceu em torno dos US$ 49, com perspectivas de piorar, pois o mundo tem superprodução e o óleo iraniano, com o fim do bloqueio americano, em breve inundará o mercado.

Mesmo com a maioria de seus líderes na cadeia e com mandatos cassados, a oposição ameaça ganhar as eleições legislativas de 6 de dezembro próximo. Segundo o instituto Datanalisis a gestão de Maduro está com 25% de aprovação popular e o PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela) obteria só 21% das cadeiras do Parlamento, com o que será possível aprovar um referendo revogatório do mandato do presidente, conforme estabelece, para 2016, a Constituição.

Nas ruas a luta não é política e sim por medicamentos, comida e artigos de primeira necessidade. As prateleiras dos mercados e das farmácias têm escassez de até 70% dos produtos e a inflação, conforme estimativas de agências financeiras independentes, será de 150% a 200% este ano, a mais alta do mundo. Há 78 presos políticos e muitos outros em liberdade vigiada, o que levou até a presidente brasileira a declarar: “não pensamos que a melhor relação com a oposição seja encarcerar a quem quer que seja. Se a pessoa não cometeu um crime, não pode ser encarcerada”. O consultadíssimo site “Dolar Today” publica as cifras de câmbio para as três moedas oficiais – cotação de 6,30 bolívares por dólar pelo regime tradicional “Cencoex” só para compra de alimentos e gastos de saúde; 12,90 para alguns itens prioritários pelo Sicad, um sistema complementar sujeito a leilões que têm sido raros, e 199,90 bolívares por dólar pelo Simadi, Sistema Marginal de Divisas que varia livremente a cada dia e permite adquirir até 300 dólares/dia desde que o comprador registre seus dados no Banco Central. Na prática o que funciona é o câmbio negro no qual a moeda norte-americana era vendida a 500 bolívares há uma semana e hoje está a $630,12, sendo acessível a toda e qualquer pessoa que tiver dinheiro.

[caption id="attachment_2148" align="alignright" width="300"]Chegou o papel higiênico! Donas de casa em Caracas saem do mercado com os rolos - uma preciosidade - nos braços (foto: Skorpios.com) Chegou o papel higiênico! Donas de casa em Caracas saem do mercado com os rolos - uma preciosidade - nos braços (foto: Skorpios.com) [/caption]

Esse é hoje, o país das filas. Os 42 produtos (azeite, margarina, arroz, papel higiênico, fraldas, açúcar, farinha para arepas, detergente de roupa, queijo amarelo, carne de gado, p.ex., são verdadeiras joias) de preços regulados pelo governo são tão baratos que, quando chega um caminhão em qualquer supermercado, ele é imediatamente esvaziado pelo povo que já está a horas esperando. A fila é composta principalmente por “bachaqueros” ou intermediários que compram para revender, ou pelos que representam terceiros (em geral as pessoas ricas). Alguém não familiarizado com o “jeitinho venezuelano” ao observar o racionamento poderá pensar que o povo está passando fome. Nada mais inexato. Estoca-se de tudo um pouco e uma gorjeta no momento oportuno resolve muitos problemas. O comércio informal tem plena oferta a preços dez vezes maiores que os tabelados, com o que pelo menos nas residências das classes média e rica as geladeiras e os armários estão abarrotados. As pessoas formam vastas redes de comunicação, avisando  amigos, parentes, colegas da chegada de um produto tabelado provocando corridas instantâneas aos pontos de entrega. Ainda que não necessite um determinado produto, as pessoas compram para estocar, vender ou trocar.

A novidade, para impedir as filas, é a venda pelo último número da carteira de identidade: 0 e 1 na 2ª feira, 2 e 3 na 3ª.,  4 e 5 na 4ª., 6 e 7 na 5ª., 8 e 9 na 6ª. Aos sábados está liberado para 0 a 4, e domingos para finais 5 a 9. Quanto mais regras e planos econômicos, mais todos fraudam e se dedicam a negócios subterrâneos. Os artigos tabelados são contrabandeados pela fronteira da Colômbia onde, embora superfaturados pelos bachaqueros, saem quase de graça se comparados ao que valem em Bogotá. Maduro, um patético jovem de 52 anos, discursa sem parar, debatendo-se qual um Quixote moderno no meio de um povo que já não mais lhe presta atenção porque, tendo compreendido que o chavismo é vazio, concentra suas forças nas táticas de sobrevivência que a cada novo dia precisam ser reinventadas. (VGP)

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