Zâmbia e Burkina: transições opostas

Novembro 03, 2014

A cada vez que um país africano, por pequeno que seja, se desestabiliza os vizinhos tremem, antevendo hordas de refugiados e confrontos entre milícias a serviço dos grupos em luta pelo poder. É uma moldura na qual se encaixa Burkina Faso, mas não a Zâmbia.

Os burkinenses foram para as ruas de Ouagadougou, a capital, invadiram o prédio do Parlamento e o incendiaram. Na segunda maior cidade do país, Bobo-Dioulasso, os manifestantes derrubaram a estatua do presidente Blaise Campaore e a destruíram a golpes de marreta, em protesto à sua tentativa de mudar a legislação a fim de permanecer na presidência. Por fim Campaore, de 63 anos, que comanda o país há 27 anos, renunciou e fugiu com sua família para a Costa do Marfim. Entre 1960, ano da independência da França, até 1987  Burkina Faso assistiu a um golpe a cada 3 anos e 1/2. Para governar, Campaore derrubou a Thomas Sankara, uma espécie de Che Guevara africano que por sua vez dera o golpe quatro anos antes.

Agora os militares adonaram-se do poder. Primeiro o general Honoré Traoré declarou-se no comando, mas de imediato teve de cedê-lo ao segundo homem-forte da Guarda Presidencial, o tenente-coronel Isaac Yacouba Zida que, no momento é o líder dessa nação centro-africana cuja pobre economia depende essencialmente das exportações de algodão e das reservas de ouro. Tanto Traoré quanto Zida mantinham forte ligaçção com o presidente deposto, o que leva a população a desconfiar de suas verdadeiras intenções de ora em diante. A promessa é de um governo de transição cuja tarefa principal é organizar eleições livres no mais tardar ao final de 2015. A oposição, num país por tanto tempo submetido a ditaduras, está obviamente debilitada. O partido que mais a representa, União para a Mudança, obteve apenas 19 das 127 cadeiras da Assembléia Nacional, agora dissolvida. A ONU e a União Africana exigem que a transição seja feita por um governo civil, mas isso parece ser altamente improvável no curto prazo.

Já na África Austral, Zâmbia vive situação distinta. Sem saída para o mar, encerrado entre sete instáveis vizinhos (tem fronteira com Moçambique, Zimbabwe, Namibia, República Democrática do Congo, Angola, Tanzânia e Malawi), tem sido um exemplo de estabilidade desde que se libertou do Reino Unido em outubro de 1964. Contrasta fortemente com o Zimbabwe do irremovível Robert Mugabe (entre os dois países corre o rio Zambezi com as Victoria Falls, uma das mais belas cataratas do mundo), principalmente por seguir os ensinamentos de seu primeiro presidente, Kenneth Kaunda, para quem o Zâmbia deveria ser uma nação multi-racial na qual a cor da pele não seria obstáculo para ninguém. Não obstante, numa população de 13 milhões de habitantes, somente 40 mil são brancos. Na semana passada o presidente Michael Sata faleceu num hospital de Londres e o Parlamento  decidiu empossar o vice, Guy Scott, 70 anos, filho de mãe inglesa e pai escocês, de pele branca!

É o primeiro chefe de estado branco em um país africano democrático, mas não é um desconhecido para os zambeenses que se acostumaram a respeitá-lo por sua longa e competente participação na administração pública. Scott, que nasceu no Zâmbia, na cidade de Livingstone, e é casado com uma mulher de Greenwich (ao sul de Londres), terá a missão de chefiar um governo interino e organizar novas eleições em no máximo 90 dias, nas quais não poderá concorrer porque a legislação exige que tanto o candidato quanto seus pais obrigatoriamente devem ser nascidos no Zâmbia. Orgulhosos, os intelectuais da terra dizem que Obama é para a América o que Scott é para o Zâmbia. Ainda assim, não parece ser das mais fáceis a tarefa de comandar e manter o equilíbrio entre os 72 grupos étnicos - a maioria Bantu - em que se divide esse país de 752 mil km2, aproximadamente três vezes o tamanho do estado de São Paulo. Em volta de Burkina Faso, os próximos anos assistirão o final de mandatos em Angola, Burundi, Congo Brazaville, República Democrática do Congo, Ruanda, Libéria e Serra Leoa. Apenas os presidentes dos dois últimos já declararam que não concorrerão nem permanecerão no posto.

[caption id="attachment_1230" align="alignleft" width="300"]Guy Scott ao assumir a presidência do Zâmbia cumprimenta os chefes militares da Defesa e da Segurança Guy Scott ao assumir a presidência do Zâmbia cumprimenta os chefes militares da Defesa e da Segurança[/caption]

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