Safras e vinhos para todas as preferências

 Safras e vinhos para todas as preferências

Recordações de 1945 e do século XVIII

Algumas safras são inesquecíveis e não só por razões ligadas à vinicultura. Uma delas é a de 1945 que os franceses denominam de “safra da vitória” para lembrar o mundo da derrota da Alemanha na 2a. Guerra Mundial. Outra, mais perdida no tempo, é a de 1775 em Jerez de la Frontera, quando a prática de fortificar seus sherrys (jerez) com aguardente de vinho afinal venceu a batalha contra os que teimavam em priorizar somente os vinhos do mesmo ano, dando início ao sistema de “soleira”, pelo qual o envelhecimento se dá em barricas de madeira empilhadas por vezes ao longo de cem anos. As cinco garrafas ainda restantes do Jerez 1775 – trazidas pelo próprio fundador da casa, o conde Mijail Voronisov, estão expostas na famosa Adega Massandra, no sul da Crimeia, reconhecida pelo Guiness Book dos Recordes como a maior do mundo com seu estoque superior a meio milhão de garrafas. Criada em 1894 durante o reinado do Czar Nicolau II (assassinado em 1917 quando da Revolução de Outubro), teve seus túneis emparedados permanecendo escondida até 1920 quando foi revelada para, então, ser preservada por Stálin.

Nos últimos anos e até 2014, quando a Rússia invadiu e anexou a Criméia, para abrir ou retirar uma garrafa de Massandra era exigida uma autorização do próprio presidente da república. Daí em diante, primeiro o antigo administrador foi demitido e logo em seu lugar assumiu Yanina Pavlenko, como reconhecimento por ela ter votado a favor da anexação do território a Moscou. Não demorou muito para receber a visita do próprio Czar, o ex-membro da KGB Vladimir Putin, hoje presidente da Rússia, acompanhado de um velho amigo, o bilionário italiano Silvio Berlusconi. Durante o passeio pelos corredores da imensa adega, Berlusconi com uma das mais antigas garrafas nas mãos perguntou se poderiam provar e, assim, conhecer seu mais do que precioso líquido. Pavlenko não teve dúvidas e com habilidade retirou a rolha do Jerez 1775 para servir seus ilustres convidados. O governo ucraniano, horrorizado, estimou o prejuízo para o tesouro nacional (em valores de 2019) na moeda local em 4 milhões de hryvnia, o equivalente a 150 mil dólares, com base nas mais recentes vendas em raros leillões (em 1990 e 2001) de duas outras garrafas pela agência Sotheby’s. Ao mesmo tempo, denunciou Yanina por crime contra o patrimonio de seu país, exigiu o pagamento pelo governo russo e declarou Berlusconi persona non grata probindo-o de pisar em território ucraniano por três anos. Contudo, não se espera qualquer efeito prático, pois Massandra e a Criméia estão sob domínio de Putin.

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Massandra, na Criméia. Adega emparedada no subsolo sobreviveu à revolução de 1918. Foi descoberta em 1920 por Stalin, que a preservou.

A importância de cada safra

O conceito de “safra” não deixa dúvidas: corresponde ao ano da colheita das uvas. Acima do equador, no hemisfério norte, começa já próximo ao final do verão em julho e prossegue até novembro, enquanto abaixo, no hemisfério sul e seguindo-se ao período final de amadurecimento dos parreirais, dependendo da uva, acontece entre os últimos dias de janeiro e abril.

Em essência, o fator mais relevante que condiciona a qualidade (e a quantidade da produção) dos vinhos é o clima, obviamente secundado pelo terroir. O dia e a semana do início da colheita é variável, mudando a cada ano e obrigando ao proprietário dos parreirais ou ao  viticultor especializado (ou com larga prática) a “sentir” o momento exato, evitando colher muito cedo quando os taninos podem estar amargos, verdes, subdesenvolvidos; ou muito tarde expondo-se ao risco de que uma chuva de granizo acabe com a plantação, ou que altos níveis de açúcar nos bagos da uva resultem num vinho desequilibrado, aguado. Há variação, também, de acordo com o tipo ou o estilo do produto final desejado. Espumantes (ou os célebres champagnes franceses) e as cepas nas quais – como o tempranillo espanhol cujo nome vem de “temprano” (cedo) – uma elevada acidez é desejável, devem ser colhidos cedo, enquando nos vinhos de sobremesa é o açúcar que conta exigindo que as uvas sejam retiradas mais tarde. O laboratório ajuda muito proporcionando testes cada vez mais específicos do ph e do grau Brix (mede o teor de açúcar) ou a acidez total. A uva obedece a ciclos anuais com uma duração total de 8 meses, com variações entre 130 dias nas regiões mais quentes para variedades precoces até mais de 200 dias em regiões de clima frio ou mesmo continental.

O chamado “paralelo do vinho”, onde estão sempre os melhores, situa-se entre 30 e 50 gráus de latitude sul ou norte e ai as probabilidades de obtenção de boas safras é bem maior. É o caso de países como França, Itália, Espanha, Grécia, Austrália, África do Sul, Chile, Argentina, etc. Contudo, mesmo sabendo que nunca conseguirão fazer algo similar a bons bordeaux ou borgonhas, cada vez mais aventureiros e inovadores plantam uvas em locais improváveis. É o caso dos parreirais implantados nas montanhas da Costa Rica junto à linha de equador, ou em volta do lago Naivasha onde vivem os flamingos cor de rosa em latitude zero no Quênia, perto de Nairobi. Por outro lado, práticas compensatórias que procuram viabilizar as más safras ou simplesmente diminuir custos de produção, fazem-se presentes em muitos países, incluindo desde a mecanização da remoção dos bagos de uva de seus ramos, até a colocação de censores para medir a evolução das plantas ou a colocação de simuladores de sabores e do próprio carvalho no mosto, nem sempre com bons resultados. No caso de vinhedos de excelência e em países onde as regras são mais rígidas, estas intervenções devem ser inclusive informadas ao consumidor que, afinal, precisa saber o que esá tomando.

Há algum tempo encontrei-me com vinhateiros da Rio Sol (da região do Douro) que procuravam, no Brasil, onde produzir vinhos para exportação em grandes volumes. Conheceram o Vale dos Vinhedos em Bento Gonçalves e vizinhanças, mas, assustados com as geadas que proporcionavam uma safra boa apenas a cada quatro ou cinco anos, encantaram-se com o calor do Baixo São Francisco onde, ao contrário do resto do mundo, é possível obter duas safras a cada ano com resultados razoáveis em termos de qualidade final. Lá, na divisa entre Bahia e Pernambuco, sob um clima semi-árido tropical e 9 meses de estiagem em regime de alta luminosidade e baixa umidade, pratica-se a irrigação por gotejamento planta a planta, o que permite programar os meses de colheita, por exemplo entre abril e dezembro quando o mercado externo depende quase que exclusivamente de uvas provenientes da Itália, Espanha, Grécia e o produto brasileiro se torna competitivo.

Esta nova realidade, de produção de vinhos nas mais surpreendentes situações, vem forçando terroirs tradicionalmente não vinícolas a gerar uvas que logo se transformam em garrafas oferecidas a granel e a preços acessíveis para a classe média pelos supermercados do mundo inteiro. Nas prateleiras (até mesmo das milhares de casas comerciais mais especializadas que em anos recentes se multiplicaram sem controle) já não se encontram vinhos com mais de cinco ou seis anos de “idade” (contados do ano da safra), pois os produtores dos grandes vinhos com potencial de envelhecimento cada vez mais enfrentam escassos compradores ricos em condições de pagar-lhes pelos altos preços cobrados.

Dezessete anos de safras

A tabela apresentada a seguir informa as notas atribuídas por especialistas no ramo para dezessete anos de safras (1999 a 2016) segundo o país e/ou região de origem. Dados completos, ano a ano, podem ser vistos em “www.mistral.com.br/content/pdf/24.pdf”. Para entender as épocas de colheita nos países dos hemisférios norte e sul, veja: “winefolly.com/tutorial/start-planning-now-wine-harvest-season”. Um enfoque passo a passo sobre o que ocorre desde a metamorfose  do fruto inicial até o momento da colheita está no texto de Ben O’Donnell e Robert Taylor para a revista Wine Spectator, em: “https://www.winespectator.com/articles/wine-harvest-101-basics-of-crush”.

Notas 10 e 9 se referem a safras excelentes; 8 e 7 muito boas; 6 e 5 boas; 4 e 3 discretas; 2 e 1 medíocres. As melhores safras do Vale dos Vinhedos gaúcho foram proporcionadas pelos anos de 1999, 2002, 2004 a 2006, 2008, 2014 e 2016, resultando em tintos de qualidade. Nos demais anos, o setor penou com a falta de apoio das autoridades brasileiras, ao contrário do que se dá até mesmo na Argentina – onde no governo de Cristina Kirchner o vinho foi elevado à posição de “producto nacional” – permitindo a concessão de empréstimos e facilidades bancárias para financiar produtores em períodos de castigos climáticos.

O conceito da safra anual não se aplica, propositadamente, a champagnes, vinhos do porto e ao jerez. Nestes casos, o vinho de base é misturado com vinhos de safras diferentes que podem até ser provenientes de vinhedos distintos, em busca da manutenção de um perfil que não se altera. É preciso, ainda, reconhecer que a relevância da safra diminui na mesma proporção da qualidade do vinho oferecido. Ainda assim, mesmo vinhos baratos e sem identificação clara de conteúdo, costumam beneficiar-se nos melhores anos. Em alguns países não há qualquer ênfase à cepa que está presente no vinho. Assamblages (misturas) de duas ou três cepas – por exemplo cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc – são comuns. Um grande vinho como um Chateneauf du Pape normalmente coloca no rótulo apenas a indicação de que é feito com “uvas europeias”. De toda maneira, o costume é que a uva principal (responsável por pelo menos 70% do conteúdo) seja explicitada. Não obstante, há casos em que estas noções não são seguidas.
Recordo de uma degustação na embaixada de Portugal em que, de repente, uma espécie de competição instalou-se nos salões, querendo saber quem tinha mais uvas diferentes em seu vinho. O destaque era um produtor que dizia usar 42 espécies de uvas, mas o surpreendente vencedor foi o “Pá” que declarou uma mescla de 98 cepas (ou sub-cepas, pois cada cidade ou aldeia em Portugal tem por costume dar uma denominação própria às uvas que planta) que variavam a cada ano. Brincadeiras à parte, muitos dos assistentes, curiosos, provaram do seu vinho e não houve quem não o elogiasse. (VGP)

 

Safras vinícolas segundo região e país – 1999 a 2016
Região/País Ano
2016 15 14 13 12 11 10 05 00 1999
Velho Mundo
França
– Bordeaux Médoc 10 9 8 6 8 8 10 10 10 7
– Bordeaux Sauternes 8 9 8 8 6 9 9 9 8 9
– Bourgogne Coté D’Or 9 10 8 8 9 7 9 10 8 9
– Bourgogne, Chablis 8 8 10 7 9 8 9 10 8 8
– Rhône 9 10 8 7 8 8 9 9 8 8
– Champagne 8 9 7 8 9 8 8 7 8 8
– Alsace 9 8 8 6 8 6 10 8 8 6
Itália
– Piemonte, Barolo 10 10 7 8 9 8 10 8 8 6
– Toscana, Brunello 10 10 6 8 10 8 10 8 8 9
– Veneto, Amarone 9 10 6 8 10 9 8 8 8 6
– Friulli 10 10 6 8 8 6 5 7 9 10
Espanha
– Rioja 8 8 6 6 8 10 10 10 6 6
– Ribera Del Duero 8 10 6 6 8 10 10 8 8 10
– Catalunha, Priorato 8 10 8 8 8 6 10 10 10 8
– Catalunha, Penedés 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8
Portugal
– Douro 9 10 7 7 8 10 7 9 10 8
– Dão 8 9 4 6 9 8 7 10 8 7
– Bairrada 7 8 5 8 8 10 9 10 8 6
– Alentejo 7 9 6 8 7 10 8 9 9 9
Europa (outros países)
Alemanha, Mosel 8 10 9 8 10 10 8 10 6 8
Austria 8 10 5 10 10 9 9 9 9 10
Hungria 6 5 6 9 5 5 5 10 9 10
Grécia 7 8 7 6 5 8 9 8 10 8
Novo Mundo
Estados Unidos
– Califórnia 9 10 9 10 10 7 9 9 7 9
– Oregon, Pinot Noir 9 10 9 9 9 8 8 8 8 9
Argentina 8 7 8 9 9 9 10 8 8 9
Chile 8 9 10 9 8 8 9 10 6 10
Uruguai 8 10 8 9 8 10 9 8 10 8
BRASIL, Serra Gaúcha 5 5 9 7 10 6 4 10 6 10
Austrália
– Barossa, Shiraz 8 9 7 8 9 6 10 8 4 8
– Coonawara, Cabernet 9 9 8 9 10 6 9 9 8 8
Nova Zelândia, Malborough 8 9 7 9 6 6 10 7 10 10
África do Sul, tintos 9 10 8 8 9 9 8 8 7 7

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