Crise na Petrobrás: repercussões internacionais – Rolls-Royce, Nélida Piñon e nota do Pravda (Boletim nº 8 – 17/02/2015)

 As três notas a seguir reproduzidas/comentadas refletem bem o “clima” que cerca os negócios da grande estatal brasileira, com enfoques vindos de Londres, de uma entrevista de famosa escritora em Madri e, por fim, desde Moscou o artigo inserido na edição em português do principal jornal russo, o Pravda.

ROLLS-ROYCE ENVOLVIDA NO ESCÂNDALO DA PETROBRÁS

Reconhecida pela produção de automóveis de luxo, a britânica Rolls-Royce (R-R) promete cooperar com as autoridades brasileiras caso sejam concretizadas as acusações de pagamento de suborno a fim de obter um contrato com a Petrobrás, a empresa estatal que está no coração de um crescente escândalo de corrupção.

Afirmando que ainda não havia sido contatada pelos investigadores brasileiros, desde logo se dispôs a fornecer todas as informações necessárias para esclarecer o caso. A acusação é de ter pago suborno num contrato relacionado ao fornecimento de módulos de geração de energia para as plataformas. Não foi especificado de que contrato se trata, dentre os vários operados no Brasil pela empresa de engenharia britânica, que é a mais recente das grandes companhias internacionais a ser envolvida num escândalo que ameaça engolfar o governo da presidente Dilma Russeff e colocar a Petrobrás em default pelo não pagamento de seus débitos. A Rolls-Royce vem trabalhando por mais de uma década por considerar o Brasil como um dos principais mercados em rápido crescimento, tendo previsto dobrar seus investimentos no Brasil para o ano 2020.

Rolls-Royce entre a sofisticação e os porões da Petrobrás
Rolls-Royce entre a sofisticação e os porões da Petrobrás

As alegações referentes à Petrobrás intensificarão as investigações a respeito do comportamento da R-R em seus negócios no mundo em desenvolvimento, considerando que ela já enfrenta acusações criminais nas cortes do Reino Unido especializadas em fraudes (Britain Serious Fraud Office) devido a envolvimento em pagamento de propinas na China e na Indonésia, além de um novo caso agora revelado na Índia.

Em uma nova nota, o Financial Tines colocou em manchete: Brazilian corruption claim crystallises Rolls’s goodwill challenge (Acusação de corrupção brasileira cristaliza desafios para a reputação da Rolls-Royce).

A seguir leia, em seu original, a nota do FT.

ROLLS-ROYCE VOWS TO CO-OPERATE WITH PETROBRAS INVESTIGATION (FINANCIAL TIMES – February 16, 2015)

Rolls-Royce has said it will co-operate with Brazilian authorities if they press ahead with an investigation into allegations that it paid bribes to win a contract from Petrobras, the state-owned oil company at the heart of a spiralling corruption scandal.

The British engineering company said on Monday it had not yet been contacted by Brazilian investigators but added: “We will take all necessary action to ensure compliance, including co-operating with authorities in any country.”

Rolls-Royce has been accused by a former Petrobras executive of paying bribes via an agent in exchange for a $100m contract to provide “modules of energy generation” for the oil company’s platforms. Rolls-Royce said it was unclear to which contracts the allegations referred.

It is the latest company to be caught up in a scandal that is threatening to engulf the government of Dilma Rousseff and push Petrobras in to technical default on its debt. Officials are investigating allegations that bribes were paid to company officials and politicians.

Rolls-Royce has worked with Petrobras for the best part of a decade and Brazil is one of the markets it has targeted for rapid growth. In its annual accounts last year it set a target to double revenues in Brazil by 2020. While the UK group does not break out Brazilian turnover, its sales in South America were £393m last year, out of a group total of £15.5bn.

Allegations over Petrobras contracts will intensify scrutiny of Rolls-Royce as it faces an ongoing criminal investigation by Britain’s Serious Fraud Office into claims of bribery and corruption in China and Indonesia. The US Department of Justice is looking at these allegations but has not launched a formal investigation.

Rolls-Royce has also been accused of corruption in India, although no formal probe is being conducted.

NÉLIDA PIÑON EM MADRI: MINOU-SE O CAMPO MORAL DA PETROBRÁS

A escritora Nélida Piñon está em Madri para receber mais um galarão. Trata-se do Prêmio El Ojo Crítico concedido pela Rádio Nacional espanhola. Reproduzimos abaixo a parte da sua entrevista em que fala sobre a presidente Dilma e a Petrobrás.

Escritora Nélida Piñon
Escritora Nélida Piñon

A senhora falava da falta de estadistas. Como primeira mulher a ter dirigido uma academia das letras, como vê Dilma Rousseff, a primeira presidenta do seu país?

Se você me perguntar se a considero uma estadista, não, não a considero. Mas quando se diz que não está correspondendo aos ideais dos brasileiros, eu recordo que ela foi eleita. Se as mulheres erram, os homens erraram milhões de vezes ao longo de milhões de anos. Acho que [Rousseff] não tem uma vocação política para dirigir um país com a complexidade do Brasil. Não basta ser um gestor, para ser um bom governante é preciso levar em conta os sonhos e as frustrações de um país. Seus antecessores eram muito mais estadistas, eram pessoas com vocação de políticos. Não é uma questão de ser homem ou mulher, nada disso. De toda forma, não gosto de falar dos méritos ou deméritos do Brasil. Tenho escrúpulos de falar de meu país. Se fosse uma ditadura, falaria tudo o que pudesse contra ela. Mas é preciso defender a democracia. Além disso, ela foi eleita, ganhou eleições.

O segundo mandato dela está marcado pelo caso Petrobras.

O que está ocorrendo é algo impressionante. Minou-se o campo moral da Petrobras, é uma profunda tristeza. Isso vai abalar a consciência do Brasil durante muito tempo. Como é possível que não se saiba, que saqueiem uma casa como a Petrobras e ninguém saiba nem diga nada. Não é possível. É uma falha moral e do poder presidencial.

Quanto vai custar recuperar a credibilidade?

Estava acontecendo e estava camuflado, o que nos leva a pensar que sabemos pouco, que só nos deixam saber pedacinhos, partes. É por isso que a imprensa é extraordinária; o Estado mente de forma inconsequente, só deixa que saibamos o que lhe convém.

 

No Brasil, sede da maior estatal do País é hipotecada para evitar calote bilionário

18.02.2015: Pravda.ru
RIO DE JANEIRO/BRASIL – No Brasil, naufragada em um “mar de lamas” de corrupção e assalto aos seus cofres por diretores, empresários, executivos, políticos e partidos políticos, entre eles o PT, do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff, e o PMDB, do seu vice-presidente Michel Temer, a Petrobrás, estatal brasileira que já foi ‘orgulho nacional’ foi surpreendida com uma decisão judicial que hipotecou sua majestosa sede administrativa na cidade do Rio de Janeiro, a Paris das Américas, por suspeita de um possível calote bilionário da empresa.

 A decisão da Justiça Federal Brasileira visa a indenizar em quase R$ 1 bilhão a Refinaria Manguinhos, que processa a Petrobrás em virtude prejuízos com a política de controle de preços da gasolina. Está na hora de convocar um padre para benzer – ou exorcizar – a Petrobras. É uma bruxaria atrás da outra. Não bastasse o impacto da operação Lava Jato nas finanças da empresa, entre outros tantos problemas que vêm a público dia sim, outro também, a Petrobras teve sua sede hipotecada pela Justiça do Rio de Janeiro.

A hipoteca serve como forma de garantir o pagamento de uma dívida de R$ 935 milhões, causada por “conduta predatória” da estatal. Os oito mil funcionários da empresa, que estão sem norte, podem ficar sem teto. A estatal, naturalmente, pode e ainda vai recorrer da decisão. O edifício hipotecado é a tradicional sede da estatal, localizada na Avenida Chile, no centro do Rio de Janeiro. Chamado de Edise, uma abreviação de Edifício Sede, o prédio inaugurado em 1974 foi construído por uma antiga parceira da Petrobras, a Odebrecht – agora investigada pela operação Lava Jato da Policia Federal. A sede que conta com 26 andares e jardins suspensos. A derrota judicial é mais um capítulo da disputa que a Petrobras trava com a Refinaria Manguinhos, localizada no Rio de Janeiro. A refinaria cobra da Petrobras danos materiais pela política de preços da estatal.

A crise enfrentada pela Petrobras foi um dos argumentos utilizados pela juíza Kátia Torres, da 25ª Vara Cível do Rio de Janeiro, para determinar a hipoteca da sede da estatal. Na prática, a hipoteca significa que, em caso de calote, a sede poderia ser usada para o pagamento. “Além do julgado envolver expressiva condenação de valor líquido, os problemas financeiros enfrentados pela ré são públicos e notórios, impondo-se a adoção da medida constritiva com vistas à efetividade do processo”, diz a decisão da juíza.

Por ANTONIO CARLOS LACERDA, Correspondente Internacional do PRAVDA.RU

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