Iêmen: guerras que se renovam

Iêmen: guerras que se renovam

No extremo meridional da Ásia, tendo a África como paisagem logo à sua frente, o Iêmen paga caro pela própria importância estratégica. Nada justifica, no entanto, a escolha de seu povo como cobaia para experimentos e testes globais dos mais funestos armamentos produzidos por países belicistas que parecem se divertir alimentando uma guerra sem fim. Mundo Século XXI, que periodicamente tem retornado a este tema (vide, p.ex., a matéria anexa de janeiro de 2015 – Iêmen, um país sem esperanças), agora traça um perfil bem mais completo de um conflito que se configura como a maior tragedia humanitária da atualidade mundial. Em apoio ao texto, publicamos o vídeo Yemen – una guerra a puertas cerradas do site Reporteros. (VGP)

Interesses geoestratégicos

Com 33 milhões de habitantes em um território de 53,7 mil k2 equivalente ao do estado da Bahia, a mais extensa e perigosa fronteira do Iêmen é ao norte com a Arábia Saudita – AS; tendo Omã ao leste, e o Oceano Índico com o Golfo de Adem e o mar Vermelho ao sul e a oeste. Logo adiante, mas já no Golfo Pérsico, estão os Emirados Árabes Unidos – EAU. As ambições internacionais se aguçam, interessadas pelo petróleo e pelo desenvolvimento de negócios comerciais e de armas. Cada ponto crítico é hoje um barril de pólvora, a começar pelo estreito de Bab-al-Mandab por onde passa 40% de todo o comércio marítimo mundial na rota do Canal de Suez e a continuar com o imenso deserto de Rub-al-Khali (conhecido na região simplesmente como Ramlah – A Areia), um vasto manancial petrolífero cuja maior parte está na Arábia Saudita e em geral com reservas ainda por explorar. No momento o petróleo viável iemenita está concentrado em volta da província de Aden ao sul do país às margens do Golfo do mesmo nome por onde é exportado. No futuro, um megaprojeto prioritário para sauditas e israelenses é a construção da ponte Aden-Djibouti ligando Ásia e África para dar vasão a múltiplas áreas petrolíferas de ambos os lados.

O xadrez político

O célere avanço dos Houthis, um grupo tribal xiita originalmente sediado na província nortista de Saadah que nos últimos anos dominou a maior parte do país, inclusive a capital Sanaa, significa a consolidação da influência dos aiatolás iranianos no Iêmen, o que provocou imediata e violenta reação da Arábia Saudita no final de 2015. O clã dos Partidários de Deus – Ansar Allah – é comandado  pelo xeque Abdelmalik Badraddin al-Houthi de 33 anos, sucessor de seu irmão maior e fundador do grupo Hussein Badraddin morto pelo Exército (outros três irmãos ocupam posições chave de comando). Foi ele que esteve à frente da ocupação do palácio presidencial em Sanaa, forçando a fuga do presidente Abdel al-Hadi. Os houthis com um discurso nacionalista e anti-corrupção são contrários ao salafismo, ao sionismo e ao imperialismo, pelo que consideram seus inimigos a AS, os Estados Unidos e Israel, opondo-se ainda ao jihadismo sunita de Teerã, à Al Qaeda e ao Estado Islâmico.

O atual presidente iemenita Abdel Rabbum Mansur al-Hadi sucedeu primeiro pró-forma ao longevo presidente Ali Saleh e depois de fato, quando este foi assassinado pelos houtis em fevereiro de 2015. Ao ser destituído do poder fugiu da capital concentrando seus apoiadores em Aden, a segunda maior cidade do país. Em seguida, cercado e sem saída, voou para Riad, a capital saudita, onde reside até hoje. Este episódio deu início aos bombardeios de Aden pela aviação da AS, retomando a cidade em favor de Hadi.

A guerra, então, espalhou-se por todo o Iêmen com múltiplos grupos e milícias sendo parte ativa nos confrontos.

Há o Exército Nacional dividido em frentes pró Saleh que hoje apoiam os Houtis e contra (que acompanharam a Hadi), os Comitês Populares que são milícias locais e a Guarda Republicana, um corpo de elite do Exército que durante anos deu sustentação ao regime central mas que por não ser confiável aos novos dirigentes foi dissolvida, pelo que a maioria dos membros por seu talhe nacionalista uniu-se aos houthis.

Al Harek é um poderoso movimento sulista que não aceitou a formação de uma república federada porque defende a divisão do país (como foi antes da década de 1990) em dois Iêmens, um do Sul e outro do Norte. Em 2017 criou o Conselho de Transição do Sul – CTS com 25 membros entre os quais seis governadores de províncias e apoio dos Emirados Árabes Unidos de orientação separatista, formalmente com o objetivo  tático de dar sustentação ao governo de Hadi, fazendo parte da Coalizão sob direção saudita a fim de combater aos houthis e opor-se à influência iraniana. Conta com uma milícia de elite, a Cinto de Segurança, de inteira confiança dos EAU.

Outros grupos como o Partido Socialista do Iêmen, a Confederação Tribal Hashidi em geral estão ao lado do governo reconhecido internacionalmente de Hadi, mas a Confederação Tribal Hadrami mantém certa neutralidade e almeja autonomia para seu estado (Hadramut), o mais extenso e rico do país; enquanto as Tribos de Marib, na região central, querem somente para si os frutos dos poços de petróleo de seu subsolo.

A Arábia Saudita sempre teve a ambição de dominar a parte meridional da Península Arábica, no que se inclui a submissão do Iêmen a suas políticas e interesses, mas quando Sanaá foi ocupada pelos houtis pró-Irã não teve dúvidas em atacar e para isso formou uma Coalizão na qual lidera oito países sunitas:  Egito (interessado em proteger Suez mantendo liberado o estreito de Bab-al-Mandab na costa iemenita), Marrocos, Jordânia, Sudão, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrain. Outros três países – Djibouti, Eritreia e Somália – colocaram seus espaços aéreos e águas territoriais à disposição da Coalizão.

Os Emirados Árabes Unidos abriram uma cisão na Coalizão ao discordarem  da sustentação por parte de Riad à proposta de um governo unificado com Hadi, alinhando-se aos separatistas que insistem na solução de dois Iêmens. No momento, embora sigam combatendo aos houthis, estão promovendo a retirada parcial de suas tropas do Iêmen

O Irã, embora formalmente o negue, sem dúvida é o grande pilar de sustentação do movimento houthi, abastecendo-o com todo o necessário por meio de desembarques clandestinos pelo mar Vermelho. Dessa maneira consolida uma forte e quase decisiva presença xiíta no coração sunita da Península Arábica.

Aproveitando-se do caos generalizado, estão a Al Qaeda da Península Arábica (AQPA) e o Estado Islâmico (EI) que operam separadamente e se odeiam entre si. Até aqui têm ocupado territórios e localidades iemenitas por curtos períodos de tempo, e eventualmente se fortalecem via alianças com algum dos grupos em luta. O EI tem feito ataques indiscriminados e, conforme seu estilo, de grande violência, nas áreas sob domínio dos houthis (alguns dos quais têm se incorporado aos terroristas).

Os Estados Unidos, com a cumplicidade do Reino Unido, fornecem armas, dinheiro e subsídios à A.S. com a desculpa de que assim estão combatento ao Irã. Seu papel é cada vez mais decisivo desde a ascenção à presidência de Donald Trump. Apesar disso, as vitórias em série das tropas houthis surpreenderam os norte-americanos que tiveram de evacuar às pressas sua base aérea de Al Anad ao norte de Aden, núcleo básico das operações contra o EI na região. De imediato a base foi ocupada pelos houthis. Vendo a inutilidade de seu apoio à Coalizão, Trump começa a aventar a hipótese de enviar tropas para o Iêmen.

Armas de fragmentação – proibidas e em pleno uso

Resultado de imagem para Brazilian cluster munitionPressTV – ‘Saudis keep pouring cluster bombs in Yemen’. Source: presstv.com

Em seu Informe Mundial de 2019 a organização Human Rights Watch observa que:

  • Ataques aéreos fora da lei têm provocado a perda de vidas em massa na população civil;
  • ataques indiscriminados de artilharia não poupam nem hospitais, nem escolas, nem templos;
  • há casos frequentes de detenções arbitrárias e de tortura;
  • bloqueios impedem os mais necessitados de receber ajuda humanitária;
  • o emprego de crianças como soldados é prática comum;
  • os direitos das mulheres e das crianças são sistematicamente desobedecidos;
  • armas e munições de fragmentação, banidas mundialmente e produzidas no Brasil, nos Estados Unidos e no Reino Unido continuam sendo empregadas pela AS e pelas forças da Coalizão sob seu comando.

Todos os lados cometem abusos e violações dos direitos humanos, diz a Anistia Internacional (A.I.) que considera que no Iêmen há uma guerra esquecida pelo mundo dito civilizado. Textualmente a A.I. afirma: “Desde que começou o conflito um consórcio de países abasteceu a Coalizão liderada pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos com material militar de valor superior a 15 bilhões de dólares. Embora o principal receptor tenha sido a AS, estados ocidentais têm subministrado também aos EAU navios de guerra, aviões de combate, tanques, veículos encouraçados, armas, material de reposição e munições. Apesar dos abrumadores indícios de que tais armamentos estão sendo usados para cometer crimes de guerra e outras violações graves de direitos humanos, Estados Unidos, Reino Unido, França e outros países europeus seguem fornecendo-os aos países da Coalizão, vulnerando obrigações como as que estabelecem o Tratado sobre Comércio de Armas de âmbito global”.

Não é de hoje que a Anistia Internacional informa que artefatos de fragmentação – cluster munition – de fabricação brasileira, provavelmente fornecidos pela empresa Avibras de São José dos Campos (in: https://www.amnesty.nl/actueel/yemen-saudi-arabia-led-coalition-uses-banned-brazilian-cluster-munitions-on-residential-areas) à Coalizão liderada pela AS. A Anistia lembra que armas de fragmentação são vedadas por leis humanitárias internacionais sob qualquer circunstância por seu inimaginável custo e sofrimento causado às vítimas. Tais engenhos contém centenas de sub-munições que são lançadas no ambiente desde um avião ou por meio de foguetes de superfície e muitas vezes não explodem ao impacto, transformando-se em verdadeiras minas terrestres que aleijam ou matam pessoas por anos a fio.

Separatistas apoderam-se de Aden

Na 6a. feira 9 de agosto forças separatistas do Conselho de Transição do Sul tomaram a cidade de Aden entrando sem encontrar resistência no palácio presidencial de Maashiq que a essas alturas estava vazio. Também ocuparam as instalações militares situadas nos arredores e junto ao porto, aparentemente sem qualquer reação significativa por parte de Riad, onde continua residindo o presidente Hadi.

Na prática isso significa, por ora, o triunfo da proposta separatista do país e de imediato abre uma nova frente de batalha na já extremamente complexa situação do país. É uma guerra civil dentro da guerra civil, colocando em posições opostas os dois países mais ricos e mais envolvidos – Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A posição separatista fortalece a causa dos houthis que lutam por um Iêmen do Norte com Sanaa como capital. É possível que num desenvolvimento imediato do racha verificado em Aden, os sauditas lancem uma operação radical contra os EAU similar à que estão realizando contra os houtis, mas isso ocasionaria milhares de novas vítimas civis, além de que obrigaria os demais sete componentes da Coalizão a optarem entre dois lados que até agora são considerados como amigos.

(Iêmen do Sul e do Norte: de novo?)

“O conflito que sangra o Iêmen desde 2015 poderia solucionar-se com a restauração do modelo de dois Estados”, afirmou em entrevista à agência Sputnik o presidente da CTS, Aidaroos Quasim Zubaidi em visita recente a Moscou.

Uma última fotografia

A cada dia a realidade é menosprezada por atores que não se entendem. A seguir um resumo das notícias relevantes mais recentes:

  • sem barreiras, dos 440 mil casos de cólera, 203 mil atingem crianças;
  • o novo 1º Minisro britânico, Boris Johnson, apoia o envio de tropas ao Iêmen;
  • são 90 mil os combatentes dos EAU em solo iemenita;
  • A Alemanha e o Senado britânico aprovaram o bloqueio da venda de armas à AS;
  • Donald Trump vetou decisão conjunta das duas Casas do Congresso norte-americano que impediriam uma venda por bilhões de dólares de armas à AS e EAU.“The president’s shameful veto tramples over the will of the bipartisan, bicameral Congress and perpetuates his administration’s involvement in the horrific conflict in Yemen, which is a stain on the conscience of the world,” said Nancy Pelosi, the Democrat speaker of the House (o vergonhoso veto do presidente atropela a decisão do Congresso bicameral e perpetua o envolvimento de sua administração no horrível conflito do Iêmen, o qual é uma mancha na consciência do mundo, disse Nancy Pelosi a presidente da Câmara dos Representantes);
  • No início da atual intervenção, em 2015, a AS disse que a guerra duraria poucas semanas, mas já lá se foram 4 anos;
  • Áreas de controle: Houthis dominam 1/3 do país, ocupando Sanaa, Saada, Saleef, Hajjah, Amran – o governo de Hadi, antes de perder Aden, resiste em Taiz, Marib, Hudaydah e no deserto (restantes 2/3) -AQAP e EI têm território no sul, fazem ataques letais em Aden e enviam mísseis balísticos contra Riad;
  • São 67.650 civis mortos desde janeiro de 2016, no maior desastre humanitário global;
  • Apenas a metade das 3.500 unidades médicas seguem funcionando, estimando-se que 20 milhões de pessoas não têm acesso a atenção em saúde.

 

 

Iêmen, um país sem esperanças

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