Guatemala: velhas e novas crises

(inclui observações e acréscimos feitos diretamente da capital da Guatemala pelo Prof. Otto Menendez, professor jubilado da Universidad de San Carlos de Guatemala, em 22/6/2019).

Minhas recordações da Guatemala são de um doce encantamento. Terra dos maias, pérola da América Central, onde país mais belo não há.  Estive na Sierra Madre, sudeste do país, em Atitlán que o naturalista alemão Alexander von Humboldt considerou o mais bonito lago do mundo. Um pouco mais e se chega ao coração da cultura maia em Quetzaltenango e Chimaltenango. No fundo todos os guatemaltecos possuem raízes indígenas, mas os estatísticos dizem que, adicionando-se à maioria pertencente aos ramos maias quiché e kazchikeles os xincas e garifunas (afrodescendentes), pelo menos a metade da população o é. Os demais se consideram ‘ladinos-mestiços’. Além do espanhol, há 23 idiomas reconhecidos. No total a população chega a 16 milhões de pessoas, numa área de 109 mil km2, aproximadamente o dobro do estado da Paraíba. Os caminhos até a fronteira com os Estados Unidos (onde mais se consomem drogas no planeta) constituem uma rota importante em especial para a cocaína vinda dos Andes, o que em boa parte condiciona a vida política e econômica guatemalteca e dos demais países centro-americanos.

As eleições de 2019

O 1º turno, em 16 de junho, reuniu dezenove candidatos, terminando por colocar nos dois primeiros postos a ex-primeira dama Sandra Torres do Partido Social Democrata com 25,7% dos votos e o médico Alejandro Giammattei do Partido conservador Vamos com menos de 14%. Em seus calcanhares figuraram Edouard Mulet do Partido Humanista com 11,1% e Thelma Cabrera do MLP (Movimento para a Liberação dos Povos, defende os direitos dos indígenas) com 10,4%. A líder está na sua 3a. tentativa, depois de ser impedida judicialmente em 2009 porque seu divórcio com o ex-presidente era muito recente (há a suspeita de que foi um arranjo do casal para que ela pudesse concorrer) e, em 2014, ser derrotada por Jimmy Morales. Ela foi acusada de utilizar 2,5 milhões de dólares recebidos de forma ilícita, mas uma débil fiscal geral, a licenciada Consuelo Porras, deixou o processo dormindo na sua gaveta e só apresentou as acusações contra Sandra depois que ela oficializou a candidatura e ganhou imunidade. Giammattei, filho de dentista, tem o suporte dos grupos de direita e de ultradireita e de militares ligados ao atual presidente e ao seu predecessor (Pérez Molina que está na cadeia). O candidato do grupo político de Jimmy Morales, pertencente à ala militar mais sangrenta, ficou em último lugar no pleito.

Sandra Torres e Giammattei no 2º turno guatemalteco em 2019, na dependência da recontagem de votos.

Contudo, quatro dias depois do pleito e da divulgação dos resultados, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu fazer uma recontagem dos votos devido a supostos erros, o que deixa em suspenso todo o processo e o 2º turno. Mesmo estando em 1º lugar, Sandra Torres não é a favorita da população, pois tem a maior taxa de rejeição entre todos os candidatos.

Recente Guatemala: guerra civil e paz incerta

País com uma história riquíssima, uma beleza geográfica e uma diversidade étnica admiráveis, foi nas últimas seis décadas que o país enfrentou seus maiores desafios. A guerra civil de fato iniciada em 1960 só foi encerrada, pelo menos formalmente, com os Acordos de Paz de 1996, depois de deixar um passivo não inferior a 150 mil mortos e 40 mil desaparecidos. Na verdade, somente na decada dos anos 1980. reconhecida como o genocídio guatemalteco, ocorreram 669 massacres com mais de 200 mil vítimas (atribuídas ao general Ríos Montt, então o presidente de facto). No auge, o governo militar contou com o apoio dos Estados Unidos e da ditadura argentina. Então, em 96 veio a anistia geral para guerrilheiros e militares que cometeram abusos contra a população.

Segundo diagnóstico  das Nações Unidas, o desmantelamento das estruturas estatais que exerciam a violência durante o conflito armado criou um vazio que o Estado nunca pode substituir, na prática beneficiando grupos paralelos de poder e do crime organizado. A escolha de Rigoberta Menchú para o Nobel da Paz de 1992 marcou essa época; mais do que uma homenagem à cultura maia-quiché, representou o reconhecimento externo de sua luta de resistência à opressão e de defesa dos direitos humanos dos povos indígenas de toda a América Latina.

Os exemplos de governos caóticos e corruptos, sob o manto de uma democracia aparente, passaram a suceder-se e, pouco a pouco, surgiram tentativas da Justiça para responsabilizar os culpados. Ríos Montt, acusado de crimes de lesa humanidade por matar a 1171 indígenas ixiles durante seu regime foi condenado a 80 anos de cárcere em maio de 2013. Em setembro de 2015 o ex-presidente recém demitido Otto Pérez Molina foi detido junto com a vice-presidente Roxana Beldetti e grande parte de seus ministros por corrupção.

Cansado dos políticos tradicionais o povo elegeu um comediante em 2014: Jimmy Morales da Frente de Convergência Nacional (FCN-Nación) fundada por militares direitistas da reserva. Na juventude aluno de teologia, sem concluir o curso, Jimmy apresentava na TV o show cômico Moralejas com seu irmão Sammy formando a dupla Nito y Nieto, retratando um presidente fictício. Na realidade fez um governo que, repetindo seus antecessores, contribuiu para o empobrecimento do país. Um ano antes, diante da iminência de tornar-se um estado falido, uma solução aparentemente mágica foi implementada, com a criação da Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala – CICIG – com apoio das Nações Unidas e aprovação pelo Congresso. Qual uma ‘Lava-Jato’ e confiante na sua blindagem internacional, sob a coordenação do juiz colombiano Iván Velasquez, a CICIG tratou de ir fundo em sua missão e em mais de cem processos conseguiu deter e condenar figuras de realce na política e na administração do país.

O presidente Morales que no início dera integral apoio às investigações, logo se deu conta de que seu grupo e ele próprio estavam ameaçados. Agora, sua paciência chegou ao limite com a condenação de seu filho e de um irmão por emissão de faturas falsas e apropriação indébita de recursos públicos. A CICIG, por fim, pediu o fim da imunidade do próprio presidente Morales que reagiu expulsando toda a Comissão do país por considerá-la “uma ameaça à paz, por exceder suas funções, amedrontar e semear o terror”. Iván Velasquez já foi embora, mas promete voltar e diz que “enfrentou uma rede de ex-militares, deputados e empresários corruptos”.  O prazo final para a retirada completa dos membros da Comissão é nos primeiros dias de setembro, quando já se saberá quem é o/a nova presidente, mas dificilmente a decisão do comediante Jimmy será revertida por políticos que têm tudo a perder com a volta da CICIG. A Corte Suprema, a ONU e toda a oposição pediram o retorno da ‘Lava-Jato’ local, protestando frente ao ‘golpe autoritário’ do presidente.

Um exame mais duro dos problemas atuais indica que a Guatemala segue tomada pelo narcotráfico e é um dos países centro-americanos com maiores desigualdades na distribuição da renda, enfrentando agudos desafios para controlar as bandas de criminosos que atuam também em vizinhos como El Salvador e Nicarágua. Ainda que não seja no curto prazo, os analistas consideram que para reverter esta complexa situação, a Guatemala haverá de voltar-se para suas mais profundas tradições maias pedindo ajuda para seu povo onde estão os verdadeiros guatemaltecos. (VGP)

 

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