Argentina: um século de permanente tragédia

Juan Domingo Perón e Eva Perón na Casa Rosada em Buenos Aires

Quando Cristina Kirchner decide sentar em uma cadeira de rodas – cabelo negro escorrido e toda de branco, evocando o fantasma dos últimos dias de Evita Perón – querendo convencer o povo argentino de que o assassinato com um tiro na têmpora do promotor Alberto Nisman um dia antes do depoimento que a acusaria é parte de um complô visando desestabilizá-la, está apenas dando continuidade à história de um país feito de tragédias.

A violência era tanta nas fronteiras entre Argentina, Brasil e Chile que em 1915 foi necessário firmar o Pacto ABC de Nâo Agressão, mas foi o massacre de 700 operários (70 da comunidade judaica) que reivindicavam melhores condições laborais, na Semana Trágica de janeiro de 1919, que marcou o século que se seguiria. Foram, até hoje, 40 presidentes, metade dos quais não terminou o mandato. O Golpe de Estado de 1930 que derrubou Yrigoyen (e, sem dúvida, a morte de Gardel cinco anos depois) é o ponto de partida do ciclo de decadência da Argentina, até então meca de imigrantes e de uma vida elegante e civilizada. Ao Levante de 43 seguiu-se três anos mais tarde a entronação de Juan Domingo Perón que governaria por uma década até ser derrubado por Aramburu com o brutal bombardeio da Plaza de Mayo de 55. Então o corpo embalsamado de Evita Perón, que morrera aos 33 anos de câncer, desapareceu da sede da CGT, sendo levado para a Europa. Ninguém soube do seu destino até o embaixador em Madrid devolvê-lo a Perón dezoito anos mais tarde.

Os grandes momentos peronistas costumam ser marcados por lutas entre seus dirigentes que se engalfinham na luta pelas melhores posições no palanque, como em 73 na volta do líder a Buenos Aires (após um largo período de prescrição total do peronismo) transformada em palco do massacre de Ezeiza. Uma época de soluções drásticas sobreveio entre 1969 e 76. O Cordobazo, uma revolta dos trabalhadores na cidade que lhe deu o nome, ajudou a minar a “revolução argentina” e a derrubar o general Onganía e seu regime. Surgiram os Montoneros – tendência revolucionária do peronismo que chegou a ter mais de 5 mil militantes -, o Exército Revolucionário Popular bem mais à esquerda e a Triple A, esquadrão da morte da direita. Aramburu foi raptado e executado pelos Montoneros em 1970, mas seu corpo só seria entregue em troca dos restos de Evita. Ao falecimento de Perón em 74 (no final ele dera cobertura à ultradireita) seguiu-se o desastroso governo de Isabelita e de Martinez de Hoz que afundou a economia nacional após a ilusão monetária da plata dulce (com seu ordenado os argentinos compravam de tudo em Blumenau, no Rio, em Miami) logo seguida por uma inflação anual de 567%. Isabelita assinou o decreto que permitiu aos militares aniquilar a guerrilha e matar 700 montoneros, pouco antes de perderem a paciência com ela e derrubá-la para instalar a mais cruel das ditaduras do Cone Sul. Então, alastrava-se o perigo de dissolução nacional, tal era o clima de confronto e caos numa nação sem comando.

Os militares ao chegarem ao poder com Jorge Rafael Videla em março de 1976 contavam com a simpatia de muitos civis, apoiadores da imposição da disciplina, da “recomposição da ordem” e da “reeducação dos argentinos”.  A ditadura entre 1976 e 1983 implantou o Terrorismo de Estado, deixando cerca de 30 mil mortos, 500 crianças “adotadas” por famílias de militares (algumas depois identificadas pelas Abuelas de la Plaza de Mayo) e um número ignorado de desaparecidos. Dois generais-presidentes que sobreviveram – Videla e Reinaldo BIgnone – foram julgados e condenados à prisão perpetua. O regime também matou muitos jovens argentinos ao enviá-los às Malvinas na guerra estapafúrdia que terminou em uma rápida derrota (73 dias, de 2/4 a 14/6/82) contra a Inglaterra de Margareth Thatcher.

Quem pensou que os problemas haviam terminado com a saída dos generais e almirantes, enganou-se. O governo da União Cívica Radical (83 a 89), após um começo cheio de esperanças, sob intensa pressão da CGT em meio à hiperinflação terminou com a renúncia de Raúl Alfonsín. Veio então a década de Carlos Menem (89 a 99), os anos dourados no primeiro mandato com a conversibilidade – peso e dólar em 1 por 1 – graças a Domingo Cavallo na Economia, as privatizações de tudo o que havia para vender, a glória do neoliberalilsmo não abalada nem pelo ataque dos iranianos contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina – AMIA – e à embaixada de Israel (em 94 com 85 vítimas fatais). Fernando de la Rúa da UCR eleito em seguida também não resistiu à pressão dos fortíssimos sindicatos e em meio a nova crise generalizada  desistiu em meio do mandato.

Enfim, após algumas interinidades, o poder foi conquistado pelos Kirchner, igualmente peronistas, primeiro com Néstor e desde 2007 com sua mulher Cristina. Ela levou anos trajando preto de luto pela morte do marido e agora, ás vésperas de encerrar seu segundo período no governo (antes só Perón e Menem haviam sido reeleitos), naufraga nas águas revoltas da denúncia de Nisman de que ela firmou um acordo comercial com os iranianos comprometendo-se a livrá-los das acusações (fartamente comprovadas) de serem os executores do ataque à AMIA.  Primeiro acusou-o de ter se suicidado, mas a hipótese era tão absurda que resolveu dizer que “alguém” o justiçou com o objetivo de complicar sua vida. Os verdadeiros algozes do promotor, como de costume,  não foram identificados. Seriam novamente os iranianos? Mais plausível, no momento, é que tenham sido uma consequência de desentendimentos internos no SIDE, o Serviço Secreto Argentino, especulando-se se a decisão tomada de eliminar aquele que durante dez anos coletara provas do envolvimento de assassinos a soldo do Aiatolá e por último das suas relações com o governo argentino, seria ou não do direto conhecimento de Cristina. Mientras tanto, a tragédia continua, com suas doses paquidérmicas de drama e lágrimas.

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