O grande Uruguai

Ao contrário dos seus mais potentes e irregulares vizinhos do norte e do sul, o pequenino Uruguai vai muito bem, obrigado. Com 176 mil km2 de área, pouco mais da metade do território gaúcho, é o primeiro da América Latina nos índices de desenvolvimento democrático, corrupção, paz global, prosperidade, segurança, liberdade de imprensa, além de ter a menor proporção de analfabetos e de habitantes abaixo da linha de pobreza.

Em seu último ano de mandato, Pepe Mujica – um ex-guerrilheiro tupamaro, tido como o presidente mais austero do mundo – tem planos ambiciosos para a economia uruguaia. Na administração anterior da Frente Ampla, com Tabaré Vasquez (favorito a retornar à presidência nas eleições de outubro), o macroprojeto das papeleiras nas águas limítrofes de Fray Bentos, conjunto com a firma finlandesa UPM (ex-Botnia), depois de superar uma dura disputa com a Argentina transformou o Uruguai num dos maiores exportadores mundiais de celulose. Agora as esperanças de que não mais se limite a ser um fornecedor quase exclusivo de carne e lã se concentram nas minas de ferro de Valentines, na Coxilha Grande, divisa entre as províncias de Treinta y Tres e Florida, no centro do país.

Presidente Pepe Mujica
Presidente Pepe Mujica

Os investimentos básicos necessários alcançam a estratosférica cifra de 2 bilhões de dólares, um dinheiro que o Uruguai, com um PIB de US$ 50 bilhões, definitivamente não possui. Para levar adiante seu sonho, Mujica aliou-se a uma obscura empresa familiar indiana, a Zamin Ferrous, cuja filial uruguaia, a Minera Aratirí, promete esgotar as reservas de Valentines num prazo de 20 anos, exportando-as para a China. O projeto uruguaio tem três gigantescos componentes: as minas, o mineroduto e o porto de exportação. O complexo de extração compreende cinco minas a céu aberto e uma planta de beneficiamento que deverão produzir 18 milhões de toneladas de mineral de ferro ao ano. O mineroduto (com um aqueduto acoplado) conduzirá uma mistura concentrada de ferro e água ao longo de 212 quilômetros, em manilhas estendidas a um metro de profundidade até o terminal portuário na praia de El Palenque, departamento de Rocha, escavado a fim de suportar a presença de barcos com 19 metros de calado e que hoje não conseguem chegar ao Cone Sul.

Trata-se, evidentemente, de um investimento de alto risco do estado uruguaio, que faz lembrar o projeto do governo nicaragüense em associação com o magnata chinês Wang Jim, de construção de um novo canal entre Atlântico e o Pacífico na América Central. No caso uruguaio, recentemente circularam pelo mundo as fotos de Mujica cumprimentando efusivamente ao indiano Pramod Agarwal, principal executivo da Aratirí/Zamin Ferrous que fez breve carreira dirigindo uma outra mineradora do grupo, a Texuna, com sede em Hong Kong e operação no mercado de matérias primas dos países da ex-União Soviética.  Embora o Congresso Nacional venha dando apoio à proposta do Executivo, acumulam-se resistências relacionadas aos impactos ambientais das obras, ainda não inteiramente dimensionados, e ao esgotamento das reservas minerais de Valentines em somente duas décadas. As respostas a tais dúvidas se baseiam na hipótese de que os chineses estariam apostando suas fichas paralelamente no setor de alimentos com a construção de uma outra superestrutura, a ser estimulada pelo projeto Aratirí: um poderoso porto multipropósito de águas profundas que serviria ao comércio marítimo não só do Uruguai, mas também da Bolívia, Paraguai, Argentina e Brasil, escoando a produção regional.

Alguns críticos mencionam o fato de que há ferro em abundância quase no mundo todo e, embora reconheçam que no último quarto de século o preço de cada tonelada subiu quase 7 vezes, saltando de 26 para 180 centavos de dólar, argumentam que se trata de uma valorização advinda da especulação financeira provocada pela demanda estimulada por Pequim. Seria uma bolha típica do universo capitalista que poderia estourar de uma hora para outra caso a China diminua seu crescimento.

O professor Juan Jose Verdesio da Universidade de Brasília comenta que apesar dos riscos inerentes a um grande empreendimento como este, pode ser benéfico a curto e médio prazos para o Uruguai, mesmo em se tratando uma vez mais de exportações de mínimo valor agregado (celulose e ferro) e confiado na manutenção do poder de compra de um só cliente chinês intermediado por um negociante indiano. O Uruguai, diz ele, oferece segurança jurídica, um sistema bancário aberto, corrupção quase nula e um capital humano de primeira que permite sonhar com um desenvolvimento sustentável, igualando-se ao que hoje já alcançaram países de pequeno porte como Nova Zelândia, Finlândia e Irlanda, caso consiga incrementar o ensino de alto nível em suas universidades e apoie a qualificação e expansão de pólos de produção de softwares, queijos, azeites, vinhos, entre outras muitas possibilidades. Atualmente o Uruguai já comercializa anualmente 8 milhões de litros de azeite com apenas parte dos 10 mil hectares de olivais plantados em fase de produção, além de ser o maior exportador de software da América Latina e colocar nas mesas dos restaurantes um caviar que nada fica a dever aos melhores trazidos da Rússia. Cabe perguntar: o que o futuro planeja para esse pequeno grande país?

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