Gato para o jantar

Há muito tempo atrás, em pleno século XIV, Timbuktu no extremo sul do deserto do Saara, durante o Império Malinês era o centro cultural do islamismo.

Sua universidade, a Sankore Madrasah com 25 mil estudantes, famosa pelo nível elevado de ensino das artes e da ciência, formou muitos dos grandes sábios da antiguidade. Vieram as tribos tuaregues e com elas um auge econômico sob o Império Songhai de 1468 a 1591, graças às caravanas transaarianas que negociavam sal, ouro e escravos. A invasão pelo Marrocos e o bem mais lucrativo comércio marítimo desenvolvido pelos europeus marcaram o início do longo declínio que resultou naquela que hoje não passa de uma pequena e empobrecida localidade de quase 60 mil habitantes, com freqüência devastada pelas pragas de gafanhotos e consumida progressiva e fatalisticamente pelas areias do deserto. Restam-lhe, além da fama, os belos templos construídos de areia e três escolas com currículo dedicado apenas à religião: as madrassas de Djingureber, Sidi Yahya e Sankore. No período das chuvas, em dezembro e janeiro, o canal de 3 km traz as águas transbordantes do rio Níger, mas no resto do ano predomina o vento seco do deserto, o Harmattan Haze, que nas horas mais densas reduz a visibilidade a uns poucos metros.

As famílias prezam suas tradições culturais e desenvolveram o hábito milenar de guardar manuscritos em esconderijos nos arredores da cidade. Atualmente escavações financiadas pela Unesco tratam de recuperá-los e na zona central o Instituto Ahmed Baba deles possui uma vasta coleção. Alguns documentos são tão frágeis que não podem ser movidos de onde estão, enquanto outros foram destruídos pelas milícias talibãs que somente em janeiro último foram expulsas pelas forças francesas.

Apesar da presença estrangeira o Mali continua em guerra, com as três províncias do norte (Gao, Kidal e Timbuktu, na região denominada de Asawad pelos rebeldes) que representam quase 60% do território nacional, na prática em mãos dos tuaregues e da facção Al-Qaeda do Magreb Islâmico – AQMI. Empossado em setembro último na capital – Bamako -, o novo presidente, Ibrahim Keila, tem como desafios reunificar o país, promover a paz e o crescimento econômico. Com 1,2 milhões de km2 e 16 milhões de habitantes (2/3 são analfabetos) o Mali é um dos países mais pobres do mundo, cotado em 175º lugar entre 187 nações pelo IDH. No momento vigora um instável acordo de cessar-fogo, sustentado por apenas duas das dezenas de tribos tuaregues que operam em Azawad. Eleições legislativas realizadas domingo passado para preencher 147 cadeiras na Assembléia Nacional e indicar o primeiro-ministro não deram maioria a nenhum dos dois principais partidos políticos malineses tornando necessário um segundo turno neste dezembro. A nova Missão da ONU para o Mali (Minusma) apóia o processo com 11 mil capacetes azuis e 1,4 mil policiais que substituem as forças da União Africana, até aqui incapazes de fazer cessar o conflito.

Nessas condições, viajar para o norte e conhecer Timbuktu é algo reservado apenas a aventureiros que tenham um bom estômago e não estranhem quando inadvertidamente olharem para cima e se depararem com os couros dos gatos, ainda com as cabeças, a secar pendurados nos cabos telefônicos e nos fios da rede elétrica. Embora os gatos sejam considerados impuros pela religião muçulmana que proíbe seus seguidores (90% da população, a maioria sunita) de comê-los, as regras são violadas por jovens, numa espécie de rito de passagem para a puberdade (ou aceitação pelas patotas e gangues) a que são submetidos os garotos menores. Uma vez capturado, o felino é esfolado, enquanto a carne é escondida e deixada a secar durante três dias em alguma toca no deserto. Então, os pequenos em bandos amarram o couro com a cabeça em volta da cintura e vão dançar e cantar em volta das casas. Supersticiosos e amedrontados pelo que consideram bruxaria os adultos lhes dão como pagamento um punhado de arroz, que mais tarde acompanha o banquete em que os gatos são devorados. Por fim, os couros dos animais são jogados sobre os cabos telefônicos e lá ficam expostos como prova do festival macabro que enfeita as ruas de Timbuktu, outrora o símbolo maior da fé islâmica.

Couro de gatos pendurados nos fios da rede elétrica de Timbuktu. In: www.exploretimbuktu.com/

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