Como extinguir uma raça humana (Atualizado em 7/2019)

No mercado central de Kashgar, ponto central na Rota da Seda entre a China e a Ásia Central, há dois mil anos mercadores uighures comerciam suas especiarias, da canela ao açafrão, cominho, gergelim e pimenta (foto de Fiona Reilly em www.seriouseats.com)

Paciência chinesa

Os chineses são teimosos e pacientes, parecendo dispor de todo o tempo do mundo para alcançar seus objetivos, mesmo quando envolvem uma missão impossível: borrar do mapa a raça e a cultura uighur. Dizem os sábios que se acabar com uma raça fosse fácil, as montanhas do Cáucaso não abrigariam cem delas. O fato é que quando Gengis Khan invadiu a China por volta de 1210, uighures já estavam no que hoje é Xinjiang há pelo menos quinhentos anos e ai permaneceram, aceitando o domínio mongol assim como o fizeram, antes e depois, sem nunca perderem a identidade, sob o império de persas, turcos. tibetanos, soviéticos e por fim chineses. O povo uighur é muçulmano sunita e adota o idioma turco altaico que é falado no interior da Ásia Central. Em tempos modernos chegaram a constituir por duas vezes a República Islâmica Turca do Turquistão Oriental (ou Uighuristão) em 1933 e entre 1940 e 1949, neste último caso já sob domínio soviético até que a região se rendeu sem oferecer resistência ao exército vermelho de Mao Tsé Tung. Então, 95% da população de Xinjiang era de uighures mas hoje, quase setenta anos passados e após a chegada de sucessivas levas de chineses da etnia predominante han, reduziu-se a não mais de 45%.

A Região Autônoma Uighur de Xinjiang é a maior província da China e ao mesmo tempo a menos povoada (1,66 milhão de km2 e 20 milhões de habitantes – do tamanho do Amazonas com a população de Minas Gerais), pois em seu território estão o imenso deserto de Taklimakán e a cadeia de montanhas de Tianshan. No seu extremo ocidental está a cidade de Kashgar, o ponto limítrofe entre a China e a Ásia Central, o coração da Rota da Seda. Uighures são famosos como excelentes cozinheiros e o colorido mercado de Kashgar (vide imagem) há dois séculos é um oásis para mercadores e viajantes com seus mil aromas. Restaurantes uighures proliferam na região atraindo uma clientela fiel que tem no arroz de cordeiro (shou zhuã fàn em mandarim) o ponto alto de uma culinária que ali pouco tem a ver com a tradicional cozinha chinesa.

56 etnias em um só país

A etnia han, que representa 92% da população do país, mantém uma relação de desconfiança ou de permanente atrito  com as 55 minorias que respondem pelos 8% restantes. Zhuangs, huis, manchus, tibetanos e uighures são os “povos” principais. Em Xinjiang, muitos anos de rejeição racial e de humilhações no dia a dia não raramente criam momentos de tensão e manifestações públicas que costumam ser duramente reprimidas. A etnia uighur, embora tenha gente pacata em sua quase totalidade, abriga grupos como o MITO – Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, classificado como terrorista pelo governo, pelos EUA e pela ONU. Pelo menos 114 deles aderiram ao Estado Islâmico para irem lutar na Síria e um comando uighur foi o responsável pelo recente ataque a bomba à Discoteca Rainha nas margens do Bósforo em Istambul no Ano Novo que deixou 39 mortos.

Para enfrentar tão complexo desafio, os teóricos do Partido Comunista Chinês – PCCh – formularam uma receita destinada expressamente a consumir a etnia uighur em seu próprio caldo. Tratava-se de substituir  décadas de contínua, mas moderada repressão da fé e dos costumes uighures que até então incluía o abandono econômico de Xinjiang. Além de destinar recursos bem maiores num projeto de desenvolvimento rápido da região (produz 1/3 do algodão chinês e possui as maiores reservas nacionais de petróleo e gás), uma política focada na eliminação progressiva da minoria uighur passou a ser colocada em prática, desde logo acusando-a por três tipos de crimes: extremismo, terrorismo e separatismo. Nada disso é reconhecido pelos uighures, que são essencialmente pacíficos, levando-os  a denunciar a ofensiva do PCCh como uma política de genocídio cultural e étnico aplicada no Turquestão Oriental.

Campos de ‘reeducação’ em Xinjiang

Trata-se de um modelo, segundo documento básico de orientação adotado pela direção local do partido, destinado a construir novos e melhores cidadãos chineses e para isso é preciso, referindo-se aos uighures, “quebrar sua linhagem (sua raça), quebrar suas raízes, quebrar suas conexões e, por fim, quebrar suas origens”. Na prática a receita tem pelo menos oito componentes relacionados entre si: a) nomeação como Secretário do Partido em Xinjiang de Chen Quangul, o homem forte que implantou políticas similares no Tibete; b) estruturação dos chamados “Centros de Reeducação” (CR), na verdade Campos de Concentração (as autoridades chinesas dizem que a adesão é voluntária, mas as cercas eletrificadas, a permanência por tempo indefinido e o rígido controle policial a desmentem) que já abrigam um milhão de uighures, selecionados a partir de grupos focais compostos pelos homens de nível educacional mais baixo, os mais pobres, praticantes da religião sunita, portadores de passaportes e na prática todos os homens em idade de serviço militar (na foto à esquerda estão uighures em uniforme azul detidos num Campo da Prefeitura de Holan em Xinjiang, conforme imagem de HRW de abril de 2017); c) perseguição religiosa sistemática, ao considerar o islamismo como uma “doença ideológica”, destruir mosteiros, confiscar livros do Corão, proibir o uso de vestimentas islâmicas, não autorizar e dissolver rituais de sepultamento tipicamente sunitas obrigando em seu lugar a cremação dos mortos conforme a tradição han (o número de crematórios tem aumentado muito em Xinjiang); d) policiamento intenso das comunidades uighures e controle individual sobre o uso de celulares e da internet; f) transferência de grande número de hans para Xinjiang em três “ondas” – a primeira em 2014 com 200 mil membros do Partido enviados para “visitar as pessoas, beneficiar as pessoas e conduzir os corações do povo” (Fang minqing, Hui misheng, Juminxin em mandarim), a segunda em 2016 com 110 mil funcionários públicos no programa “Unidos como uma família” (Jie dui renqin) colocando ‘parentes’ nas casas de famílias uighures cujos membros foram aprisionados ou mortos pela polícia, e uma terceira em 2017 que introduziu mais de um milhão de homens e mulheres hans para efetuarem ‘visitas’ de uma semana (durante vários meses) a lares de uighures que tiveram algum de seus membros levado para os Centros de Reeducação; g) anular a regra que permitia aos casais das minorias terem mais de um filho; h) isolar as crianças de suas famílias, impedindo que mantenham as tradições sunitas, ensinando-lhes mandarim e educando-as segundo os costumes han.

Caso a estratégia chinesa tenha sucesso, ainda restarão os uighures que vivem nas vizinhanças, no Uzbequistão, no Quirguistão e no Kazaquistão, terras natais de uzbeques, quirguizes e kasaques que no passado conseguiram escapar.

As desculpas do Regime (Atualização em julho de 2019)

Numa tentativa de reduzir a pressão internacional, o governo chinês promoveu, ao final de 2018, uma visita a Xinjiang com convidados selecionados junto a representações diplomáticas de doze países muçulmanos – Rússia, Casaquistão, Quinguistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Índia, Paquistão, Indonésia, Malásia, Afeganistão, Tailândia e Kuwait. “Xinjiang é um lugar aberto”, disse o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores Lu Kang, “mas os visitantes devem respeitar nossa soberania”. Não há notícia sobre a opinião formada pelos convidados, mas em julho de 2019 embaixadores de vinte países – entre os quais Austrália, Japão, França, Alemanha, Canadá, Reino Unido -, considerando que a China bloquearia qualquer resolução do Conselho de Segurança,  enviaram uma inédita ‘carta aberta’ ao Conselho e ao Alto Comissariado para Recursos Humanos da ONU, condenando o tratamento proporcionado aos uighures e a outras minorias em Xinjiang. Em resposta, o próprio chanceler declarou que a carta continha termos ‘rudes e inaceitáveis’.
Já o governador local, Shohrat Zakir, depois de negar-se a informar quantos uighures já passaram pelos Centros de Reeducação, por ele classificados como ações de contra-terrorismo, informou que ‘muitos’ uighures com formação superior (sobre os demais, que constituem a quase totalidade dos internados, não deu notícias) já deixaram os Centros, reintegrando-se à sociedade na qual teriam encontrado empregos com boa remuneração. Acerca das práticas religiosas, as autoridades indicaram que “as pessoas podem pedir para ir até suas residências durante o período de estudos e então podem adotá-las”, muito embora não se saiba que isto tenha ocorrido.
As peças de propaganda divulgadas ou as filmagens autorizadas mostram obedientes uighures portando cartazes – ‘Construa uma bela Xinjiang. Realize o somnho chinês’ – e cantando: ‘Se você é feliz, você sabe disso…’. Não há concordância com tais pontos de vista e atitudes formais, expressados sempre sob estrita supervisão dos guardas, dos poucos que  conseguiram fugir dos Centros e os consideram como ‘prisões nas montanhas’. Até o governo turco, costumeiro aliado dos chineses, tem reclamado por achar que é sua obrigação dar alguma proteção a praticantes da fé muçulmana e recentemente enviou uma equipe de observadores a Xinjiang, cujo informe não foi divulgado. (VGP)

 

 

 

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