Zimbabwe enfrenta crise elétrica e seus fantasmas

Corria o ano de 1980 e o professor Robert Mugabe, vibrante na juventude de suas 56 primaveras, caminhava firme à frente dos seguidores do Zanu-PF, o partido revolucionário da raça negra. A massa repetia em uníssono, como num ensaio de barítonos: Hondo! Hondo! Hondo! (Guerra). Um grupo ao fundo começou a fazer uma nova voz, fininha em tom de contratenor e às vezes em falsete para formar o que parecia um coro afinado ao qual se juntavam as mulheres com seus tons de soprano gritando: Zim! Zim! Zim!, clamando pelo novo país, o Zimbabwe, que já viria no lugar da racista Rodésia do Norte*.

Desde então lá se foram 37 anos com Mugabe no poder até que, sem mais sequer poder caminhar, teve de ser substituído e como seu mais antigo rival, Morgan Tsvangirai, afinal saíra de cena ao morrer em fevereiro de 2018, o partido indicou Emerson Mnangagwa (“o Crocodilo”, 75 anos) para a presidência. A essas alturas já há quatro anos o país se via às voltas com a deflação, algo absolutamente surpreendente considerando a história econômica recente que começou sorridente, com o dólar zimbabuano valendo mais do que o dólar norte-americano. Desde que, quase ao final dos anos 90, as terras dos brancos foram transferidas para os negros que não tinham nem conhecimento nem experiência em dirigir as fazendas de fumo. A economia afundou, gestando um período de hiperinflação em cujo auge (novembro de 2008) a inflação chegou a 80 bilhões % ao mês. Notas de 100 bilhões de dólares zimbabuanos foram impressas, mas logo a moeda nacional saiu de circulação para dar lugar a uma cesta de moedas internacionais. Diante do caos, aos poucos predominou o dólar dos EUA.

O apoio da China e dos países vizinhos do sul da África terminou por reconduzir o Zimbabwe a algum padrão de normalidade financeira, situação que agora volta a ficar comprometida devido à crise energética originada pela redução do fluxo de água ao lago Kariba e à sua hidroelétrica no rio Zambezi e, segundo especialistas, ao envelhecimento dos sistemas sustentados pelas minas de carvão e, enfim, a décadas de deslavada corrupção. Ao mesmo tempo, as autoridades econômicas resolveram reintroduzir uma moeda nacional no lugar do dólar, mesmo avisadas de que não seria o momento adequado devido à estagnação da produção e do desemprego massivo. A taxa inflacionária voltou a explodir atingindo 175% ao ano trazendo de volta o fantasma da hiperinflação que, muito viva nas piores lembranças do povo,  já parece inevitável.  (VGP)

Agradecimento de Mnangagwa por sua vitória eleitoral

*. Do texto original em: “ZIM!: Uma aventura no Sul da África” – Vitor Gomes Pinto – Ed. Conex. São Paulo, 2006. 365p.

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