Vinhos a granel: a nova onda

Consolidada durante os últimos anos a moda agora no vasto mundo dos vinhos, sempre em busca de novidades para diminuir seus custos, é o transporte de grandes quantidades de líquido a granel para engarrafamento no destino.

Tanto a novidade pegou que já cerca de 40% de todo o vinho exportado mundo afora acontece ou nos clássicos tanques ISO usados para transporte de líquidos (capacidade para 13 mil garrafas) ou em tanques flexíveis, os flexitanks que levam até o equivalente a 32 mil garrafas, feitos de material plástico (polietileno) descartável e colocados em um depósito estandar de 20 pés (6 metros) para uso único.

Flexitank para transporte do equivalente a 32 mil garrafas de vinho

 

 

 

Garrafas de tinto empilhadas horizontalmente para envelhecimento do vinho (Embrapa Uva e Vinho: Catálogo Semico – Groupe Alser)

Vinho ‘de origem’ x Vinho a granel (Bulk wine)

Vinhos de qualidade (finos ou premium como são conhecidos no setor) são produzidos com previsão de algum tempo de envelhecimento final em garrafa. Alguns continuam a melhorar continuamente para serem bebidos vários anos depois. Um Châteaux Petrus da safra da vitória – 1945 – continua imbatível, mas a safra de 1955 e, mais modernamente, a de 1995, são consideradas como um sonho para os adeptos de bons vinhos que costumam aguardar pelo menos alguns poucos anos antes de terem a coragem de remover a rolha naquelas garrafas cujo conteúdo é feito para melhorar com o tempo.

O departamento dedicado a uvas e vinhos da Embrapa recomenda que, vencidas as etapas de adega para fermentação, clarificação, estabilização e amadurecimento, os vinhos são acondicionados em garrafas numa área de envelhecimento onde são empilhadas horizontalmente (vide imagem) para que a rolha se mantenha úmida e para que ocorram as transformações físico-químicas típicas desse período de repouso (que pode ser de poucos dias a alguns anos): esterificações dos ácidos fixos e voláteis e precipitação da matéria corante. O resultado é um produto mais agradável e equilibrado. A área apropriada deve ser bem higienizada, ventilada, com pouca incidência de luz, umidade moderada, temperatura baixa e constante. Daí, segue para a comercialização. Na garrafa, costumeiramente de cor verde, consta no contra-rótulo a observação: “engarrafado na origem”, ou seja, pelo produtor. Sabendo o ano da safra, que consta no rótulo principal, o comprador pode decidir melhor sobre o produto que está adquirindo.

No processo de transporte do vinho a granel, ao invés de ser engarrafado o líquido é transferido para um flexitank (operação rápida e toda mecanizada, feita em geral por um só homem) que, no container apropriado, segue viagem por navio ou caminhão. O engarrafamento, bem como a colocação da rolha e dos rótulos, só se concretizam no local de entrega da mercadoria; tarefas que cabem à empresa importadora ou às grandes redes de supermercados que se encarregam da distribuição nas prateleiras para venda ao consumidor. No Reino Unido por lei é obrigatório que conste (no contra-rótulo, atrás da garrafa, mas geralmente em letras bem pequenas) informação sobre onde o vinho foi de fato engarrafado.

O que está em jogo realmente não é a qualidade dos vinhos e sim o dinheiro envolvido nas etapas intermediárias entre a produção e o local de consumo. No caso, o problema maior é o transporte das garrafas por seu peso e fragilidade, a exigirem cuidados especiais. Em texto recente sobre a invasão de bulk wines no Reino Unido, o The Telegraph pergunta o porque de estarmos engarrafando vinhos estrangeiros na Inglaterra, comentando que ‘o transporte a granel em navios pode tornar o vinho insípido, tornando-o um pouco chato ao paladar’. No lado oposto da mesa de discussão, os hoje milionários donos do negócio se defendem, dizendo que ao não levar um material de extrema fragilidade como as garrafas de vinho e suas etiquetas de papel, reduz-se consideravelmente o risco de danos, rompimentos e manchas na mercadoria. Também argumentam que carregar garrafas de um lado a outro do mundo é um risco e um gasto desnecessários, que flexitanks são bem mais estáveis; que a qualidade dos vinhos é a mesma desde o ponto de partida até o de chegada e, afinal, que todo vinho no começo só existe a granel.

Quanto à percepção claramente negativa dos consumidores acerca dos bulked wines, pois seu paladar exige vinhos premium engarrafados na origem, a especialista britânica Andy Hartley em seu Informe Final para o projeto Glass Rite Wine lembrava que esta (granel) não é uma opção para vinhos que são produzidos ou vendidos em pequenos volumes. Já para vinhos baratos originados em grandes quantidades há algum consenso de que ‘abaixo do limite crítico dos 6 dólares por garrafa, o vinho trazido a granel pode até ser melhor ou pelo menos mais estável do que aquele que faz a jornada no vidro’.

O domínio dos vinhos a granel

Na guerra em que se transformou um comércio que movimenta 28 bilhões de litros a cada ano, vale tudo pelo lucro e, na prática, pouco importa aos ávidos transportadores quem fez e como o vinho foi feito. Produtores que cuidam das parreiras, colhem as uvas com todo cuidado e depois capricham nos detalhes do trabalho na adega, choram ao ver o seu produto valendo três reais o litro (R$ 3,45 ao câmbio atual, para sermos mais precisos – vide média geral na tabela) ao ser jogado  dentro de umas bolsas de plástico para, mais adiante, ser oferecido já sem qualquer identificação de seu trabalho, a bebedores só interessados em pagar cada vez menos por qualquer coisa que lhes é oferecido em coloridas e estranhas garrafas sem indicação do terroir onde o vinho foi desenvolvido ou do processo de elaboração. Apesar disso, as engrenagens de uma máquina cada vez mais sofisticada de marketing está em pleno desenvolvimento e se expandindo a olhos vistos.

A Espanha, 3a. maior produtora de vinhos do mundo, lidera com folga o mercado de exportação de vinhos a granel, seguida por Itália e Austrália, num mercado onde Argentina e Chile têm crescente relevância. Segundo a tabela a seguir, três países europeus – Alemanha, Reino Unido e França – são os principais destinos onde aportam os flexitanks inflados de vinhos comuns. Os dez maiores portos de recepção absorvem nada menos do que 2,7 bilhões de litros de vinho a granel a cada ano, sendo que os cinco primeiros (os três mais Estados Unidos e China) são responsáveis por metade do consumo global. Não é de estranhar que em Tomelloso, na província de Castilla-La Mancha onde se produz metade do vinho espanhol, está a maior cooperativa vinícola europeia – Vírgen de las Viñas – de onde 90% do que é produzido sai a granel (3/4 rumo à França, Alemanha, Portugal e Itália).

Organizam-se amostras e competições. Supervisionada pela OIV – Organização Internacional de Vinhos e Vinhas – a  International Bulk Wine Competition prevista para 2 e 3 de dezembro próximo em Amsterdam seleciona os vencedores depois que eles provam vinhos extraídos de um grupo de tanques de pelo menos 10 mil litros de vinho cada. Nos dois últimos dias de maio deste ano a Asia Biggest Bulk Wine Fair – Maior Feira de Vinho a Granel da Ásia – aconteceu em Yantai na China reunindo uma multidão de empresários e comerciantes do setor.

“Intermediários, vendedores, de qualquer tamanho, afinal podem ter seus próprios produtos, Seja você um varejista, um restaurante, um lojista, faça seus próprios vinhos e coloque neles o rótulo que lhe aprouver. Podem, p.ex., criar super-varietais feitos de combinações de pinot grigio, malbec e até sauvignon blanc se lhe aprouver e seus fregueses aceitarem”, reza o site americano do The Buy Buyer (the-buyer.net). A conhecida empresa californiana E&Gallo Winery oferece vinhos para uma clientela jovem e para isso criou sua própria marca – Apothic – com várias mesclas de bulk wines – p.ex. pinot noir, merlot e petit sirah – com as quais diz que está ‘inovando por meio de novos sabores’.

Enfim, nesse clima de zorra total no qual conceitos centenários podem ser desobedecidos impunemente, que tal você construir suas próprias misturas? Na espanhola Bodega Urbana, em Bilbao, estão disponíveis dezenas de enormes depósitos metálicos que armazenam ignotos vinhos a granel identificados pela uva: alvarinho, cabernet sauvignon, tempranillo, etc. Uma garrafa sai a 5 euros, mas é possível colocar a taça nas torneiras e ficar experimentando uma mistura geral. O proprietário, Pepe Hidalgo, conta como nasceu a ideia: “Beber vinho tornou-se algo cada vez mais elitista. Por aqui a maioria quer apenas desfrutar o momento com uma taça nas mãos e, assim, decidimos praticar uma venda direta, mais acessível, sem marear tanto, de uma bebida que seja divertida para todos os públicos. Temos também vinhos em garrafas provenientes de produtores pequenos sem acesso aos supermercados que elaboram vinhos diferentes”.

Na prática, se você consome ou compra vinho, digamos com preço inferior a 8 dólares numa loja ou num mercado na Europa, ou o dobro disso numa mesa de restaurante, é praticamente certo que terá em mãos e na garganta um bulk wine trazido num isotank ou num flexitank.

Em paralelo, floresce uma sub-indústria de garrafas nos países receptores, já nas mãos de gigantes como a Accolade, engarrafadora com matriz australiana e fábricas na Califórnia ou em Bristol que atendem demandas de britânicos, alemães, chineses. Ela já tem suas próprias marcas de vinhos, mas também engarrafa para concorrentes como as conhecidas Lindeman’s e Beringer. Certos varejistas de maior porte começam a estruturar suas engarrafadoras. No caso da Jacob’s Creek, possivelmente a maior produtora de vinhos da Austrália cuja fama é de que ninguém faz um chardonnay melhor do que ela, para evitar falsificações decidiu engarrafar seus vinhos de alta produção na Inglaterra, reservando só os de categoria premium para transporte oceânico nas garrafas.

O problema do excesso de garrafas em muitos países é que não são recicladas e se tornam um incômodo e perigoso componente dos lixões suburbanos. Marginalmente transformaram-se em material de enchimento subterrâneo em obras de construção de estradas, como sucede no Reino Unido.

 

Dez maiores importadores de vinhos granel (volumes em milhões de litros e preços em dólares por litro) em 2018 

PAÍS

VOLUME IMPORTADO

VALOR POR LITRO

Alemanha

834,3

0.82

Reino Unido

515,5

1.31

França

345,6

1.13

EUA

255,7

1.03

China

178,8

0.88

Itália

158,4

0.62

Portugal

129,6

0.70

Rússia

120,9

0.66

Canadá

109,7

0.85

Rep. Checa

 73,2

0.80

TOTAL

2721,7

0.92

Vinhos engarrafados no Reino Unido após importação a granel, com rótulos inventados pelo importador (Socialvigneron.com/2017)
 Fonte: OIVV, 2019

E no Brasil?

O Brasil, com 2,8% da população mundial, produz cerca de 330 milhões de litros de vinho ao ano, ou 0,12% dos 27,9 bilhões de litros que ano após ano lotam as adegas e os depósitos desde a Patagônia até a Sibéria e os confins da China.
Com um consumo inferior a 2 litros por habitante (computando a faixa de 14 anos e mais que é 79,5% do total de brasileiros), o país não tem escala para participar do mercado de vinhos a granel e, assim, nada importa nesta categoria, restringindo-se forçosamente a comprar a bebida em garrafas vindas diretamente da origem. Em consequência, pagamos ainda mais caro pelo que bebemos.
No terreno das compensações, livramo-nos da imensa carga de bulk wines à qual consumidores europeus estão sujeitos. Se já achamos que, por sermos um povo pobre, pagamos muito por vinhos inferiores ou muitíssimo por vinhos superiores vindos de fora (mas, de qualquer forma, com identificação de origem, terroir e produtor), imaginem se ficarmos nas garras de importadores inescrupulosos dispostos a vender-nos gatos por lebres acondicionados naqueles imensos depósitos de plástico que chegariam pelos navios?
Ocorre que, mesmo sendo modesta, a produção nacional não tem escoamento no mercado interno, gerando um assustador excesso que não teria para onde ir caso não existisse a tábua de salvação representada pela exportação em massa de vinho a granel para a Rússia, um mercado afeito a bebidas de qualidade discutível desde que de baixo preço. Por esta via, o Brasil escoa até 40% do vinho que exporta ao mísero preço de 0,40 dólares o litro. Na média, considerando o que é engarrafad e o que sai a granel, o nosso país ‘fatura’ entre 2 e  3 dólares por litro de vinho exportado. É menos ruim do que ser obrigado a descartar o superavit, mas os saudosistas e os que insistem em apreciar bons e razoavelmente confiáveis vinhos, lamentam as armadilhas que a modernidade lhes prepara. (VGP)

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