Três nações à deriva (com Atualização)

Turquia pertence a Erdogan?

A luta por regimes democráticos no leste europeu e em terras otomanas continua sendo um desafio que só loucos teimam em enfrentar. As “eleições” na Turquia, no Cazaquistão e na Moldávia são exemplos acabados de teimosas resistências de povos já cansados de longos anos sob governos ditatoriais ou instáveis que se negam a ir embora.

Recep Tayip Erdogan está no poder há 17 anos e ainda considera um desaforo quererem tirá-lo da cadeira presidencial. Seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento – PJD – que ganhou todas as eleições e plebiscitos desde 2002, agora paga o preço pela perseguição sistemática aos inimigos do presidente e aos curdos cujo resultado é uma crescente inflação (20% no ano passado) e  a preocupante desvalorização da moeda nacional, a lira turca. As votações para as prefeituras do último domingo de março foram favoráveis ao PJD nas cidades menores e no total nacional, mas não nas três maiores cidades – Izmir (Esmirna em português), a capital Ancara e Istambul – que em conjunto respondem por 1/3 da população do país. Tudo é aceitável, um “acidente de percurso” para Erdogan, menos perder na sua cidade, em Istambul onde começou a carreira política.

Constantinopla, na antiguidade Bizâncio e agora Istambul, por onze séculos a capital do Império Romano no Oriente e, logo, por mais quatrocentos anos, a capital do Império Otomano; protegida por uma magnífica baia, o Chifre Dourado, tinha 1 milhão de habitantes em 1914 e atualmente tem 15 milhões. É onde, na prática, se decide o presente e o futuro da Turquia. Ekrem Imagoglu do Partido Popular Republicano – PPR -, de oposição, derrotou o candidato do PJD, o ex-1º Ministro Binali Yildirim por mínima diferença: 48.8% x 48,5%. Contados e recontados os votos e empossado Ekrem, eis que o Supremo Conselho Eleitoral do país, inteiramente nomeado por Erdogan, não se deu por satisfeito e num golpe inesperado decidiu anular a votação, marcando novo pleito para o dia 23 deste mês de junho. Depois de um primeiro momento de espanto e de revolta, todas as forças oposicionistas decidiram apoiar a Imagoglu, mas as chances de manipulação dos resultados são concretas e possivelmente inevitáveis. O Parlamento Europeu considerou que a anulação pode acabar com a já pouca credibilidade dos processos eleitorais na Turquia e a Ministra de Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, declarou que “a decisão não é transparente e incompreensível para nós”.

O presidente, que cada vez mais age como um ditador e é capaz de tudo para manter-se no poder, em 15 de julho de 2016 aplicou um autogolpe, forjando uma tentativa militar supostamente para derrubá-lo por iniciativa de seu odiado inimigo Fetullah Gulen que há anos vive nos EUA, de onde coordena o movimento Hizmet. Erdogan estava convenientemente de férias com a familia numa praia russa e aproveitou a ocasião para promover o mais radical expurgo dos tempos modernos nos quadros administrativos federais, nas Universidades, no Judiciário e nas Forças Armadas: 77 mil professores, oficiais, juízes e funcionários foram presos, além de 150 mil demitidos. Não satisfeito em amordaçar a oposição no país, Erdogan tem insistentemente pedido a países para onde simpatizantes do movimento – que ele afirma ser terrorista – conseguiram escapar, como o Brasil, que extraditem os imigrantes turcos a fim de que possam ser julgados (e muito provavelmente mortos nas terríveis prisões nacionais). Em artigo escrito para o Estado de São Paulo (publicado na edição de 3 de junho último), o clérigo muçulmano Fettulah Gulen – líder do Hizmet e reconhecido como moderado – afirma: “confio que o governo brasileiro enviará uma clara mensagem a Erdogan de que os esforços para estender sua caça às bruxas para o mundo não são aceitáveis”.

Cazaquistão, Turquia e Moldávia: norte da Europa e Oriente Médio

Cazaques não conseguem acordar

Com o desmanche da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, em 1991, o Cazaquistão foi um dos territórios a ganhar a própria independência e, a exemplo de muitos outros, escolheu um líder perfeitamente compatível com a velha ordem para assegurar que mudanças radicais não ocorreriam. O caminho mais natural foi o da escolha de Nursultan Nazarbayev que desde 1989 já era o Secretário-Geral do Partido Comunista cazaque, empossando-o como presidente da nova república. País rico em função de suas imensas reservas de petróleo e gás, caiu nas graças do simpático Norsultan que sem maiores percalços ficou no cargo o tempo que quis, ou seja, até 19 de março de 2019 quando decidiu renunciar, aparentemente com a nobre intenção de permitir ao seu país uma liderança mais jovem. Não havia necessidade disso, visto que nas últimas “eleições” realizadas em 2015 Nazarbayev que está com 78 anos de idade foi reeleito para novo mandato de 5 anos com 97,7% dos votos. O movimento, interpretado por todos como uma tática política para que tudo possa continuar da mesma forma, foi acertado com Vladimir Putin, escolhendo-se Kassym-Jumart Tokayev como um sucessor de absoluta confiança, já provado por ter exercido recentemente as funções de 1º Ministro e Ministro das Relações Exteriores, além de ser diplomata de carreira e falar com fluência pelo menos cinco idiomas.

Especula-se que a verdadeira intenção de Nazarbayev (que permanece no Conselho e no comando das Forças Armadas) é de emplacar na presidência sua filha mais velha, Dariga Nazarbayeva que hoje é senadora, a partir de abril de 2020, quando deve começar novo período presidencial. Contudo, algo pode ter mudado. Na eleição pró-forma que elegeu Tokayev (65 anos), ele obteve “apenas” 70% dos votos derrotando a seis candidatos opositores, dos quais o 2º colocado Amirzhan Kosanov recebeu 15%.

Nas ruas da nova capital Nur-Sultan (nome que homenageia o presidente renunciante) aconteceram protestos populares, logo reprimidos exemplarmente pelas forças de segurança. Até março último a capital ainda era Almaty, o nome atual de Alma-Ata, a cidade que sediou a mais famosa das conferências mundiais realizadas pela OMS (em 1978) por ter definido a “Saúde para Todos” como o grande objetivo a ser alcançado por meio da estratécia da Atenção Primária em Saúde. Agora, nas ruas, o povo cantou uma velha canção de 1909, tempo do domínio colonial russo: “Acorda Cazaque! Pensa, Cazaque! Vive, Cazaque! Nós somos uma nação que esqueceu sua liberdade”. Nas palavras do ator Anuar Nurpfisov, falando para o The Guardian, “esta geração está cansada de viver sob a liderança de pessoas que cresceram na União Soviética”.

O maior roubo do século

Grandalhões, desengonçados, de longe identificáveis, encontrei os moldavos em Lisboa, onde os taxistas locais reclamavam de que eles estariam lhes tirando os empregos como mão de obra mais barata. Com o acordo de associação firmado com a União Europeia (UE) eles ganharam acesso, sem visa, ao “espaço Schengen” e saíram a andar pelo velho mundo. País pequeno (do tamanho de Porto Velho, a capital de Rondônia) espremido entre Romênia e Ucrânia e o mais pobre da Europa, com 4,3 milhões de habitantes a Moldávia – vide descrição atual pelo vídeo neste site – não consegue sair do caos econômico em que foi jogada em novembro de 2014 quando um bilhão de dólares, o equivalente a 8% de todo o PIB nacional, desapareceu sem deixar rastos dos caixas dos três maiores bancos do país em Chisinau, a capital – Unibanco, Banca Sociala e Banca de Economi. “É um mistério”, concluiu a BBC; “não tenho resposta sobre como é possível roubar tanto dinheiro de um país tão pobre”, disse Pirkka Tapoya, embaixador da UE na Moldávia.

Naquele ano, em apenas três dias, 24 a 26, sucederam-se saques milionários transferindo US$ 750 milhões para empresas fantasmas com donos desconhecidos no Reino Unido e em Hong Kong. Nas ruas, uma van da empresa Klassica Force pertencente a Ilan Shor, diretor de um dos bancos e principal acusado de ser o responsável pelo golpe, rodava transportando doze sacos cheios de dólares quando foi assaltada e em seguida queimada. Os registros das transações foram deletados dos computadores dos três bancos que de imediato pediram falência, sofrendo intervenção do Banco Nacional da Moldávia. No dia 27 o governo moldavo concedeu aos bancos envolvidos um socorro extraordinário de US$ 870 milhões tirados das reservas estatais, o que criou um deficit de 1/8 do PIB que até hoje permanece sem cobertura. No total aquele que é chamado “o roubo do século” sugou cerca de 18,2 bilhões de lei (Leu é a moeda nacional) dos cofres do país. O Centro Nacional Anti-Corrupção prendeu quinze juízes e Ilan Shor depois de passar alguns dias em prisão domiciliar pode eleger-se prefeito da cidade de Orhei (dominada pela sua familia) em 2014 e, nestas eleições, conquistou uma cadeira no Parlamento. Os bancos moldavos são mais do que conhecidos como “lavanderias russas”, nas quais grandes capitalistas a partir de Moscou e Kiev, grupos criminosos e oficiais de governo operam livremente para depois enviarem o dinheiro “higienizado” para a Europa, por vezes em operações triangulares via bancos da Letônia.

Após obter a independência da URSS em 1991, no ano seguinte a Moldávia sofreu uma guerra civil só encerrada graças à intervenção da poderosa 14a. Divisão do Exército russo que aproveitou para isolar uma extensa faixa ao longo do rio Dniester na fronteira com a Ucrânia, logo transformada na república pirata da Transnistria – um dos principais paraísos do contrabando internacional -, que de imediato proclamou a própria independência, até hoje sem ser reconhecida por país algum (nem pela Rússia). A Moldávia continua dizendo que a Transnistria lhe pertence, mas nada pode fazer, pois a Rússia ai mantém cerca de 1.500 homens além de apoiar financeiramente o governo local cujo líder, Viktor Gushan, é um velho companheiro de Vladimir Putin na ex-KGB soviética. O comércio de armas é o carro-chefe das transações ilegais nas porosas fronteiras do território. Em frente ao edifício do parlamento da capital do território, Tiraspol, a guarda simbólica é feita por uma portentosa estátua de Lênin.

Na verdade as tropas da 14a. Divisão estão aquarteladas na pequena cidade de Cobasna, a 200 km de Tiraspol, onde está o maior depósito de munições e armamentos do mundo. “Ainda há 20 mil toneladas de munição para artilharia e infantaria, afora os equipamentos militares”, informou Vitalie Marinuta, ex-ministro da Defesa da Moldávia (2009 a 2014). Granadas, minas terrestres e marítimas, munição a granel, em muitos casos com validade já vencida, têm tido sua remoção de Cobasna muito discutida e o governo russo mais de uma vez comprometeu-se em foros internacionais a fazê-la, sem jamais cumprir suas promessas.

Enquanto a economia da Moldávia tem como núcleo as remessas dos seus emigrantes e a produção agrícola (vinhos, frutas, vegetais e tabaco), a vida em Tiraspol é por inteiro ligada às atividades da empresa Sheriff que pertence, como quase tudo por lá, a Viktor Gushan o qual, a exemplo de vários outros megaempresários russos, optou por esfriar seus ganhos no futebol. Construiu um belo estádio para o Sheriff F.C. que vence todas as competições regionais, mas não consegue competir fora da Transnistria por não ser reconhecido por Federação alguma ligada à FIFA. A base são jogadores estrangeiros de qualidade média interessados em fazer um pé de meia de qualquer jeito, incluindo diversos “craques” brasileiros (p.ex. Leandro Ribeiro; Cristiano, defensor do Volta Redonda; Victor Oliveira, do Fluminense) que aceitam “desaparecer” na ignorada Tiraspol na vã esperança de uma transferência para times do circuito oficial como no caso de Thiago Constância, dez anos artás, vindo do Bragantino que chegou ao Dínamo de Bucareste.

Na política, dois partidos disputam o poder na Moldávia: o Democrático do oligarca Vlad Planotwiuc e de Pavel Filip que é pró-europeu e o Socialista de Igor Dodon ligado a Moscou. A corrupção e a débil economia são os principais problemas. Recentemente, seguindo-se a uma década com os democratas no poder que resultou numa maior aproximação com a Romênia e a UE , a Rússia decidiu retaliar e suspendeu as importações de vinho (em seguida estendida à produção de carnes e frutas) das quais a Moldávia é fortemente dependente; ao ponto de que 5% das terras do país são ocupadas por parreirais. É famosa a vinícola Cricova, na cidade do mesmo nome a onze quilômetros de Chisinau, criada por decreto de Stalin em 1952, com seus túneis subterrâneos a 80 metros abaixo do nível do mar mantidos a temperatura constante entre 12 e 14 graus celsius, com uma extensão total superior a 200 km (dos quais 55 km em uso) e um estoque de 2 milhões de garrafas, sendo 70% de tintos, 20% de brancos e 10% de vinhos de sobremesa similares aos húngaros. Lá, todos se divertem contando a história da visita de Yuri Gagarin que não achou a saída dos labirínticos túneis da imensa adega: “Gagarin encontrou seu caminho no espaço, mas perdeu o rumo na Cricova”.  É possível visitá-la em um passeio turístico de uma hora num minitrem  por 25 euros.

O regime é parlamentarista e as eleições de fevereiro deste ano não apontaram o predomínio de qualquer facção, o que instalou uma séria crise política inviabilizando as ações governamentais, até que neste começo de junho aconteceu o mais inesperado: os dois partidos, inimigos figadais, anunciaram que fariam uma administração de coalizão, sob o comando do pró-russo Igor Dodon. A solução de conveniência, contudo, já havia sido abortada por uma resolução da Corte Constitucional que decretou a dissolução do Parlamento, demitiu Dodon (por não assinar a dissolução) e colocou o 1º Ministro democrata Pavel Filip como presidente interino, convocando nova eleição popular para 6 de setembro próximo. Aguardemos os próximos capítulos. (VGP, 15/6/20190)

Atualização I (em 24/6/2019)

Erdogan derrotado em Istambul

Suirpreendentemente na 2a. eleição para a municipalidade de Istambul em 23/6/2019, o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) de Erdogan que governava a mais populosa cidade da Turquia desde 1994 foi novamente derrotado, e desta feita de maneira irretorquível: o CHP voltou a eleger Ekren Imamoglu com 54% dos votos.

Se, como disse o presidente, quem vencer em Istambul vence na Turquia, as próximas eleições presidenciais poderão representar uma até aqui incrível oportunidade de mudança para um país que nas mãos de Erdogan caminhava celeremente para se tornar uma das mais radicais ditaduras do mundo contemporâneo. Os curdos, que votaram em massa em Imamoglu, esperam que a pressão sobre eles comece agora a ser aliviada.

 

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