Sobre a crise da saúde e o setor privado

Maio 20, 2015

Pela atualidade de suas abordagens, segue-se uma síntese da entrevista concedida pela professora Lígia Bahia (Cebes / Faculdade de Medicina da UFRJ) à Revista Médico do Sindicato dos Médicos do DF*. Quase um ano depois a previsão de uma grave crise para o setor saúde “em breve” está se confirmando?

Privatização da saúde no Brasil?****

Existe uma tendência de privatização, com empresas brasileiras sendo “financeirizadas” por capital estrangeiro. O sistema de saúde brasileiro sempre pendeu para o privado, com cerca de 70% dos médicos atuando nesse setor. Hoje vemos isso ocorrer de forma mais intensa, com uma expansão verticalizada – operadoras de planos de saúde incorporando laboratórios, clínicas de imagem e grandes hospitais. Até meados do Séc. XX, os maiores hospitais eram públicos, hoje são particulares. Entretanto, teremos uma crise no sistema de saúde em breve. O Brasil não é um país rico, é um país de renda média com uma população que está envelhecendo. Não teremos como dar assistência aos casos de câncer, doenças psiquiátricas e toda a gama de doenças típicas do Séc. XXI.

Política de saúde do governo favorece a privatização?

[caption id="attachment_1978" align="alignright" width="160"] Professora Lígia Bahia Professora Lígia Bahia[/caption]

O subfinanciamento e o sucateamento são fenômenos que dão suporte à privatização. Existe também o apoio direto e declarado ao empresário e um movimento de justificação para a redução da remuneração dos médicos. O processo tomou maior impulso no segundo governo do presidente Lula, com o crescimento da Bovespa e a abertura de capital pelas empresas. O sucateamento em si começou após a Constituição de 1998. A saúde tem menos recursos hoje do que tinha nos anos 1980.

Existe uma concentração regional de riqueza na saúde?

A concentração não ocorre exclusivamente em centros de grande atividade e crescimento econômicos e pode, muitas vezes, ser o alicerce da economia de uma cidade. O que não é normal em um país com uma proposta de sistema único e universal de assistência à saúde é a existência de redes hospitalares e planos de saúde com abrangência nacional. A verticalização completa dá um poder imenso de controle de preços por uma única empresa ou grupo.

Foi algo assim que motivou a reforma do sistema de saúde dos EUA?

Não chegou a isso nos Estados Unidos. A Associação Médica Americana é forte, os médicos de lá nunca foram assalariados e os hospitais não pertencem às operadoras de planos de saúde. Aqui no Brasil a situação se tornou esquizofrênica e o privado não segue a mesma lógica do público. As empresas de saúde deveriam obedecer à mesma lógica de regionalização preconizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

A fragmentação das entidades enfraquece o movimento médico brasileiro?

Enfraquece o médico a ausência da Associação Médica na discussão sobre a saúde que queremos. Ela se limitou a pensar em tabelas. O papel nobre de pensar o sistema de saúde e o papel do médico nele não tem sido preenchido. E esse vazio não pode ser ocupado pelos sindicatos ou pelos conselhos.

A rede privada oferece ações de atenção básica adequadas?

É importante haver um modelo hierarquizado de atenção básica. A questão é que funciona precariamente. O setor privado oferece e tem médico, o público oferece, mas não tem médico. As mortes pelos principais problemas de saúde do Séc. XXI seriam evitáveis com um sistema de atenção básica que funcionasse. Há programas que funcionam, como o da AIDS. Mas nem a saúde pública nem a saúde privada tem o necessário para atender bem a população.

Qual é a situação do médico no panorama da saúde brasileira?

Os médicos brasileiros ainda não entenderam sua posição. Todo mundo sai da faculdade querendo ter consultório e tem de atender plano de saúde. Hoje eles cobrem 25% da população, mas esse é um número que não se sustenta em longo prazo na economia brasileira. Em países mais ricos, na Europa, a cobertura por planos de saúde é de 5%, no máximo 15%, das populações.

*. Vide a entrevista completa em: https://cebes.org.br/2014/07/o-acirramento-da-crise-da-saude-no-pais/

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