Vinhos: a ofensiva chinesa

Agosto 28, 2014

Muita coisa mudou desde que alguns anos atrás fomos recebidos numa recepção na residência do embaixador chinês em Brasília, à beira do lago Paranoá, com tacinhas que segundo o garçom eram de vinho branco. Impossível bebê-lo. Tratava-se de baijiu, uma beberagem feita à base de sorgo muito comum desde antes dos tempos de Mao Tse-Tung. Hoje a China já é o maior consumidor de vinhos tintos do mundo com 1,9 bilhão de garrafas – pelo menos 70% delas produzidas no próprio país –, desbancando dessa posição os até aqui insuperáveis gauleses. Enquanto isso, em um terroir na colina de Entre Deux Mers o proprietário, Sr. Zhang Jinshan, fica satisfeito pela manhã ao cumprimentar o vizinho de frente que não é um francês e sim o Sr. Qu Naijie, dono de cinco chateaux em Bordeaux.  Trata-se de um fenômeno recorrente: a quantidade de milionários chineses que adquirem vinícolas e vinhedos na França – e também na Espanha, nos vales de Napa na Califórnia e de Barossa na Austrália ou na Nova Zelândia – cada vez aumenta mais, preocupando os que pensam em preservar as tradições e acusam os chineses de apenas fazerem negócios com a única intenção de abastecerem aos cada vez mais ávidos consumidores em Pequim, Xangai ou Guangzhou. Recentemente os descendentes do ex-presidente François Mitterrand resolveram leiloar o castelo e os vinhedos de Gevrey-Chambertin, originalmente uma capela do século XI. A Associação local de comerciantes e produtores de vinhos coletou 5 milhões de euros, mas o lance vencedor de 8 milhões de euros foi dado pelo chinês Louis Ng, o principal Executivo da holding SJM que opera cassinos em Macau e rivaliza em fortuna com Henry Tang, o rei do mercado de jogos de azar em Hong Kong. “Se um investidor daqui comprasse 10 ou 50 metros da Grande Muralha da China, o que eles diriam?”, perguntou Jean Michel Guillon, presidente do sindicato de Gevrey. O Chateau de Viaud, uma marca de origem controlada (AOC) do Pomerol foi para as mãos da China Oil & Foodstuffs Corporation por 10 milhões de euros. Mais de cem empresas vinícolas, também na Borgonha e outras regiões produtoras já pertencem a capitalistas sinoítas que, por vezes, cometem excessos, como no caso de Lam Kok, 46 anos, magnata do chá e responsável pela maior aquisição já feita em Saint Emilion, que logo após a festa de comemoração resolveu sobrevoar os vinhedos num vôo rasante de helicóptero e tragicamente afundou nas águas do rio Dordogne. Dentre os muitos grandes vinhos franceses, um deles tornou-se um ícone depois que a famosa estrela cinematográfica Chow Yun-fat de Hong Kong disse numa cena: “abra uma garrafa de Lafite 1982”, transformando-o instantaneamente num símbolo de status e presente preferido para milionários ao lado de marcas como rolex, longines, chanel. O preço de uma caixa de Chateau Lafite Rotschild saltou de 2.500 para 13 mil dólares para mais tarde estabilizar-se em 5 mil. Paralelamente, junto com a florescente indústria vinícola chinesa da região de Hebei (conhecida como a Bordeaux chinesa), generalizou-se a prática de fraudes. Uma garrafa vazia em bom estado de Lafite ou Petrus chega a valer até 300 libras ou R$ 1.200,00, para ser enchida com vinho de qualidade inferior (veja Veseth, M. - The Brics: two faces of chinese wines). Recentemente as autoridades em Pequim autorizaram industriais de Hebei a adicionar químicos a seus produtos e ainda assim denominá-los de vinhos. Tornou-se comum mesclar o sumo com água, açúcar, agentes corantes e flavorizantes (para dar sabor) ou altas doses de conservantes, com o resultado inevitável de ocasionar dores de cabeça memoráveis em seus clientes. “New win in old bottles” dizem os que lidam com a febre de vinhos falsificados, por lá tão comuns quanto as pinturas de Dali. Numa medida que pouco agradou aos produtores nacionais, na praça de Hong Kong o imposto de importação de vinhos foi drasticamente reduzido, de 65% para 14%, dando um vigoroso impulso aos produtos estrangeiros que são provenientes principalmente da França (46%), Austrália (13%) e Espanha (11%). O Brasil compete com uma gama de outros países por uma fatia dos restantes 30%, mas continua a esbarrar na violenta carga tributária nacional que tira a competitividade dos seus produtos. Cada garrafa aqui produzida paga 63,68% de impostos (30% de IPI, 23% de ICMS, 7,6% de Cofins, 1,65% de PIS e 1,59% de outros), enquanto as importadas sofrem uma taxa adicional de 20%.  Mesmo assim, com o apoio ultimamente recebido do Instituto Brasileiro do Vinho e da Apex, empresas como a Valduga, Miolo, Cooperativa Vinícola de Garibaldi e Salton começaram a explorar o mercado internacional e atualmente a China já é o oitavo maior importador de vinhos brasileiros (lideram os Estados Unidos, seguidos em 2013 pelo Paraguai, Japão e Colômbia). A Miolo, além de colocar seus produtos no principal site de venda de vinhos do país, o “Yes my wine”, abriu o que chama de loja-conceito, um prédio de quatro andares, num bairro de Xangai. Até os produtores do Vale do São Francisco buscam o seu espaço. A partir da primeira missão empresarial Brasil-China que visitou Petrolina em 2011, sucos e vinhos da região gradativamente aumentaram suas exportações para o oriente. O mundo do vinho tem seus olhos voltados para o mercado chinês e sabe de seu enorme potencial, inclusive em termos de qualidade. Vinícolas como a Dinasty, Great Wall e Changyu, que já dominam o comércio interno, buscam destaque internacional. Há três anos um pequeno lote do Cabernet Dry Red 2009 da vinícola Jia Bei Lan competiu e se tornou o primeiro do seu país a vencer em Londres o Decanter World Wine na sua categoria. Poucos duvidam de que em breve o fluxo de comércio começará a se inverter, não estando longe o dia em que vinhos produzidos em terroirs chineses começarão a freqüentar as prateleiras dos supermercados ocidentais.

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