Uma velha história venezuelana

Uma velha e atual história venezuelana

O país da monocultura

Esta é uma história* (necessariamente resumida) de como a Venezuela se tornou o que é hoje sob Maduro, depois de que em suas praias Cristóvão Colombo descobriu a América para logo ser esquecida por nada ter que interessasse ao conquistador espanhol. Sua sina de sempre depender de um só produto para sobreviver começou em 1.620 com a cultura do cacau que perdurou por duzentos anos sendo substituída pelo café, por sua vez inviabilizado durante a guerra pela independência que entre 1.810 e 1.830 arrasou a incipiente economia nacional, ademais cobrando a vida de duzentos mil venezuelanos. Segundo os historiadores, esse foi um período em que se derramou muito sangue, mais dos próprios irmãos que dos súditos da coroa espanhola e o resultado, finalmente, foi um país livre e em ruínas. Na segunda década do século XX surgiu o ouro negro (o primeiro poço foi perfurado em 1.914) e daí em diante o petróleo condicionou de maneira absoluta a vida nacional.

Gravura de Willy Stower (Wikipedia) do bloqueio de Caracas pelas potências europeias em 1902/1903.

A gangorra dos preços do petróleo

Certos costumes (hoje conhecidos como “linhas de ação”) foram adquiridos há muito pela sociedade venezuelana. O comandante Juan Falcón quase ao final do século XIX receava ser deposto e, à frente de um Exército de 4 mil homens, nomeou  2 mil generais. Logo a seguir Antonio Guzmán Blanco, o “Americano Ilustre”, reinou durante dezoito anos (1870 a 1888) e, como nunca teve problemas de orçamento, quiz transformar Caracas, então uma modesta cidade colonial, em “uma pequena Paris, com ideias liberais e civilizadas, próspera e segura para viver” e construiu um Capitólio, estatuas do Libertador e dele próprio, os Banhos Térmicos de Macuto, o Teatro de Ópera. Antes, quando a Standard Oil e a Shell cederam às pressões do governo e reduziram à metade seus lucros, o orçamento nacional multiplicou-se por seis. Dai em diante cada vez que a cotação do barril subia até as estrelas o líder da ocasião se punha a gastar a rodo, construir monumentos, ajudar os países amigos e – convencido de que os preços continuariam a subir para todo o sempre (ou, pelo menos, durante o restante de seu período de governo) -, esquecia-se de diversificar a economia para enfrentar o período de vacas magras que fatalmente se seguiria.

A mania dos militares de quererem mandar no país também não constitui qualquer novidade. Na verdade quase sempre foi assim, mas poucas ditaduras se ombrearam às do Grupo de Táchira (província limítrofe com a Colômbia e que mais tarde daria ao país o seu filho mais ilustre e lamentável, Hugo Chávez), que começou em 1.899 (estendendo-se até 1.945) com o general Cipriano Castro de triste lembrança pois, ao suspender o pagamento das dívidas internacionais, terminou dando motivos para o bombardeio de Caracas por ingleses e alemães. Castro foi substituído por Juan Vicente Gómez, o “Tirano dos Andes” que reinou apoiado por uma terrível polícia secreta e por forças armadas bem treinadas por militares chilenos de formação prussiana. Depois de um breve interregno democrático a Venezuela entrou uma vez mais em um período de negra ditadura (52 a 58) comandada pela ‘Seguridad Nacional’ que torturava e liquidava os opositores do regime na tristemente famosa Isla Guasina dentro da selva na região do rio Orinoco. Uma imagem do fotógrafo venezuelano Héctor Rondón de um soldado gravemente ferido agarrado a um sacerdote pedindo-lhe proteção viajou pelo mundo e ganhou o premio Pulitzer como símbolo da violência daqueles tempos. Sempre na gangorra entre regimes de direita radical e de uma moderada esquerda, à época em que se começava a erguer o Muro de Berlim, em 1.961, o país sul-americano surpreendeu o mundo ao adotar a Doutrina (Rómulo) Betancourt, proibindo que fosse reconhecido qualquer regime que houvesse chegado ao poder pelas forças armadas, o que produziu a ruptura de relações com seus vizinhos latino-americanos. Essa era uma fase inigualável para a Venezuela: ao ritmo de Vereda Tropical de Pedro Vargas a Orquestra Continental e a Billo’s Caracas Boys animavam as noites caribenhas.

Todos ainda recordam o governo de Luis Herrera Campins que ganhou as eleições de 1978 por escassa margem de votos sob o signo da austeridade, mas nova guerra no Oriente Médio (entre Irã e Iraque) fez o barril disparar de 17 para 28 dólares e até uma ponte sem fim unindo as Islas Margarita ao continente foi construída. Ao final, a estatal petrolífera – PDVSA – fez a dívida externa explodir; a “6a. feira negra” de 18 de fevereiro de 1983 produziu uma violenta desvalorização da moeda e uma fuga de capitais para o exterior que retirou 2 bilhões de dólares da economia venezuelana nas três semanas seguintes; a corrupção generalizada estava na mídia diária.

Não demorou muito e Andrés Pérez foi eleito assumindo em plena crise do petróleo provocada pela guerra entre árabes e israelenses de outubro de 1.973 que, no entanto, resultou em que o barril quadruplicasse seu valor em apenas dois meses. O orçamento federal para 1.974 que era de 14,6 bilhões de bolívares, diante de tão inusitado fluxo de ingressos, saltou para 42,5 bilhões. De imediato o presidente, dentre várias medidas econômicas com total apoio do Congresso, congelou os preços dos bens de primeira necessidade, aumentou os salários, ampliou os benefícios da previdência social e o sonho da Grande Venezuela se tornou realidade quando baixou a quase zero o preço da gasolina e o comércio inundou-se de brinquedos, geladeiras e TVs japoneses. A Lei de Demissões Injustificadas tornava quase impossível despedir a um empregado. O número de funcionários públicos duplicou e o país operava a pleno emprego. Falava-se na Venezuela Saudita; a OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo) apoiava emprestando dinheiro (a altas taxas de juros) e os Estados Unidos chiavam. Estima-se que os projetos de Pérez provocaram mais gastos do que os feitos por todos os governos anteriores em quase século e meio desde o fim do colonialismo.

O caos imposto por Chávez e Maduro.

Começaram os “planos econômicos”, tão comuns inclusive no Brasil, e seus inevitáveis fracassos. O Movimiento Bolivariano Revolucionário 200 que reunia oficiais das Forças Armadas tentou sem êxito, bombardeando o palácio Miraflores no início de 1993, o golpe para derrubar o 2º governo de Andrés Pérez na Operación Zamora. Cinco anos mais tarde o Tenente-coronel Hugo Chávez Frias conquistou nas urnas o que havia falhado pelas armas: ocupou a cadeira presidencial onde permaneceu até morrer em 2.013, mas ainda com força para impor um ex-condutor de carros do metrô, o fiel Nicolás Maduro, em seu lugar. Esta fase, com os resultados conhecidos, perdura por quase 21 anos. A Venezuela, que se tornara uma vítima de Hugo Chávez, de imediato caiu nas garras de um bolivarianismo primário que conduziu à falência aquela que já fora a mais rica nação da América Latina.

E agora: um novo Afeganistão para Trump?

Acumulam-se os sintomas de que a situação ainda pode piorar. A inflação em 2.018 superou o 1.000.000% e o número de exilados por desejo próprio já atingiu 3 milhões de venezuelanos numa população de 30 milhões.

Na raiz do problema está a tremenda queda nos preços do barril de petróleo de 2.014, quando de U$ 115 em meados do ano saltou para US$ 40 no Natal, não mais se recuperando. Agora está a US$ 58, pressionado pela redução na oferta pelos países da OPEP e pela crescente produção de petróleo a partir do xisto betuminoso no oeste do Texas. Fruto das sanções impostas pelos Estados Unidos, a produção diária do “crudo”, como é conhecido o petróleo venezuelano (apesar de ser o país com as maiores reservas de todo o mundo), que no ano passado beirava o patamar de 1,2 milhão de barris/dia, em abril de 2.019 encolheu para 480 mil. Contudo, esta é uma situação que não se pode prolongar indefinidamente. O petróleo de xisto (considerado como de fonte não tradicional, pois está sendo obtido por técnicas de “fratura hidráulica” da crosta terrestre com extração a partir de rochas ainda do período paleozóico/permiano localizadas a grandes profundidades, o que encarece e dificulta o processo, além de causar fortes danos ao meio ambiente) é leve e não permite nem a produção de gasolina nem o abastecimento de aviões. Para estes fins é necessário um petróleo mais pesado, ou seja, do “crudo” que só é fornecido pela Venezuela.

Diante do já transparente fracasso da estratégia de emplacar Juan Guaidó como presidente real da Venezuela, Donald Trump ruge e ameaça com uma invasão militar para remover Nicolás Maduro do Palácio de Miraflores. Seria uma repetição da infeliz ideia de George Bush ao ocupar o Afeganistão para expulsar o governo talibã em 2.001, numa resposta ao 11 de setembro. Os resultados foram desastrosos: um governo de longa transição sempre fraco, o fortalecimento da Al Qaeda, a explosão dos cultivos de papoula e da produção de heroína, gastos de US$ 468 bilhões em dez anos pelo governo americano, afinal derrotado. No caso do país sul-americano, as tropas yanques terão de lidar com Forças Armadas compostas por meio milhão de homens, com a Força Nacional Bolivariana (FANB), com as milícias e com os ‘Colectivos’ (vide, neste site, o vídeo: “Origens recentes da crise venezuelana”), grupos chavistas armados até os dentes para os quais numa situação de intensa crise a manutenção de seus privilégios é algo essencial para a própria sobrevivência. (VGP)

 

*. As informações históricas estão em: Pinto, Vitor Gomes – Guerra en los Andes, 2da. edición. Ed. Abya-Yala, Quito, Ecuador, junio 2008. 426p. – Capítulos 5 (Venezuela: petroleo para todos) e 6 (El impasse Hugo Chávez).

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