Nigéria: um imenso estado falido?

Fevereiro 10, 2015

As comparações demográficas entre dois gigantes - Nigéria e Brasil - dependem do momento em que são vistas. Hoje o país africano com 10% do território brasileiro tem 181,6 milhões de habitantes ou 197 por km2 e cresce a uma taxa explosiva de 2,8% ao ano, enquanto o Brasil tem 203 milhões e 23,9 por km2 com crescimento anual limitado a 0,8%. Nessa marcha, em 2050 a grande nação africana (é a 1a. em população e a 14a. em território do continente africano) terá 440 milhões de pessoas e o Brasil terá "apenas" 231 milhões. Evidentemente a trajetória e os problemas dos dois países serão radicalmente distintos nas próximas três décadas e meia.

[caption id="attachment_1699" align="alignright" width="300"]Adolescentes nigerianas continuam prisioneairas do Boko Haram no estado de Borno. Adolescentes nigerianas continuam prisioneairas do Boko Haram no estado de Borno.[/caption]

Alegando ser impossível de imediato lidar com o Boko Haram, o estado islâmico que domina o nordeste do país, o governo de Goodluck Jonathan (candidato à reeleição) adiou para 28 de março as eleições que estavam previstas para 14 de fevereiro. O principal assessor de Segurança governamental declarou que graças às alianças militares firmadas com os vizinhos Camarões, Chade e Niger os campos das 14 localidades nas quais estão as bases do Boko Haram serão arrasados nestas próximas seis semanas e as eleições acontecerão em paz.

Não é o que pensa o ex-general Muhammad Buhari, candidato à presidência pelo partido oposicionista - Congresso Todos Progressistas da Nigéria -, para quem o país está se transformando em um estado falido. "Se nos últimos anos não foram capazes de controlar a situação nos 774 municípios nigerianos, como o conseguirão, em seis semanas, fazê-lo nas 14 cidades mais críticas?" Ele, no entanto, está longe de ser confiável. Quando esteve no poder por 2 anos até 1984 (depois perdeu as eleições por três vezes em 2003, 2007 e 2011) implantou tribunais secretos, cerceou liberdades civis, promoveu execuções de adversários sem julgamentos imparciais.

Na verdade a Nigéria é um país rico e dividido. Na condição de 12º maior produtor e 8º maior exportador mundial de petróleo, abastece cerca de 11% do mercado americano de combustíveis. Mas a violência do Boko Haram continua se impondo. No último domingo a seita atacou um ônibus e raptou 18 pessoas na localidade de Kerawa junto à fronteira com Camarões. No estado nordestino de Borno, que atualmente está sob seu domínio, em abril raptou 276 meninas adolescentes em uma escola secundária. Seu líder, Abubakar Shekan, após assegurar que derrotará as forças militares africanas que estão entrando no país com 8.700 homens para combatê-lo, informou que as 219 jovens que ainda permanecem detidas apesar da ampla movimentação internacional para libertá-las (57 conseguiram fugir) foram convertidas, sob o reinado da sharia, ao islamismo e quase todas já estão casadas com militantes ou com camponeses das áreas ocupadas pela guerrilha. A comunidade internacional e mesmo os integrantes da União Africana precisam fazer bem mais do que estão fazendo para salvar a Nigéria do caos.

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