Talebans e a poliomielite

Maio 07, 2014

A pólio é uma infecção viral aguda sem cura que pode redundar em paralisia e morte, mas é prevenível pela vacinação infantil. Internacionalmente erradicada, permanece ativa no Paquistão onde ocorreram 59 dentre os 74 casos novos confirmados em 2013 (contra apenas 24 no ano anterior), no Afeganistão e na Nigéria. A Organização Mundial da Saúde emitiu um alerta global para a doença e impôs severas restrições a viajantes para o Paquistão pelo temor de que dai  a doença, que é altamente transmissível pelo contato direto com as pessoas infectadas pelo poliovírus, volte a espalhar-se pelos demais países.

[caption id="attachment_538" align="alignright" width="640"]Campanha de vacinação infantil contra a pólio perto da fronteira entre Paquistão e Afeganistão (Radio Free Europe/Radio Liberty 7/5/14) Campanha de vacinação infantil contra a pólio perto da fronteira entre Paquistão e Afeganistão (Radio Free Europe/Radio Liberty 7/5/14)[/caption]

Em três regiões paquistanesas - as megacidades de Peshavar e Karachi e nas áreas tribais do Waziristão do Sul (FATA) - a vacinação tem sido sistematicamente bloqueada por quatro razões: a) guerrilheiros talebans das milícias Tehrik-e Taliban Pakistan (TTP) já raptaram e assassinaram dezenas de vacinadores sob o argumento de que são espiões ocidentais disfarçados. De fato, a CIA teria usado o médico paquistanês Shakil Afridi - no que é conhecido como o caso Afridi - para confirmar a presença de Osama Bin Laden (assassinado em Abbottabad em maio de 2011) através do DNA identificado em amostras de sangue colhido de seus familiares em campanha de vacinação contra a hepatite; b) religiosos linha-dura têm acusado as práticas de imunização de levar à infertilidade e as acusam de ser um complô externo para esterilizar as mulheres muçulmanas, chegando a declarar fatwas que conferem o status de martir a todos os que ficarem paralíticos ou morrerem devido à pólio; c) as campanhas sanitárias são taxadas de não-islâmicas, em parte porque as vacinas são produzidas em outros países, entre os quais os EUA e em parte porque espalhou-se o falso boato de que seriam feitas com gordura de porco ou contém traços de álcool, ambas substâncias proibidas pelo Islam; d) as condições sanitárias principalmente nas populosas áreas próximas à fronteira afegã, são muito precárias e sem infraestrutura mínima razoável de serviços de saúde. Sob intenso risco, cerca de 250 mil crianças sobrevivem nas áreas tribais do Waziristão norte e sul.

 Autoridades nacionais e regionais, como a ministra da saúde do Paquistão Saira Afzal Tarar e o assessor Khavaja Radique da província de Punjab declararam que estão empenhados em instalar postos de vacinação nos aeroportos e nos acessos às estradas que conduzem famílias dos povos Pashtun e Sindh com seus filhos, num esforço para imunizá-los com as gotinhas salvadoras. Viajantes internacionais, pegos de surpresa, não sabem onde  podem ser atendidos nem como obter um certificado de saúde.

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