Vinhos brasileiros e o Acordo com a UE

O Acordo Mercosul – União Europeia

Anunciado em Tóquio durante a Cúpula do G20 como a salvação da pátria para o setor primário exportador nacional, o Acordo Mercosul & União Europeia que há vinte anos vinha sendo  negociado com mínimo entusiasmo pelos países, prevê a redução gradativa do imposto de importação para os vinhos europeus. Como o imposto atual é de 20%, espera-se que uma parte disso vá ser repassado para o preço final, dando finalmente algum alívio no bolso dos consumidores que pagam, por um vinho que num supermercado espanhol custa 1 euro por aqui é comercializado a 30 reais. Observando que mais da metade do preço de uma garrrafa se destina a alimentar os diversos governos (federal, estaduais, municipais), Luís Lorenzetti, dono de vinícola no interior de São Paulo, com razão diz que nós bebemos imposto.

Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia compõem o Mercosul. A Venezuela está suspensa do Bloco.

Especialistas na área de comercialização não se arriscam em dizer qual será de fato a repercussão do Acordo, mas Rico Azeredo da Feira Pró Vino imagina uma redução no preço do vinho entre 10% e 15%. A prática no setor tem sido de não repassar vantagens no atacado para os consumidores e é provável que essa tática se repita, mesmo porque o imposto só vai zerar gradativamente, ao longo de um largo período de até doze anos. Ademais, o Acordo só terá uma redação definitiva depois de ser aprovado pelos Parlamentos dos países que compõem os dois blocos.

Diante da gritaria dos produtores gaúchos, o governo brasileiro anunciou um Fundo de R$ 150 milhões para “modernização da cadeia do vinho”, mas não explicou de onde viria o dinheiro, nem quando e menos ainda o que entende por “modernização”. A hipótese de redução dos altos impostos que incidem sobre a produção e comercialização, assim como a mudança de categoria do vinho para ‘suplemento alimentar” (como acontece em alguns países) o que reduziria a tributação, são medidas de maior eficácia que não parecem figurar com seriedade no radar das autoridades econômicas, interessadas exclusivamente em aumentar a arrecadação. De qualquer maneira, tratam-se de hipóteses para fazer frente à política de subsídios que favorece o setor na Europa, onde os governos destinam fortes recursos que cobrem seguro de colheitas, promoção dos produtos em outros mercados, reestruturação dos vinhedos, apoio para resistir nos anos de safras ruins.

Competitividade dos vinhos nacionais

A reduzida capacidade dos vinhos brasileiros em competir com seus vizinhos do Mercosul é examinada pelo Dr. Juan Verdesio, formado em Agronomia e Orientação Florestal, professor da UNB e vice-presidente da ABS/Brasília (Associação de Sommeliers), em entrevista para Mundo Século XXI.

 “O vinho nacional de uvas viníferas não cresce em volume de produção e se mantém sempre em pífios números por razões outras diferentes da concorrência. Hoje já sofrem tanta concorrência e são tão pouco competitivos em preço mesmo tendo melhorado a sua qualidade que a cada tanto o excesso de estoque é desovado na Rússia a granel.
No meu curso de vitivinicultura na UnB compilei uma boa quantidade de dados como para concluir o que segue.
As principais razões do baixo desempenho da industria nacional são:
 a) custo altíssimo de produção se comparado aos concorrentes principais (Argentina e Chile), da ordem de 10 vezes em certas linhas!!!!. Produzir um vinho simples de vinífera no Brasil custa o mesmo que produzir um premium na Argentina ou Chile;
b) idem com a carga impositiva brasileira ao nível do produtor e na comecialização. A concorrência em condições igualitárias é impossível;
c) baixa economia de escala. O Brasil tem sido incapaz de produzir um vinho básico de viníferas em quantidade suficiente como para gerar economias de escala ao nível da empresa e assim pagar os custos dos vinhos premium que dão pouca renda mas geram prestígio;
d) produção muito concentrada no Rio Grande do Sul com um nacionalismo local que não favorece o fomento da produção em outras regiões. Ex: a IBRAVIN que deveria defender e promover toda a industria nacional só é ocupada na direção por gaúchos e nem sequer coleta estatísticas que não sejam do RS. Deveria ser chamada de IBRAVINRS.
Já se falou ontem na imprensa de apoios governamentais à industria nacional. A ver! Os gaúchos querem protecionismo e os outros não têm força
Falta um grande programa como fez o Uruguai nos anos 80 de reconversão baseado em apoio tecnológico, financeiro e empresarial além de redução de impostos para abrir mais áreas e investir em volume com qualidade. Um programa que sobreviva a cinco periodos de governo para que dê resultado, como aconteceu no país vizinho com o vinho, a celulose e a produção de oliveiras uruguaias hoje exportando muito.”

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