Vinhos no Vaticano

Março 10, 2014

A zinfandel, uma das uvas mais típicas da Califórnia onde é responsável por cerca de 10% dos parreirais de qualidade, origina vinhos tintos e brancos que disputam o título de preferência número um dos norte-americanos. No entanto, a origem da cepa é a região de Puglia no Piemonte italiano que a conhece como Primitivo. Ganhou fama no século XVIII, quando o Papa Bento XIII tornou-se um dos seus mais assíduos consumidores. Atualmente a tradição é mantida por vários produtores, com destaque para a Valvaglione que exporta, principalmente para os Estados Unidos, grandes quantidades de seu “Primitivo di Manduria”, uma homenagem a essa pequena cidade no coração de Puglia.

Num momento de inspiração e encantado pelo atraente buquê misto de framboesa, aniz, amora e pimentão, decidiu denominar sua linha dourada de “Papale” (papal). Tudo se completou quando um ano atrás, às vésperas da escolha do novo Papa, logo cedo MIchael Carpenter, o proprietário da conhecida casa comercial  Redd Collection em Culver City no condado de Los Angeles, logo cedo atendeu o telefone para receber uma curiosa encomenda: 115 garrafas do “Papale Primitivo di Manduria” (vide imagem) para serem entregues no Vaticano, em Roma, como uma recordação a cada um dos 115 cardeais que em seguida escolheriam o argentino Jorge Mario Bergoglio como o Papa Francisco. Considerando a quantidade pedida, o comprador concluiu com razão que seria mais seguro encontrá-la nos Estados Unidos do que ali por perto, nas colinas piemontesas, mesmo tendo de pagar o dobro do preço de loja -  20 dólares por garrafa - devido ao frete (no Brasil um primitivo similar é vendido por R$ 114,90 pela importadora Bacco’s).

[caption id="attachment_366" align="alignright" width="720"]"Papale", o primitivo da coroação do Papa Francisco "Papale", o primitivo da coroação do Papa Francisco[/caption]

A história vem a calhar no momento em que o Wine Institute divulga suas estatísticas para o ano de 2012, revelando que a liderança mundial em termos de consumo per capita de vinho cabe ao Vaticano, onde cada um de seus 840 habitantes em média responde por 74 litros de vinho por ano, o equivalente a 99 garrafas de 750 ml cada, superando com folga a tradicionais super bebedores como os residentes em Luxemburgo (2º com 56 l), Andorra, França, Eslovênia, Portugal, Suíça e Itália que se classificaram a seguir num ranking que coloca o Brasil (menos de 2 litros per capita) por volta do 90º posto. Hoje, 24,4 bilhões de litros ou 32,5 bilhões de garrafas-padrão são consumidos anualmente em todo o mundo, das quais 493 milhões no Brasil, um país – como a China – populoso e de baixa ingestão por cabeça.O debate que se seguiu ganhou as páginas do The Guardian (edição de 25/2/14) na tentativa de entender os porquês de tão alto consumo no Vaticano. Uns dizem que se deve ao uso normal nas missas e celebrações, mas Michael Winterbottom do periódico The Universe Catholic explicou que a bebida quando usada nos sacramentos não é comprada em mercados, pois deve ser feita de pura uva. Outros revelam que na loja interna, conhecida como “Spacio dell’Annona” (Espaço do Araticum, Pinha ou Quaresma) os impostos e taxas inexistem ou são nulos. Alí é possível adquirir correntes, broches, rosários, livros sacros, medalhas, moedas, crucifixos, biblias, velas, lembranças, álbuns fotográficos e... vinhos.

Por outro lado, vale referir que cada vez mais pessoas desejam conhecer o Museu e as instalações do Vaticano. A cada ano são cerca de 5,1 milhões de visitantes, ainda menos que o Louvre com 8 milhões, mas quase o mesmo que o British Museum de Londres ou o Metropolitan Museum of Art de New York. Uma vez que não há qualquer comprovação acerca dessas hipóteses, e nenhuma relação efetiva entre os altos números de visitas e de enófilos, o mistério permanece.

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