A LÍBIA E SEUS LABIRINTOS

Em meio ao caos tribal, religioso, étnico, político e regional em que se transformou a Líbia pós-Khadafi, o general renegado Jalifa Hifter depois de infernizar a vida dos habitantes de Benghazi, a segunda maior cidade do país, liderou seus comandados num ataque direto ao Parlamento na capital, Trípoli, que só não teve êxito porque a guarda remanescente e a milícia Zitan, pró-governo, conseguiram impedi-lo logo depois de ter ocupado os microfones da Casa prometendo instalar uma Assembléia Constituinte destinada a evitar que a maioria de deputados elegesse um 1º ministro muçulmano, sucedendo a três outros que ao longo deste ano foram empossados e renunciaram ao cargo, em geral devido a ameaças de morte por parte de grupos terroristas. As eleições legislativas de maio último até agora não conseguiram produzir um novo governo. De um total de 3,5 milhões de habilitados a votar, só 1,5 milhão se inscreveram e 630 mil compareceram às urnas. No dia do pleito um grupo de jihadistas metralhou a casa de Salwa Bughagis, matando a líder revolucionária que foi membro do Conselho Nacional de Transição logo após a derrubada do ditador em 2011 e era odiada por ser uma ativista radical na defesa dos direitos das mulheres. Ameaçada diariamente, ela saíra da Líbia com a família, mas havia retornado para votar.

A Líbia não é uma nação e sim um labirinto no qual suas mais de 140 tribos são ciosas de suas tradições e de seus poderes de influência. As duas principais – Wafalla (1 milhão de seguidores) e Margaha – ficaram em segundo plano durante o período em que o comando nacional ficou com os Qadhadhifa (a etnia do presidente), mas não desapareceram. Em um texto que escrevi em março de 2011, sete meses antes do assassinato de Khadafi, observei que “conceitos como sociedade civil, partidos políticos, movimento sindical, opinião pública, direitos humanos são desconhecidos do povo líbio, não havendo, portanto, quem assuma de maneira consistente um governo de transição. Um golpe militar é impossível, pois o exército foi enfraquecido por Khadafi exatamente pára evitá-lo.”

Agora, no entanto, a situação mudou. A força está nas armas de quatro milícias jihadistas localizadas em diferentes áreas geográficas e com interesses distintos, unidas apenas pelo desejo comum de substituir o instável governo até aqui sustentado pela UNSMIL, a missão da ONU para a Líbia que acaba de se retirar diante dos ataques ao aeroporto que inviabilizaram sua permanência. Formaram uma longa coluna de veículos e partiram por terra numa perigosa viagem de 180 km rumo ao oeste até a fronteira com a Tunísia. Devem voltar tão logo seja possível.

O insucesso da tentativa de golpe do general aposentado Hifter pode, igualmente, ser temporária, pois ele tem apoio de boa parte dos líbios, dos comandos da base aérea e das forças especiais de Benghazi, com base em uma plataforma simples: evitar que os partidos islâmicos dominem o parlamento de 60 membros permitindo a infiltração de grupos ligados à Al Qaeda. Enquanto isso, a economia nacional afunda. A produção de petróleo caiu de 1,5 milhão de barris ao dia três anos atrás para os atuais 250 mil, uma redução de 83%. Praticamente isolada do resto do mundo, a Líbia que era o grande obstáculo para a migração regional rumo à Europa agora não sabe como lidar com o fluxo permanente de africanos querendo cruzar seu território. Assustados, os países limítrofes – Argélia, Chade, Egito, Níger, Tunísia e Sudão – estão fechando suas fronteiras.

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